Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Revista deveria perguntar mais

Por Michelson Borges em 20/04/2010 na edição 586

Quando Chico Xavier morreu, há oito anos, a revista Superinteressante lhe dedicou a reportagem de capa – na verdade, quase um panfleto pró-kardecismo. No dia 2 de abril deste ano, o mais famoso médium brasileiro completaria 100 anos. Não deu outra: voltou a estampar a capa da maior (em tiragem) revista de divulgação científica nacional. No editorial, lemos as justificativas para a pauta: ‘Sua [de Chico] liderança foi, acima de tudo, espiritual. Por isso, merece ser respeitado.’ Ok. Vou me lembrar disso em dezembro, quando Jesus ou a Bíblia forem novamente tema de reportagens críticas e vendedoras.

O editorial deste mês, assinado pelo diretor de redação da Super, Sérgio Gwercman, faz também uma ressalva:

‘Mas não podemos confundir respeito com reverência. […] Porque o jornalismo existe nas perguntas – e um jornalista não deve deixar de fazê-las, qualquer que seja a importância do personagem. É assim que trabalhamos aqui na Super. Não somos pró ou anti-Chico Xavier, como não somos favoráveis ou contrários ao papa, à Bíblia, a Charles Darwin. Nós nos damos o direito de fazer perguntas a todos eles. Às vezes, incômodas. Mas nem por isso desrespeitosas.’

Essa foi uma das maiores pérolas que li na Superinteressante nos vários anos em que a acompanho. Depois de analisar brevemente a reportagem sobre Chico Xavier, quero voltar às palavras bombásticas de Gwercman.

O lado ‘mártir’ do espírita órfão

Embora tente posar de crítico, mais uma vez o pessoal da Super incensa o espiritismo. Praticamente, o único momento na reportagem em que lançam alguma dúvida sobre Xavier é este: ‘Em 1971, um repórter da revista Realidade, José Hamilton Ribeiro [por sinal, paraninfo da minha turma de Jornalismo na UFSC, em 1995], visitou as sessões de psicografia. E denunciou: tinha truque ali. `Meu fotógrafo viu um dos assessores de Chico levantar o paletó discretamente e borrifar perfume no ar. As pessoas pensavam que o perfume vinha dos espíritos´, diz Ribeiro.’

José Hamilton, como bom repórter (um dos melhores), não se rendeu ao mito. Ele, sim, fez as perguntas certas, duvidou e apurou. E a Super? Passa por cima dessa denúncia antiga e segue apontando ‘evidências’ de que Chico teria sido mesmo um canal de comunicação dos mortos com o mundo dos vivos. A revista informa que as assinaturas nas cartas que o médium psicografava eram muito semelhantes às dos supostos autores do ‘além’ e até serviram como prova em três julgamentos (num desses, a ‘vítima’ enviou uma mensagem através de Chico dizendo que a morte dela havia sido acidental).

A reportagem (que deveria perguntar) também afirma que quando Chico emprestava a mão para escritores famosos, como Olavo Bilac e Castro Alves, as obras decorrentes dessa ‘parceria’ possuíam estilo reconhecido como fiel aos textos originais. Depois exalta o lado ‘mártir’ do espírita órfão que foi maltratado na infância e sofreu de várias doenças na velhice, conquistando a simpatia de ‘todo o país’, como se o sofrimento e as obras meritórias isentassem alguém das perguntas que a Super prometeu, mas não fez.

Quando foram feitas perguntas incômodas?

Como a revista já deixou claro em edições passadas, a Bíblia não lhe serve de fonte de informações. Portanto, jamais poderá perguntar devidamente sobre a origem dos fenômenos que acompanharam o médium – pelo menos para contrastar visões religiosas a respeito do estado do ser humano na morte. A revista poderá apenas ficar admirada (como mostrou nas linhas e entrelinhas) com esses fenômenos espíritas, sem ao menos se perguntar se eles realmente teriam algo a ver com supostos espíritos de mortos.

Antes de concluir, quero voltar às palavras de Gwercman e deixar uma pergunta no ar: ‘É assim que trabalhamos aqui na Super. Não somos pró ou anti-Chico Xavier, como não somos favoráveis ou contrários ao papa, à Bíblia, a Charles Darwin. Nós nos damos o direito de fazer perguntas a todos eles. Às vezes, incômodas. Mas nem por isso desrespeitosas.’

A pergunta: Quando foi que a Superinteressante fez perguntas incômodas a Darwin ou ao darwinismo? Resposta: nunca.

Que esse editorial jamais seja esquecido.

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