Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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ENTRE ASPAS > MÍDIA & ESTÉTICA

Reportagens e transtornos de comportamento

Por Cadu Villa Lobos e Suely Ferro em 26/08/2008 na edição 500

Está provado que a beleza é um fator muito importante na sociedade e que a falta dela pode causar dificuldades, assim como a busca pela beleza pode gerar transtornos psicológicos e doenças físicas. As discriminações e preconceitos surgem da valorização excessiva do ‘corpo perfeito’ que os meios de comunicação instituíram e reforçam todos os dias. Nos shoppings e em muitos outros segmentos não se encontram atendentes que não sejam bonitas e atraentes, o que mostra que os menos bonitos, ou feios, são excluídos de muitas oportunidades, principalmente de empregos e salários.

Para as pessoas que se preocupam com a beleza e sabem que a sociedade cobra um padrão perfeito, os procedimentos mais eficazes estão sendo deixados de lado. Com a falta de exercícios, a alimentação irregular, nada saudável, e a pouca ingestão de água, fica impossível ter uma boa saúde e um corpo magro. Como esses ‘padrões’ estão constantemente em pauta nos meios de comunicação, as pessoas que, por falta de tempo e dinheiro, não mantêm uma vida saudável, sentem-se frustradas por não alcançarem as metas estabelecidas.

A banalização da beleza

A mídia, na maioria das vezes, enfoca regimes, tratamentos e remédios milagrosos, mas não explica à sociedade que o mais importante é a regularidade, o equilíbrio e a persistência em hábitos saudáveis. Por outro lado, também sabemos que nos dias atuais não é fácil manter uma vida equilibrada. Tudo na sociedade leva as pessoas a não terem tempo e cuidados consigo mesmas. Nesse turbilhão da vida contemporânea, os indivíduos são esmagados por diversas forças: a indústria ‘do engorda’, da ‘geração saúde’, do ‘emagrecimento’ e dos ‘padrões idealizados’, todos visando a vender seus produtos e utilizando os meios de comunicação de massa para fazê-lo. As pessoas ficam sem saber para onde ir e o que seguir. Daí, surgem os inúmeros problemas que estamos abordando.

Como a maioria das revistas trabalha mais com matérias frias do que com acontecimentos imediatos, principalmente as que falam de estética, elas têm uma vida útil maior e podem também ser emprestadas, passando de mão em mão, ficando em circulação por muito tempo. Quando os conselhos publicados são ‘muito interessantes’, as revistas, além de serem mais vendidas, também são mais repassadas entre os leitores. Muitas vezes, dependendo da matéria, são até xerocadas e, nesses casos, os conselhos dados viram uma verdadeira coqueluche.

A diversidade de metas corporais a serem atingidas, divulgadas pela mídia, deixam as pessoas sem saber para onde ir. O resultado é frustração, que leva aos problemas psicológicos, que por sua vez levam aos problemas físicos. A beleza é necessária na sociedade. É muito bom apreciar o que é belo, mas a mídia vem, cada vez mais, banalizando este fator e, o que é pior, impondo-o a toda a sociedade como um padrão. A beleza, assim como a arte, não pode e não deve ser padronizada.

Propagandas subliminares

Nas revistas, principalmente as de estética, a cirurgia plástica é constantemente citada e incentivada através de matérias com depoimentos de artistas, de médicos e de pessoas que transformaram suas vidas por causa das cirurgias, o que não é uma verdade. De todos os métodos existentes para modelação e melhoria do corpo, os cirúrgicos são os que têm resultados mais imediatos, porém, têm seus riscos. Mas o pior não é nem o risco de saúde ou de morte que toda cirurgia traz. Os preços das intervenções plásticas são altos e não são acessíveis para a maioria das pessoas, o que também gera frustração.

Talvez o pior dos fatores relacionados à plástica seja a eterna insatisfação que ela, por ser tão propagada pela mídia, traz às pessoas. A maioria das pessoas que faz uma plástica nunca faz só uma vez. Acabam se viciando nas mudanças e a busca por beleza rápida torna-se um ideal de vida. Muitas delas, por realizarem várias plásticas, acabam perdendo totalmente suas características físicas e psicológicas – tornando-se outras pessoas, em grande parte vazias.

A mídia, como pensávamos, insere com muita persuasão seus modelos estéticos. Os preconceitos e discriminações mostram como a padronização dos corpos ou a ditadura da beleza, divulgados pela mídia, constroem mitos na sociedade. Esses mitos, não alcançáveis, agravam o mal-estar social que já existe pela diferença de classes. As revistas, com suas reportagens e propagandas subliminares sobre beleza, aparentemente inocentes, reforçam as exclusões sociais, o que torna a vida mais difícil, principalmente para as classes baixas, que têm menos acesso, tempo e dinheiro para melhorarem a aparência.

Políticas públicas

A obrigação em ser belo é um fardo muito pesado, principalmente para mulheres, adolescentes e os menos privilegiados financeiramente. A beleza, que deveria ser algo bom na sociedade, acaba prejudicando essa mesma sociedade e isso se deve à distorção de valores preconizada pela mídia, idealizada pela publicidade e financiada pelas empresas, que visam somente a obter lucro, não se importando com as conseqüências sociais de seus atos e estratégias.

As revistas têm um papel fundamental nesse jogo da beleza, pois são mais duráveis que os outros meios, agindo como catalisadoras dos discursos construídos. O que é estabelecido na mídia se concretiza na sociedade, que sofre as conseqüências. Esperamos que nossa perspectiva tenha contribuído para ampliar e aprofundar a discussão sobre a influência da mídia na formação de novos hábitos, pensamentos e atitudes referentes ao corpo e, também, para se pensar em políticas públicas que visem a regular a publicidade de alimentos, fiscalizar a produção de novos produtos alimentícios e farmacêuticos, como também seus rótulos e bulas.

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Jornalistas e co-autores do livro Corpos estéticos

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