Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Revolução tecnológica alterou as bases da profissão

Por Lilia Diniz em 25/10/2013 na edição 769

Na edição do Observatório da Imprensa exibida pela TV Brasil na terça-feira (22/10) Alberto Dines entrevistou o jornalista e ex-deputado federal Fernando Gabeira (vídeo aqui). Depois de um longo período mergulhado na política, Gabeira volta ao jornalismo e agora em uma plataforma inédita em seu currículo: a televisão. Como repórter de rua, ele comanda um programa que leva o seu nome na GloboNews. Da letra impressa para o vídeo, aos 72 anos, Gabeira mostra a empolgação de um jovem iniciante. Ícone da luta contra a ditadura militar no Brasil, Gabeira ingressou na luta armada, foi preso e passou anos no exílio. Publicou 15 livros, entre eles o best seller O que é Isso, companheiro?, que foi para as telas de cinema. Foi deputado federal por quatro mandatos.

Na abertura do programa, Dines perguntou a Fernando Gabeira que motivos o levaram a voltar para o trabalho de rua. “Eu não recomeçaria com outra coisa que não fosse como repórter porque é o tipo de trabalho que sempre me fascinou, sempre esteve à altura da minha curiosidade, da minha vontade de buscar outras coisas. E não há uma atividade no jornalismo que seja tão estimulante quanto a do repórter”, disse Gabeira. Dines comentou que as novas gerações, apesar de serem capacitadas, não têm tanta curiosidade. Para o entrevistado, a sua geração parece mais eclética. Como os jornalistas de hoje são mais especializados, não têm a característica de “navegar” por temas diferentes.

Novos desafios para um jornalista experiente

Dines perguntou o que levou um jornalista consagrado no papel impresso a se aventurar na televisão. Gabeira contou que a revolução tecnológica foi a grande responsável pela mudança porque alterou as bases da profissão. Gabeira acredita que, embora hoje o texto continue sendo importante, os jornais impressos passaram a oferecer imagens em movimento, entrevistas em vídeo, animações gráficas. Em função do fascínio pela imagem, o texto tornou-se um elemento subordinado. Antes, a palavra impressa dominava as redações e a fotografia servia apenas para ilustrar o texto.

“Para me reintegrar ao jornalismo eu queria passar por isso”, explicou Gabeira. Ele ressaltou que a profissão, nos anos 1960, era bem remunerada, mas hoje as empresas sofrem com o impacto da revolução digital. No entanto, as possibilidades para contar uma história são muito mais ricas. “Isso é um fascínio muito grande. Por mais complexo que seja o tema, os mecanismos à disposição para apresentá-lo são formidáveis”, disse o jornalista. Por outro lado, o trabalho de um repórter cinematográfico é mais pesado porque envolve diversos equipamentos. Para produzir um texto, papel e caneta são suficientes.

Gabeira se mostrou preocupado com a fragmentação das audiências. “Hoje, cada vez mais, você trabalha com audiências especializadas. Nós tivemos um grande período da televisão aberta, depois [vieram] os canais fechados, agora tem os canais na internet. Então, você tem uma multiplicidade de canais de forma que uma pessoa que se interessa por gatos possa passar o dia inteiro vendo temas de gatos na televisão ou no computador. Isso é um dado novo: com a revolução digital, alguma coisa se quebrou dentro da cabeça do editor”, afirmou. Se antes os editores eram encarregados de apresentar ao cidadão o “menu” de informações escalonadas de acordo com a importância, hoje, cada pessoa monta o seu cardápio de notícias.

A política como alternativa

Dines comentou que a trajetória de Gabeira começou no jornalismo, passou para a política, de lá para a ecologia e, depois, voltou ao jornalismo. Insatisfeito com as poucas possibilidades para o jornalismo após a decretação do AI-5, quando a censura se instalou fisicamente nas redações, Gabeira viu na política uma forma de resistência à ditadura militar. “Quando fui para o exílio e vi que aquele processo político, por mais bem intencionado que fosse, fracassou – nós perdemos o combate, estávamos esperando a volta –, eu percebi que com o fracasso daquele processo era preciso também questionar os fundamentos teóricos dele. Era preciso encontrar outros elementos de progresso que não fosse a chamada luta de classes, que era onipresente. E, nesse tempo, surgiu a questão da ecologia como uma possibilidade de renovar o processo político”, lembrou Gabeira.

Fernando Gabeira chegou à Suécia em 1973, um ano após a primeira grande reunião mundial sobre o clima. Já naquele período, havia grupos em Estocolmo que militavam no campo da ecologia. Um deles lutava para que os carros não trafegassem no centro da cidade. “Eu fiquei impressionado com aquilo. Simultaneamente, começaram a surgir na cidade algumas lojas vendendo alimentação orgânica, alimentação natural. Aquela visão de mundo que começou a aparecer ali, junto com os debates internacionais, me serviu muito”, disse o jornalista. Gabeira contou que a visão que o Brasil tinha da questão ambiental era “estapafúrdia”. Na época da conferência, o governo militar fez um anúncio dizendo “bem-vinda, poluição!”, porque acreditava que ela significava o progresso.

