Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > PROFISSÃO PERIGO

Riscos limitam trabalho de correspondentes

03/04/2006 na edição 375

O seqüestro da jornalista americana Jill Carroll e o grave acidente sofrido pelo âncora da ABC Bob Woodruff em janeiro deste ano levantaram novas discussões sobre as práticas jornalísticas no Iraque. Muitos americanos ficaram cientes dos perigos enfrentados pelos profissionais da mídia no país. No entanto, tais eventos tiveram pouco impacto na maneira em que estes profissionais trabalham. Os repórteres têm seus movimentos limitados e vêm aumentando a segurança há algum tempo. Ainda assim, continuam encontrando formas de cobrir a guerra.

Com poucas exceções, desde que o nível de perigo cresceu – com a onda de seqüestros em 2004 e o ataque à bomba ao Hotel Palestina em 2005 –, a maior parte das empresas de mídia de menor porte do Ocidente fechou seus escritórios no Iraque. A maioria dos freelancers parou de trabalhar de forma independente no país. Aqueles que ficaram moram fora da ‘zona verde’, controlada pelos EUA, em hotéis ou áreas cercadas por seguranças iraquianos.

Larry Kaplow, chefe do escritório da Cox Newspapers em Bagdá, é um dos jornalistas há mais tempo no Iraque; ele se mudou para o país em março de 2003, antes da invasão americana que ocorreu naquele mês. Desde o início do conflito, ele acompanha a piora nas condições de trabalho: desde quando jornalistas podiam dirigir relativamente livres pelo país, cobrindo fatos cotidianos, acontecimentos políticos e um nível de violência não tão intenso até o panorama atual, com bombas explodindo diariamente e jornalistas estrangeiros raramente dirigindo fora da cidade porque as estradas são muito perigosas.

Kaplow afirma que a pouca liberdade que os repórteres tinham acabou depois da recente onda de seqüestros de estrangeiros no país nos últimos meses, incluindo o de Jill Carroll e de dois repórteres de uma TV iraquiana. ‘Não temos acesso a muitas áreas da cidade. Também não podemos nos expor em público, como ir a restaurante ou andar na rua, por muito tempo’, relata. Mesmo assim, ele afirma que, como outros repórteres, rejeita a classificação de ‘jornalista de hotel’ sobre o trabalho da imprensa no Iraque.

Ainda é possível trabalhar

O jornalista afirma que as pessoas não têm idéia de como é o trabalho dos correspondentes no país. Apesar da crescente violência, os repórteres ainda conseguem realizar um bom trabalho, diz ele. ‘Estamos tendo contato com iraquianos diariamente e somos capazes ainda de trabalhar’, relata, acrescentando que as equipes de TV e rádio podem ter algumas vezes restrições diferentes daquelas encontradas pela imprensa escrita.

Kaplow, assim como repórteres de diversos jornais americanos, mora em um hotel fora da ‘zona verde’, com seguranças iraquianos e não americanos. Ele costuma sair em dois carros de passeio iraquianos; um para ele e seu tradutor e outro com iraquianos que os mantêm fora da rota de comboios de soldados americanos e iraquianos e vigiam se há alguém seguindo os carros. Para recolher a opinião da população, Kaplow afirma que anteriormente podia parar o carro em uma rua comercial e, de loja em loja, entrevistar os habitantes. Agora, ele alega que tem de parar em uma loja e ficar por 20 minutos, então ir para outro bairro, sempre vendo se não está sendo seguido, e repetir o procedimento. ‘Dá o mesmo resultado, mas é necessário mais tempo e atenção’, conta ele.

Situação pior para a TV

Profissionais de rádio e jornais tendem a trabalhar com pouca segurança; alguns têm guarda-costas, viajam em dois carros, e evitam ficar longos períodos de tempo entrevistando iraquianos em lugares públicos, por medo de serem vistos por possíveis seqüestradores.

Borzou Daragahi, chefe da sucursal do Los Angeles Times em Bagdá, afirmou que evita marcar encontros na rua, mas, assim como muitos repórteres, ainda viaja intensivamente para partes perigosas da cidade, incluindo a parte ocidental na qual Jill foi raptada.

As três maiores agências de notícias – Reuters, Associated Press e France-Presse – fornecem a cobertura da guerra e contam com uma rede de repórteres e cinegrafistas iraquianos. A Reuters emprega 70 jornalistas iraquianos e dezenas de assistentes em todo o país para complementar o trabalho de sete funcionários estrangeiros que se mudaram para o Iraque – e que ficam limitados ao escritório, à ‘zona verde’ e a viajar com soldados americanos, como informa Alastair Macdonald, chefe da sucursal da agência em Bagdá.

Entretanto, ao contrário dos repórteres de jornal, que podem se vestir como os habitantes locais e encontrar as pessoas dentro de lojas ou em casas não visíveis da rua, os repórteres de televisão têm de estar acompanhados de cinegrafistas e técnicos de som. Eles evitam trabalhar na rua ou em lugares públicos, mas, quando o fazem, são acompanhados por seguranças armados. ‘É talvez o pior período para se cobrir a guerra. É difícil saber em quem confiar e nossa equipe local agora também é alvo de violência, o que limita nossa capacidade de ter informações diretamente dos iraquianos’, conta Richard Engel, repórter da NBC no Iraque desde março de 2003.

Desde que o conflito começou, há três anos, 91 jornalistas e profissionais da mídia foram mortos – a maior parte iraquianos –, de acordo com uma contagem feita pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas. Os números indicam que esta é a guerra mais mortal para jornalistas, ultrapassando a Guerra do Vietnã e a Segunda Guerra Mundial. Informações de Thanassis Cambanis [The Boston Globe, 31/3/06] e da Editor & Publisher [31/3/06].

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