Quinta-feira, 22 de Junho de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº946

FEITOS & DESFEITAS > VIRADA CULTURAL

Retrato de uma sociedade dividida

Por Eric Renan Bragion e Diana Gonzalez em 18/05/2007 na edição 433

Era como um dia qualquer. Logo pela manhã as padarias já estavam abertas para que aqueles que fossem ao trabalho pudessem desfrutar seu desjejum. Os noticiários da manhã apontavam que alguns atentados haviam ocorrido na noite anterior na Grande São Paulo. Até aí, nada fora do normal, em uma sociedade que convive diariamente com a violência. Próximo às 12h do dia 12 de maio de 2006, o comércio começa a fechar as portas sinalizando o início da maior onda de violência contra forças de segurança e alguns alvos civis. Estava determinada a diminuição de público na segunda edição da Virada Cultural, realizada dia 20 e 21 de maio, o qual, segundo dados da organização, atingiu 1,5 milhão de pessoas nos dois dias de festa.

Em 2007, no dia 5 de maio, o dia amanhecera ensolarado abrindo a oportunidade do maior espetáculo cultural da cidade atrair inúmeras pessoas. Antes das 18h, horário previsto para o início das apresentações, o público já chegava aos diversos pontos da cidade, de diversos lugares, capital, interior e litoral, uma miscigenação de raças e culturas. Em cada ponto, um diferente tipo de atração, diversas tribos reunidas pacificamente com o objetivo de apreciar as atrações. O evento tornou notícia de todos os veículos de comunicação. Faziam-se presentes, em diferentes horários, revistas, jornais, rádios, TVs e internet. Com o anoitecer, permanecia o público interessado nas atrações, enquanto a maioria dos repórteres voltava às redações.

Na Praça da Sé, testemunha de diversos eventos e manifestações, a maior concentração de pessoas do evento, cerca de 20.000 pessoas, segundo informação da Polícia Militar, assistia às apresentações. Em um dos bares que funcionavam nos arredores da praça, um número grande de pessoas saía e entrava para comprar bebidas e utilizar o sanitário. Ao fundo, vindo da área do único banheiro em funcionamento ali, dois policiais encaminhavam-se para fora do estabelecimento. Ao avistá-los, um dos populares comentou com seu colega: ‘Está tão cheio que até os policiais estão aqui no bar.’ Ao ouvir o comentário, o policial, não identificado, que vinha atrás de seu colega, agarrou-o pelo colete, olhou-o com uma cara enfurecida e questionou: ‘O que você disse?’ Sem entender o motivo do questionamento em tal tom, o cidadão simplesmente respondeu o que havia realmente dito.

Ocupação da banca

Entre tantas pessoas, alguns tentavam encontrar lugares de onde pudessem ver melhor o palco: árvores, telefones públicos e a estrutura metálica do telão estavam sendo utilizados como arquibancadas até então. Um rapaz, de altura mediana, sem camisa, subiu em uma banca de jornais localizada na Praça da Sé, em frente ao número 152, próxima ao palco, e ali começou a dançar. Sob a banca havia uma escada branca de cinco degraus, provavelmente utilizada pelo dono para pendurar os seus produtos. Ao vê-la, o jovem imediatamente a pegou e deu a seus colegas que ainda estavam na calçada.

Com o acesso facilitado pela escada, diversas pessoas agora dirigiam-se ao para cima da banca. Nos seus aproximadamente 4,5 m2 de área, a cobertura da banca agora comportava cerca de 25 pessoas dançando e andando ao redor. A proximidade da banca com o prédio à sua frente permitiu que algumas pessoas saltassem da banca para o prédio, permanecendo em cima de letreiros e nas sacadas do primeiro andar.

Depois de um longo período de espera, com uma hora e meia de atraso, finalmente subiu ao palco a banda mais esperada da noite, Racionais MCs. Conhecida por suas letras fazerem a aversão da corporação da Polícia Militar, durante as músicas alguns dos fãs dirigiam-se aos oficiais presentes. E assim iniciou-se a onda de violência. ‘Tudo começou devido à letra das músicas que estavam cantando’, afirmou a sargento Roseneide que não forneceu o sobrenome.