Dines comentou que, atualmente, o cidadão brasileiro se sente no direito de aumentar o padrão de consumo, o que é um risco para o ambiente. Por isso, é complicado despertar a consciência ecológica. “Em um país emergente você tem que buscar uma combinação, que é reduzir o consumo onde ele for supérfluo, mas estimular onde ele é aquém das necessidades da dignidade humana”, sublinhou o jornalista. No Brasil, é preciso orientar os hábitos de consumo porque os modelos atuais são inviáveis. Um dos exemplos que se deve estimular, na opinião de Gabeira, é o uso do transporte coletivo de qualidade no lugar do carro particular.

“Uma outra coisa que preocupa muito em escala global, não só em países emergentes, é que a redução do consumo é algo muito difícil de você pedir. A maneira como eu vejo, e talvez a humanidade se safe por aí, é você continuar consumindo muito, mas produtos não materiais. Estimular cada vez mais o produto não material, mas manter uma certa estabilidade nos produtos materiais. Quando eu era garoto, chegava a Juiz de Fora um filme de quinze em quinze dias. Hoje são quinhentos filmes por dia à disposição para utilizar como você quiser. O espectro do consumo aumentou muito nesse campo não material”, constatou o entrevistado. Gabeira acredita que, em países onde a dignidade humana já está assegurada, soluções como esta podem ser postas em prática para frear o consumo não sustentável.

O mundo em ebulição

Dines pediu para Fernando Gabeira relembrar outras experiências fora do Brasil. O jornalista destacou o período que esteve em Cuba, logo após a tomada de poder por Fidel Castro, em 1959, onde pôde acompanhar os avanços e retrocessos na ilha; em seguida, pôde conhecer a socialdemocracia europeia, principalmente a sueca e a alemã; acompanhou a queda do presidente chileno Salvador Allende, em 1973; o fim do Muro de Berlim, em 1989 e a fragmentação da Iugoslávia. “Eu estava no Chile no dia do golpe. Eu estava em frente ao [palácio presidencial] La Moneda quando os aviões começaram a bombardear. Aí eu saí e vivemos um processo difícil, que foi a colocação dos brasileiros nas embaixadas. Éramos muitos brasileiros, todos precisando fugir”, contou o jornalista.

Dines levou para o debate as manifestações tomaram o país a partir de junho. Fernando Gabeira ressaltou que é simpático ao movimento: “Em um país em que aparentemente tudo ia muito bem, em que todos estavam muito felizes, surgiu de repente aquele movimento para dizer uma coisa muito simples. Embora as mensagens sejam múltiplas, era o seguinte: ‘Nós pagamos imposto e os serviços que nós estamos recebendo não estão razoáveis, não são bons. Nós não achamos que a saúde esteja bem, que a educação esteja bem e nem que os transportes estejam bem. Isso era o tema central, mas outros componentes vieram”, avaliou Gabeira. O jornalista relembrou que o anarquismo invocado por parte dos manifestantes havia recebido um impulso a partir dos movimentos antiglobalização.

Desde os primeiros protestos, Fernando Gabeira identificou que a violência poderia afastar rapidamente as grandes massas das ruas. O jornalista cobriu as manifestações do dia 7 de setembro para o seu programa na GloboNews. “Eu senti que já não havia mais aquele impulso. E percebi que se a violência não esvaziou as ruas, ficou claramente demonstrado que ela não foi capaz de trazer as pessoas de novo”, avaliou o jornalista. Dines comentou que em momentos de tensão, como os que o Brasil tem vivido por conta das manifestações, a sociedade não evoca o pensamento pacifista de figuras emblemáticas, como Mahatma Gandhi e Martin Luther King. “A paz não é uma grande notícia, a não ser quando ela vem do término de uma grande guerra”, constatou o entrevistado. Gabeira lembrou que o legado desses líderes só é valorizado em efemérides. Um exemplo foi a comemoração de cinquenta do histórico discurso de Luther King nos Estados Unidos.

“A questão da violência ou da paz esteve presente em quase todos os movimentos. Você vai a Israel e vê que houve essa discussão lá. Vai ao movimento negro e teve o Malcolm X. Até o Dalai Lama me confessou: ‘Olha, tem uma garotada no Tibet que quer a independência, mas eles acham que eu sou muito tranquilo. Eles querem pegar em armas’. Então, essa discussão entre o caminho armado e o caminho pacífico é uma tensão permanente. Tanto Luther King quanto Gandhi eram líderes de um movimento que tinha um objetivo. Hoje, na verdade, você discute violência ou paz sem que haja objetivo nos movimentos”, ponderou Fernando Gabeira. O jornalista ressaltou que é preciso ter uma visão clara do seu objetivo para que a não-violência se constitua em uma alternativa viável.

 

A volta do repórter

Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 706, exibido em 22/10/2013

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Ele começou no jornalismo ainda menor de idade, com 17 anos, no semanário mineiro Binômio, cujo slogan era “órgão quase independente”. É o profissional de imprensa que mais tempo passou na vida pública: 50 anos, meio século. Quatro mandatos como deputado federal, nove anos no exílio. Foi candidato a presidente da República, a governador do estado do Rio e a prefeito da cidade do Rio. Derrotado nas urnas, ganhou sempre tornando-se uma das referências morais da sociedade brasileira.

Nunca parou de escrever. Seu primeiro livro, um retumbante campeão de vendas, mais tarde levado ao cinema, abriu caminho para outros seis.

Com essas armas e bagagens retorna agora ao jornalismo com um programa semanal de reportagens na GloboNews.

Fernando Gabeira, por que recomeçar gastando sola de sapato como repórter?

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Lilia Diniz é jornalista

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