Sábado, 23 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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FEITOS & DESFEITAS > PÚBLICO

Rui Araújo

30/05/2006 na edição 383

‘Sr. provedor, um artigo da BBC News, escrito pelo sr. Gavin Esler, foi ‘traduzido’ e publicado no jornal PÚBLICO no dia 10/04/2006 sob a assinatura de um jornalista.

Neste artigo, o sr. jornalista não menciona a fonte e limitou-se a fazer uma tradução literal desse artigo.

Na universidade, isso dá direito a nota 0 (zero).

Como leitor do PÚBLICO, gostaria de saber se Gavin Esler é o nome artístico deste senhor jornalista, ou se este sr. jornalista não fez o trabalho de casa, escreve Victor Alves Gomes.

Como o rigor é importante, à semelhança da ironia, é preciso esclarecer o seguinte:

1 – O ‘sr. jornalista’ é uma senhora jornalista. E é mais exactamente Francisca Gorjão Henriques.

2 – A data exacta da publicação é 09/04/2006 (e não 10/04/2006).

3 – A jornalista não fez ‘uma tradução literal’ do artigo da BBC, recorreu à BBC e à revista norte-americana Foreign Affairs.

4 – A jornalista do PÚBLICO cometeu, apesar de tudo, alguns erros.

Reproduziu literalmente, por exemplo, o título da BBC (‘Como os EUA perderam a América Latina…’ – ‘How the US ‘lost’ Latin America’).

Solicitei um esclarecimento a Francisca Gorjão Henriques.

‘O título baseia-se numa citação do analista que escreveu o artigo da BBC, devidamente identificada no meu texto. Como tal, considerei, assim como a minha editora, que a sua autoria ficava atribuída para quem lesse o conteúdo (o que duvido que o leitor tenha feito). O próprio título da BBC poderá ser inspirado no de outro artigo (que também vem citado amplamente no meu texto, mas não no da BBC) escrito por Peter Hakim para a Foreign Affairs de Janeiro-Fevereiro: ‘Is Washington losing Latin America?’

Ao contrário do que diz o leitor, as referências ao artigo da BBC on-line estão sempre identificadas e devidamente citadas, ou seja, dentro de aspas. Só posso concluir que, ou o leitor não leu o artigo, ou está de má-fé. O meu texto baseou-se claramente no confronto dos pontos de vista de dois analistas, que foram sempre identificados e citados, do princípio ao fim’, explicou a jornalista.

A argumentação da jornalista não parece aceitável.

O título copiado é da BBC e o primeiro parágrafo do artigo está relacionado com a Foreign Affairs.

Francisca Gorjão Henriques não pode dizer ‘considerei’ que a autoria do título ‘ficava atribuída para quem lesse o artigo’. Isso não é rigor, é feeling. É um sentimento, não é um critério jornalístico.

A jornalista também não tem razão quando refere que ‘o próprio título da BBC poderá ser inspirado no de outro artigo’. ‘Inspirado’ é uma coisa (perfeitamente válida), ‘copiado’ é outra. É uma opção incorrecta.

O argumento não colhe, portanto.

O provedor retém a seguinte afirmação da jornalista: ‘Ao contrário do que diz o leitor, as referências ao artigo da BBC on-line estão sempre identificadas e devidamente citadas, ou seja, dentro de aspas.’

O leitor pode não ter razão, mas a jornalista reproduziu, por exemplo, um parágrafo inteiro da revista ‘Foreign Affairs’ sem colocar uma única aspa e sem mencionar a autoria do texto.

PÚBLICO: ‘Os Estados Unidos têm ainda assim um mercado considerável na região, com as exportações americanas a atingirem mais de 150 mil milhões de dólares por ano – quase tanto como o que exporta para a União Europeia.’

FOREIGN AFFAIRS: ‘The United States still has a big market in Latin America, with U.S. exports to the region valued at more than $150 billion a year, almost as much as the value of its exports to the European Union.’

O provedor considera que Francisca Gorjão Henriques assumiu indevidamente a autoria de parcelas de texto.

Eis a explicação da jornalista: ‘Todo o meu artigo é construído à volta das duas análises, e apenas duas, sendo isso bastante claro ao longo do texto. Considero que a informação que estou a dar é atribuída ao autor do artigo da Foreign Affairs, Peter Hakim, já que a frase que lhe segue é claramente uma citação, bem identificada como tal: ‘Dois terços deste montante…’ Realço aqui a expressão ‘deste’, porque nos remete para a informação que a antecede. Mudei algumas palavras à frase de Hakim, ainda que poucas, já que se trata de uma informação factual e não de carácter opinativo, e por isso não coloquei as aspas nessa frase – que é antecedida por uma citação e seguida da conclusão de Hakim, que, repito, estão entre aspas. Julgo que não levanta quaisquer dúvidas sobre o facto de se tratar ainda de uma referência ao artigo da Foreign Affairs e que não reclama para mim a sua autoria.’

O que é claro para Francisca Gorjão Henriques não é necessariamente óbvio para os leitores.

O provedor defende que o texto reproduzido pela jornalista do PÚBLICO devia estar entre aspas e indicar a fonte.

A única alteração introduzida (substituiu ‘Latin America’ por ‘região’) é irrelevante e não pode servir de justificação para omitir as aspas e a paternidade do texto.

Fica, designadamente, por explicar o facto de a jornalista ter sistematicamente citado as fontes e não o ter feito neste caso. O provedor não entende…

Para além das maiores ou menores responsabilidades individuais de Francisca Gorjão Henriques, há constrangimentos relacionados com a produção do jornal e em particular com os procedimentos em vigor no PÚBLICO que podem influenciar decisivamente a produção deste tipo de erros.

Por limitações de espaço, o provedor só desenvolverá o tema na sua próxima crónica depois de analisar um segundo texto posto em causa.’

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