Com o efetivo apontado pela Polícia Militar de 150 policiais, alguns destes dirigiram-se à banca de jornal para retirar os fãs que estavam ali em cima. Ao avistarem a força policial chegando, desceram imediatamente, não necessitando uma intervenção maior. Porém, posteriormente, outro grupo ocupou o local.

‘Vai sobrar pra todo mundo’

Em uma ação mais do que ousada, um policial dirigindo uma das viaturas da PM, um carro Palio, dirigiu o veículo a toda velocidade para cima da população que ocupava a rua onde fica a banca de jornal. A ação, sem motivos reais por parte do policial, gerou revolta nos presentes. Afinal, antes era um fato isolado, mas agora muitos quase foram atropelados. A retaliação foi imediata: garrafas começaram a ser arremessadas em direção aos policiais que se encontravam em torno da banca. ‘A PM cumpriu sua função de promover a tranqüilidade e ordem pública’, afirmou o tenente da PM Jackson, que também não forneceu o sobrenome.

Rapidamente, na mesma rua, só que no fim da Praça da Sé, cerca de 20 policiais formaram um cordão de isolamento. Com as expressões do rosto fechadas e cassetetes na mão, começaram a avançar rua acima provocando a dispersão dos que estavam à sua frente. A fúria da população aumentou ainda mais. Agora, cada vez mais garrafas voavam em direção à polícia que estava concentrada em frente à banca. ‘A polícia teve que agir, pois os policiais da base de operações estavam sendo atacados’, publicaram alguns veículos de comunicação.

A base de operações da PM, montada no meio da praça, encontrava-se tranqüila, sem nenhuma retaliação. Os policiais estavam desprotegidos até aquele momento, ocupando os mesmos postos que ocupavam anteriormente, porém agora estavam com as mãos nas armas destravadas que, até então, estavam no coldre. Para o tenente Jackson, a banda incentivava a população a ignorar a polícia. ‘Eles diziam que a polícia não podia acabar com o show’, declarou. E o que a maior parte dos ali presentes queria era somente se divertir.

A situação tornou-se insustentável. Os policiais insistiam em se manter em frente à banca, mas a população não concordava com tal medida. Com a violência, partiram para cima do público, que se dispersou por onde era possível. ‘Isso não devia ter acontecido, vai sobrar pra todo mundo. Daqui a pouco vão estar em cima da gente’, disse o coronel Brandão aos outros oficiais da polícia quando discutiam o ocorrido logo pela manhã, após a ocorrência ser controlada. À frente do palco, uma área destinada à imprensa e aos convidados VIPs foi invadida. Fãs subiram ao palco e, junto com a banda, tentaram continuar o show, porém não havia como.

‘Não fica aqui, circula!’

Viaturas policiais começaram a chegar de todos os lados, juntando-se aos demais da corporação. Direcionados pelo grupo de policiais que havia feito o ‘cordão de arrastão’, o público foi em direção aos outros centros de entretenimento que faziam parte do evento, descendo a Rua 15 de Novembro. ‘Os vândalos foram em direção às demais áreas de shows para causar algazarra, tivemos de ir controlá-los’, explicou o tenente Jackson.

Quando a Força Tática chegou (noticiado como sendo a tropa de choque pela maioria dos veículos), poucas pessoas se encontravam na região da Praça da Sé. Havia somente alguns jornalistas e populares. Apesar da relativa calmaria, a Força Tática adentrou a Praça da Sé de armas em punho e já atirando balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. Foram em direção ao público, que já se encontrava descendo a Rua 15 de Novembro. Conforme constatado e registrado pela repórter fotográfica Mastrangelo Reino, alguns policiais utilizaram pedaços de pau para agredir a população. ‘Só poderá ser instalado inquérito policial caso alguém registre um BO a respeito do assunto’, justificou a assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo a respeito da questão. E ainda complementou: ‘A polícia não tem por que ter tido tal ação. Afinal, o estado fornece os equipamentos necessários para este tipo de situação. Não há motivo para utilizarem pedaços de pau.’

