Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > MUSA DA CPI

Se não dá pra jornalista…

Por Josué Duarte em 31/10/2005 na edição 273

Emissoras de televisão vivem testando novos rostos de garotas bonitas em seus programas jornalísticos, seja de noticiário geral ou esportivo. De vez em quando aparece uma loura de grandes olhos claros na tela da Bandeirantes, da Record ou outra das poucas emissoras da rede aberta. Em pouco tempo a louraça desaparece e é a vez da morena insinuante de pele iluminada, que mais parece uma boneca saída das fábricas de brinquedo. O mesmo acontece nas TVs por assinatura que têm programação jornalística, como Globo News e Sportv, que testam jornalistas recém-formadas de beleza incomum, na expectativa de descobrir novos talentos.

Não se sabe o número certo de moças bonitas recém-formadas em Jornalismo que passam por este teste, muito menos quantas deixam a desejar e são reprovadas. É certo que quase todas são reprovadas. Afinal, encontrar uma boa apresentadora já é muito, com beleza rara, então, fica quase impossível. Para as novas jornalistas, entretanto, é a grande oportunidade da vida: o tudo ou o nada.

Quando dá certo, a novata pode ganhar em pouco tempo o estrelato e aí nunca mais vai precisar conquistar seu espaço profissional e se impor como talento e realização. Entretanto, essas moças que não deram certo, que futuro poderão ter? Eis que agora surge um novo caminho: a revista Playboy de outubro apresenta pela primeira vez uma jovem bonita, que não é modelo nem atleta, e sim jornalista. Isso mesmo! Jornalista não mais só escreve na revista, pode ser protagonista.

Seu nome é Camilla Amaral, jornalista de formação e até há pouco assessora de uma senadora do PT. Como é uma moça muito bonita, os jornalistas que cobrem as CPIs do Congresso a ‘elegeram’ ‘musa da CPI’. Acabou fazendo sucesso Camilla e seu título, despertando o interesse da revista da Editora Abril. É um fato novo na profissão e que vem suscitar novas perspectivas para jornalistas, tanto as bonitas como as de outros talentos. Aquelas jornalistas bonitas que não passam na televisão podem ser candidatas a fotografar para a Playboy ou outras publicações do gênero. Neste caso, também aparece oportunidade para jornalistas bonitas, ‘musas’ de redação ou não: também podem ser candidatas às revistas masculinas.

Talento não falta

Jornalistas não-bonitas, mas que têm talento, assim como homens jornalistas, não têm lugar nas fotos, mas poderão virar estrelas e ganhar tanto quanto as musas fotografadas. A explicação é muito simples: o que a Playboy e outras publicações do gênero estão contratando é um produto de vendagem. É resultado puro. Resultado que a publicação divide com este co-participante ou parceiro de jornada. Não é isso? E por que o jornalista não pode vender um produto também de grande aceitação e que vai redundar na mesma alta vendagem?

Há muito tempo venho defendendo esta idéia de que, assim como se compra um corpo para vender mais, pode-se comprar um talento, um jornalista, com uma boa matéria, com a mesma finalidade. Se uma capa de Playboy vende pela Daniela Cicarelli ou pela Grazielli BBB, como podemos diferenciar da capa ‘Os camicases’, que o jornalista Takao Miyague fez para a revista Realidade, da mesma Editora Abril, e que vendeu tanto naqueles tempos? A capa do Collor na IstoÉ na antevéspera da queda do presidente, em 1990, ou a recente capa da Veja com os ‘7 motivos para dizer não’ no referendo. Apesar de não terem um corpo estético feminino têm outro talento, o jornalístico. As duas coisas estão vendendo bem, o corpo e o talento, e por que diferenciá-los na hora do pagamento?

Talento não falta ao jornalista brasileiro. Marília Gabriela, por exemplo, quando resolveu fazer uma carreira jornalística internacional, conseguiu entrevista exclusiva com o presidente da Líbia, Muamar Kadafi, o então grande inimigo dos americanos, e com a cantora Madonna. Parecia que se transformaria na Oriana Fallacci brasileira (muitos dirão que Marília é melhor do que a jornalista italiana de fama internacional, e eu concordo), mas preferiu dar prioridade aos seus programas de entrevista.

Merecimento

É inegável a cobertura da Guerra do Vietnã feita pelo Zé Hamilton Ribeiro, um trabalho primoroso, que superou a cobertura de muitas das grandes revistas do mundo. Outro grande repórter é Caco Barcelos, tanto para levantar assuntos, como descobrir detalhes, que o torna um dos ases do telejornalismo brasileiro. O que o jornalista brasileiro precisa, portanto, é forjar algum tipo de marketing ou organização que permita a sua valorização, melhor reconhecimento de seu trabalho.

Os jornalistas não poderiam se organizar em uma associação de produção ou mesmo cooperativa para levantar assuntos (pautar) e vendê-los a um preço justo? Uma boa matéria que muitos jornalistas têm na cabeça pode valer apenas alguns reais numa revista dirigida, que paga hoje o melhor free-lancer do mercado, ou milhares e até centenas de milhares de reais, se bem negociada. Seria isto possível? Para demonstrar que sim, podemos nos apegar ao modelo histórico dos artistas cantores de nosso país dos primeiros anos da década de 1960. Todos ganhavam muito pouco, ao ponto de ser muito fácil contratar todo um cast dos melhores profissionais (como se fosse Roberto Carlos, Zeca Pagodinho, Zezé Di Camargo, Daniel e Leonardo num pacote só) por um preço que qualquer um poderia pagar. Então, veio da Argentina o empresário Marcos Lázaro e mudou tudo: grandes contratos foram assinados com a TV Record, com teatros e casas de show.

Os artistas se valorizaram e o cenário mudou para o que hoje conhecemos. Se precisamos de um Marcos Lázaro, não sei, mas sei que temos muita coisa a fazer, inclusive organizarmo-nos para esta conquista: fazer o jornalista merecer o valor que realmente tem.

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