Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > CASO JUDITH MILLER

Robert Scheer

20/10/2005 na edição 351


‘Indubitavelmente, as empresas de mídia são os mais importantes centros de poder da nossa sociedade mas, mesmo assim, os menos fiscalizados. Os proprietários do ‘quarto poder’ têm a capacidade única de direcionar seus holofotes de inquérito contra outros enquanto permanecem poderosamente situados de forma a desviar os holofotes de si mesmos.


Esta é a mensagem cabal da exposição atrasada, mas devastadora, publicada no New York Times de domingo sobre como o jornal transformou o ‘caso da repórter Judith Miller numa causa’.


No seu afã de apresentar sua jornalista desacreditada como uma heroína do direito à liberdade de expressão, o ‘jornal dos recordes’ castrou a cobertura da saga de Miller e posicionou sua página de editorial como um aríete em sua defesa, publicando 15 editoriais em apoio à proteção a Miller.


‘O The Times … restringiu sua própria capacidade de cobrir aspectos de um dos maiores escândalos do momento’, conclui o artigo. ‘Mesmo no momento em que o jornal pediu o apoio do público, foi incapaz de responder suas perguntas.’


O jornal, comandado pelo editor responsável, Arthur Sulzberger Jr., empreendeu uma cruzada pública ininterrupta não apenas para proteger Miller dos tribunais, mas também para convertê-la numa heroína perfeita – obscurecendo o fato de que ela não estava protegendo o direito da população à informação mas sim acumpliciando-se com o governo Bush na sua vergonhosa, e possivelmente criminosa, tentativa de desacreditar um delator.


O delator, o ex-embaixador Joseph C. Wilson IV, enfureceu o governo ao revelar o uso de provas falsas da existência de armas de destruição em massa como justificativa para invadir o Iraque.


Por razões ainda sombrias (e que não foram esclarecidas pela extensa declaração dela publicada na mesma edição), Miller argumenta que a liberação do compromisso de manter o anonimato da fonte assinado no ano passado pelo chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney, Scooter Libby, não foi o suficiente para permitir que ela prestasse depoimento e que simplesmente perguntar a Libby à queima roupa se ele havia assinado o documento de livre e espontânea vontade teria sido um tanto antiético.


‘Ela tem a chave para libertar a si mesma’, disse o juiz quando censurou Miller no tribunal por se recusar a depor. ‘Ela tem um documento que resolveu não reconhecer’.


Para compreender como o New York Times chegou a este ponto embaraçoso, é preciso que se reconheça que, mesmo em jornais com excelente reputação, os editores atendem aos caprichos do editor responsável. O que está claro na exposição do Times de domingo é que o diretor Sulzberger concedeu a Miller um respaldo incondicional apesar das sérias reservas da parte de alguns dos principais editores do jornal.


Douglas Frantz, então editor investigativo do New York Times e agora editor-executivo do L.A. Times, é citado como dizendo que Miller uma vez chamou a si mesma de Miss Desvairada e, quando perguntada o que isso queria dizer, respondeu: ‘Consigo fazer tudo o que quero’.


Outras pessoas do New York Times, incluindo editores importantes, chegaram a suspeitar seriamente das fontes dela nas reportagens sobre as armas de destruição em massa do Iraque. E chegaram ao ponto de publicar uma ‘Nota do Editor’ questionando a própria cobertura do jornal no período que antecedeu à guerra, com ênfase específica nas cinco reportagens de Miller. Mas essas sensibilidades editoriais aguçadas não importaram muito uma vez que o diretor-responsável prestou seu apoio.


Apesar de ignorar totalmente alguns dos detalhes do processo judicial, o diretor-responsável concedeu a Miller licença total para definir sua tática de não responder às perguntas do júri de instrução como uma batalha pela liberdade de imprensa.


‘Foi ela que ficou no volante do carro porque era ela que estava correndo risco’, disse Sulzberger, ignorando os risco para a integridade do jornal.


Havia outras vidas, carreiras e reputações em jogo, particularmente a da agente da CIA exonerada, Valerie Plame, seus contatos secretos que a tinham ajudado a rastrear as armas de destruição em massa e seu marido ex-diplomata.


Porém, a insistência de Sulzberger de que Miller foi a verdadeira vítima foi um triunfo no jornal de propriedade de sua família. Como disse Miller em termos sinceros, embora triunfantes: ‘Ele galvanizou os editores, a equipe editorial sênior. Metaforicamente e literalmente, pôs os braços ao redor de mim’.


Evidentemente que galvanizar os editores fez com que eles suspendessem as profundas dúvidas que sentiam em relação às táticas e padrões de Miller como repórter. Talvez o mais prejudicial no artigo de domingo é a admissão de que um artigo sobre Libby e Plamegate foi aparentemente esmagado pela direção para proteger Miller.


‘Isso foi muito claramente entendido entre nós como um sinal de que estávamos chegando muito perto da verdade, que estávamos entrando numa área que poderia complicar a situação de Judy’, disse Richard Stevenson, um dos repórteres censurados.


Quanto a Miller, ela parece que ainda não tem nenhuma noção do que signifique ser uma jornalista ética. ‘Temos tudo de que nos orgulhar e nada pelo que nos desculpar’, declarou ela, aparentemente referindo-se a si mesma e ao grande jornal que lhe foi permitido corromper.’



NYT EM CRISE


O Estado de S. Paulo


‘The New York Times tem queda no lucro ‘, copyright O Estado de S. Paulo, 20/10/05


‘O grupo de mídia The New York Times Co. registrou lucro líquido de US$ 23,1 milhões no terceiro trimestre, menos da metade dos US$ 48,3 milhões do mesmo período de 2004. Segundo a empresa, que edita os jornais The New York Times, The Boston Globe e The International Herald Tribune, as causas da queda são o fraco desempenho da publicidade e os aumentos de custos. O grupo já havia anunciado no mês passado que seu desempenho ficaria abaixo das estimativas de Wall Street.’


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