Enquanto a Força Tática seguia o público ladeira abaixo, algumas pessoas, perdidas devido à confusão, tentavam retornar ao metrô, de onde então partiriam. Em frente aos carros da imprensa, algumas delas se dirigiam ao metrô calmamente até um dos policiais chegar com o cassetete dando pancadas e berrando ‘Não fica aqui, circula!’

Saldo do conflito

Às 7 horas, os policiais já estavam todos juntos e alinhados na Praça da Sé novamente. Em pequenos grupos, voltavam às suas bases após uma madrugada conturbada. Os responsáveis pela operação forneciam entrevista aos três veículos presentes durante toda a ação, entre eles uma repórter de um dos maiores jornais do país. Ao comentar que a polícia sabia que poderia haver confusão no local devido à localização e modo de realização, o oficial foi questionado se a organização do evento foi alertada sobre o assunto. A repórter acima citada, contrariando todos os conceitos de ética jornalística, interveio na resposta do entrevistado: ‘Na minha opinião, não deveria haver nem motivos deles fazerem isso, todos sabem como esta banda é.’ Nessas horas é que nos perguntamos se a imprensa brasileira realmente sabe fazer o seu papel.

O saldo do conflito, segundo a Secretaria de Segurança Pública, foram quatro policiais feridos, porém não sabem as lesões, furtos e depredações em uma loja do McDonald’s, uma do Rei do Mate, 12 lojas dentro da estação da Sé e em uma banca perto do Largo São Francisco. Foram efetuadas 11 prisões: uma por desacato, sendo este liberado logo em seguida; três adolescentes presos por furto qualificado aguardavam a presença dos pais até as 18h de domingo; quatro por danos ao patrimônio público, que poderiam ser liberados mediante pagamento de fiança; e três presos que serão indiciados por furto qualificado e corrupção de menores.

Segundo levantamentos, três bancas de jornais sofreram danos, e não uma só como divulgado: uma na Rua 15 de Novembro, registrado em imagens por nós, e as outras duas registradas pela Folha de S. Paulo (ver aqui e aqui)

Uma zona de guerra

A assessoria de imprensa do McDonald’s não tinha sido consultada por qualquer veículo de comunicação até a manhã da segunda-feira. Segundo eles, a loja do McDonald’s, localizada na Liberdade, teve um vidro quebrado, porém o dano foi reparado e a loja funcionou normalmente na segunda-feira.

A rede de lojas Rei do Mate também não foi procurada pela imprensa. Segundo o franqueado, as mercadorias de cinco freezers foram roubadas, além de telefones, máquinas de cartão de crédito e um computador. Outro computador não foi levado, mas quebraram-no. O prejuízo estimado pelo proprietário é de aproximadamente R$ 30 mil.

O metrô informou por meio de sua assessoria que, diferentemente do publicado pela imprensa e divulgado pela Secretaria de Segurança Pública, 13 lojas do acesso sul foram depredadas. A área foi isolada para perícia às 6h30 de domingo, sendo liberada somente às 18h30. As imagens gravadas pelas câmeras de segurança foram cedidas para o inquérito policial.

A rede de Lojas Americanas, citada em alguns lugares como afetada pelo conflito também, foi procurada, porém não obtivemos um retorno até o presente momento.

Em 2006, a Virada Cultural foi marcada pela violência que amedrontou a população. Em 2007, situações que poderiam ser controladas pacificamente foram alastradas por toda a região. Como definido por uma das pessoas presentes na Praça da Sé, o show dos Racionais MCs terminou no que parecia uma zona de guerra, como o Iraque.

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Estudantes de jornalismo na Universidade Santa Cecília (Unisanta), Santos, SP

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