Ronaldo Fenômeno e os três travestis tristes | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
Menu

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & CELEBRIDADES

Ronaldo Fenômeno e os três travestis tristes

Por Deonisio da Silva em 06/05/2008 na edição 484

Lembram a sórdida história do garoto de programa que ameaçou divulgar na imprensa seus encontros numa sauna gay com Pedro Nava, o grande memorialista e poeta bissexto? Desesperado e chantageado, o escritor suicidou-se numa rua da orla carioca.

Naquela oportunidade, editores tiveram uma dignidade e um discernimento raros nos tempos que correm. Quando o arrivista quis vender sua sórdida história, faturando a fama do cliente famoso, os editores não sucumbiram. Mas o escritor fez mais do que isso: matou-se de vergonha. Estava com mais de 80 anos.

Desta vez, com o jogador Ronaldo Fenômeno, muito mais famoso do que o escritor, por motivos óbvios, a chantagem de um dos três tristes travestis – é preciso lembrar que dois deles receberam o pagamento e foram embora –  encontrou terreno fértil. Em poucos minutos, antes que a história fosse impressa, ela já estava no Youtube (este, sim, um Big Brother, que substitui no imaginário o triângulo do Deus me vê), na internet, no rádio, na televisão e, no dias que se seguiram, nos jornais e nas revistas, tendo sido capa de Veja.

A sexualidade de Ronaldo Fenômeno, como de resto a vida privada de qualquer pessoa, não poderia e nem deveria ser de interesse público. Mas as celebridades e seus assessores de imprensa vivem de expedientes que às vezes têm o fim de pôr a mídia a seu serviço, privatizando-a.

Foi assim quando o cantor e compositor Chico Buarque foi fotografado numa praia, também na Barra da Tijuca, trocando afagos com a mulher de um amigo dele. Daquela vez, assessores de imprensa e amigos tentaram impedir a publicação do flagrante indevido.

A modelo Daniela Cicarelli, ex-namorada de Ronaldo Fenômeno, também foi filmada na praia, fazendo o que pessoas sensatas fazem entre quadro paredes. E são tantas as suas ex-qualquer coisa que os que gostam de interpretar o comportamento humano à luz de lastros intelectuais mais ecléticos têm todo o direito de supor que ele procura nas mulheres o que elas não podem dar, mas os travestis, sim, como ocorre com os atacados pela síndrome de Don Juan, que se proclamam espadas, mas que provavelmente têm necessidade de anunciar o que não são.

Direito de imagem e vida privada

A pessoa pode namorar em paz nas praias, nas ruas ou nas praças? Tem o direito de imagem e não é lícito que a vida privada dos outros seja meio de lucro para terceiros, não propriamente desonestos, mas fronteiriços daqueles territórios onde imperam a falta de critérios e de discernimento editorial, aliados à falta de vergonha e do vale-tudo? A mídia tem de responder a essas questões.

Passo com freqüência na praça do Ó, na Barra da Tijuca. Aos domingos, pintores amadores fazem ali belas exposições. Durante o dia, mães e babás brincam com as crianças. Nenhuma dessas pessoas será notícia para a mídia, que, aliás, dá sua quota para que o público, fera ferida, queria cada vez mais sangue, seja o do casal suspeito da morte da filha, seja o da próxima vítima que a mídia escolher, substituindo o promotor, a defesa, o juiz!

À noite, tudo muda naquela praça. Prostitutas e prostitutos fazem ponto desde o começo da noite, todos os dias. Já os vi tranqüilos, como vendedores que esperam os primeiros clientes a quem vender a principal mercadoria de que dispõem: o próprio corpo. Não assaltam os carros, não os interceptam, ficam apenas esperando que alguns parem e os motoristas abram a porta em demanda da mercadoria.

Um dos motéis mais procurados para esses rápidos programas fica na mesma praça. É o Papillon,  borboleta em francês, título, aliás, de um livro de Henri Charrière, narrando sua estada em famosa prisão de segurança máxima da Guiana Francesa, transposto para o cinema, com Steeve McQueen no papel do protagonista. Foi naquelas imediações também que, há poucos meses, jovens de classe média bateram numa empregada doméstica que esperava o ônibus, de madrugada.       

Com tudo, porém, os brasileiros, especialmente os cariocas,  fazem graça. ‘Ronaldo não precisa de ortopedista; precisa de oculista’. ‘Ronaldo pegou três mulheres: André, Veido e Júnior’.

O filósofo francês Michel Foucault escreveu em História da Sexualidade: ‘Na Idade Média os corpos pavoneavam nos bordéis‘.

Agora também, mas nas ruas! É como se apenas o físico, e às vezes somente o fisiológico, interesse. Comparem-se o minifúndio que a mídia reserva àquelas atividades que expressam nossa humanidade, como a cultura, a literatura, as artes, com o latifúndio reservado ao sexo e ao esporte.

******

Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá (Rio de Janeiro), onde dirige o Curso de Comunicação Social

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/12/2008 Henrique Freire

    Bom dia,
    Gostaria de saber sobre a veracidade da informação que circula na internet de que a jornalista Salete Ramos foi demitida da TV Cultura devido seu posicionamento criticando os bancos brasileiros.
    Obrigado,
    Henrique

  2. Comentou em 13/05/2008 francisco edson

    tirar a privacidade da vida alheia ja se tornou um abto de muitos. ele agiu dessa forma porque ele tem liberdade de escolha, mas a massa massacra o direito de muitos, com sede de justiça e nao ve a desordem total que esta o mundo. se ao inves de criticarmos atos errados dos outros e procurarmos ajudalos, nem que seje só com conselhoe, mas conselhos que edifiquem, o mundo seria bem melhor se se viver.

  3. Comentou em 13/05/2008 francisco edson

    tirar a privacidade da vida alheia ja se tornou um abto de muitos. ele agiu dessa forma porque ele tem liberdade de escolha, mas a massa massacra o direito de muitos, com sede de justiça e nao ve a desordem total que esta o mundo. se ao inves de criticarmos atos errados dos outros e procurarmos ajudalos, nem que seje só com conselhoe, mas conselhos que edifiquem, o mundo seria bem melhor se se viver.

  4. Comentou em 10/05/2008 Miguel Accacio

    A Dra. Martinez Moreira interpretou o artigo corretamente. Enxergou um aspecto que também vi, ou seja, eu gostaria de não ficar sabendo dos motivos que levaram Pedro Nava ao suicídio.

  5. Comentou em 09/05/2008 José Luiz Ariosto Pereira Silva

    Pessoal, só interessa ao Ronaldo o que ele fez, mas apoio completamente o que ele fez, é bem legal, afinal no final sempre tem uma surpresinha! viva o amor livre.

  6. Comentou em 07/05/2008 Wilson Vieira

    Ronaldo, e qualquer outra ‘celebridade’ paga o preço da fama. Eles não reclamam quando ganham viagens, jantares, mesas especiais, furam a fila, ficam em lugares especiais nos shows, isso tudo com a família a reboque. Os ‘famosos’ alimentam essa fome que os simples mortais têm, de viver a vida do outro. Então, é natural que tudo o que façam tenha repercussão. Acho hipocrisia afirmar que eles têm direito à privacidade. Se o cara vai pegar travestis na beira da rua, deve mensurar os riscos da atividade. Assim como os queridinhos da imprensa deveriam medir as consequências de pegar um michê na sauna gay ou ficar de namorinho na praia com mulher casada.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem