Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS DA FOLHA

Royalties e pitombas

Por Urariano Mota em 15/12/2009 na edição 568

Ruy Castro, que é bom biógrafo, bom conhecedor de música popular, poderia nos poupar desta. Do seu artigo na Folha de S.Paulo de sexta-feira (11/12), que copio abaixo, destaco:

‘O Estado de Pernambuco é responsável por 85% da mangaba e da pitomba produzidas no Brasil. Um abençoado acidente geológico fez com que seu território fosse ideal para a exploração dessas frutas, que são boas de comer ou servem de base para sucos e sorvetes e respondem por boa parte da economia pernambucana.’

Já nesse primeiro parágrafo vem uma senhora patada. Não sei de onde o colunista tirou o número mágico de 85%, mas para a mangaba o novo mangabeira não sabe que o maior produtor da fruta é Sergipe (dados do IBGE em 2007). A seguir, com ‘um abençoado acidente geológico fez com que seu território fosse ideal para a exploração dessas frutas…’, parece que o nosso geólogo considera um ‘acidente geológico’ como o estado ideal para o cultivo de frutas. Certamente confundiu geologia com geomoforlogia, o que é natural, pois tudo tem geo. Mas ainda que tudo se relacione, ‘acidente geológico’ está mais para crateras que afundam metrô que para solo ótimo para mangaba.

Depois, só nesse primeiro parágrafo, aparece pitomba como ‘base para sucos e sorvetes e respondem por boa parte da economia pernambucana’. Não seria melhor que o colunista visse uma pitomba antes de indicá-la como boa para sucos e sorvetes? O caroço desproporcional da frutinha atrapalha maiores voos gastronômicos. A polpa fina e grudenta e avara, agarrada ao caroço, prejudica os saborosos sucos e sorvetes. E por último, no capítulo da economia pernambucana, a pitomba pode ser doce, mas jamais se confunde com a cana-de-açúcar. No porte, no aproveitamento e no mel. Pitomba se chupa e se joga fora.

Sai no carnaval, todos os anos

No segundo parágrafo, o biógrafo comete:

‘Pois vamos supor que, de repente, o Rio, que só produz caju e banana, resolva unir-se a outros Estados que também não produzem mangaba e pitomba e, juntos, comecem uma campanha para que os royalties das ditas frutas destinados a Pernambuco sejam distribuídos por igual entre os Estados. A alegação é a de que Pernambuco não é dono do Brasil, que a mangaba e a pitomba pertencem a todos e que cabe à União socializar a dinheirama gerada por elas.’

Opa, se Ruy Castro pesquisa como escreveu esse artigo, tenho que expulsar as informações lidas em O Anjo Pornográfico. Então o Rio só produz caju e banana? Alô, alô, abacaxi, coco e laranja, ocupem o seu lugar no tabuleiro. Mas enquanto não, corram do pagamento de direitos mais amplos e forçados. Pois o biógrafo de Nelson deveria saber que frutas não pagam royalties. A não ser, claro, que sejam pitombas em processo revolucionário e industrializado.

Por último e por fim, conclui o colunista da Folha:

‘Nem quero pensar no que aconteceria se o Rio resolvesse avançar nos royalties produzidos pela carne de sol com feijão de corda e manteiga de garrafa, imortal prato da cozinha pernambucana. Ou se fizesse isso com as fabulosas agulhas fritas. Pelo raciocínio do governador, o fato de Pernambuco produzir os ingredientes que resultaram nessas obras-primas não lhe deveria garantir direitos majoritários sobre elas.’

Desculpem as mal traçadas acima. Todo o arrazoado que comentei poderia ser resumido em uma frase: antes de escrever sobre royalties e pré-sal, Ruy Castro deveria conhecer e ver uma pitomba. Que é base e hino do Pitombeiras de Olinda. Sai pelo carnaval, todos os anos. Sem royalties.

 

***

Apenas para argumentar

Ruy Castro # reproduzido da Folha de S.Paulo, 11/12/2009

O Estado de Pernambuco é responsável por 85% da mangaba e da pitomba produzidas no Brasil. Um abençoado acidente geológico fez com que seu território fosse ideal para a exploração dessas frutas, que são boas de comer ou servem de base para sucos e sorvetes e respondem por boa parte da economia pernambucana.

Pois vamos supor que, de repente, o Rio, que só produz caju e banana, resolva unir-se a outros Estados que também não produzem mangaba e pitomba e, juntos, comecem uma campanha para que os royalties das ditas frutas destinados a Pernambuco sejam distribuídos por igual entre os Estados. A alegação é a de que Pernambuco não é dono do Brasil, que a mangaba e a pitomba pertencem a todos e que cabe à União socializar a dinheirama gerada por elas.

É o que está acontecendo com os royalties do pré-sal. O governador de Pernambuco, à frente de seus colegas do Nordeste, está sendo vitorioso numa campanha para garf ar uma gorda porcentagem dos royalties devidos ao Rio como o Estado produtor de 85% do petróleo brasileiro. Neste momento, o Rio pode ter esses royalties reduzidos de 26,25% para 18%, diferença essa que iria engrossar a fatia já considerável dos Estados não produtores.

Nem quero pensar no que aconteceria se o Rio resolvesse avançar nos royalties produzidos pela carne de sol com feijão de corda e manteiga de garrafa, imortal prato da cozinha pernambucana. Ou se fizesse isso com as fabulosas agulhas fritas.

Pelo raciocínio do governador, o fato de Pernambuco produzir os ingredientes que resultaram nessas obras-primas não lhe deveria garantir direitos majoritários sobre elas. Donde a União precisa exigir uma fatia maior dos royalties para comê-los com farinha e distribuí-los entre os Estados não produtores dessas iguarias.

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Jornalista e escritor, Recife, PE

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