Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

FEITOS & DESFEITAS > DESENHO ANIMADO

Sem vez nas emissoras brasileiras

Por Wemerson Augusto em 04/12/2007 na edição 462

As técnicas alcançadas pela televisão brasileira ao longo dos últimos anos são inegáveis. Tanto é verdade que diversos países, entre eles os conhecidos ‘países ricos’, são seduzidos rotineiramente pelo talento dos profissionais dos estúdios brasileiros.

Entre os produtos midiáticos de exportação, a novela é, sem dúvida, o artigo mais requisitado no concorrido mercado do audiovisual. No entanto, o país importa para a telinha infantil e para os adultos amantes das narrativas animadas uma enxurrada de desenhos.

Os desenhos oriundos dos states são quase a totalidade da programação infantil na televisão brasileira. Nas tramas são veiculadas histórias, valores e comportamentos muitas vezes incoerentes com a rica tradição folclórica nacional.

Sem apoio das TVs

Nesse sentido, as lendas nacionais são esquecidas ou satirizadas pelos valores absorvidos pelas sensações retransmitidas cotidianamente para mais de 170 milhões de pessoas no país – as quais possuem televisores a cores em seus domicílios, conforme revelou um recente estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Para que, no futuro, o Saci e tantos outros mitos possam flutuar no imaginário coletivo de nossas crianças, é necessário dar atenção ao conteúdo nacional. Como? Um dos mecanismos de fiscalização pode ser o de abaixo-assinados como este, que poderá ajudar a conter o lobby estrangeiro no mercado de desenho animado brazuca.

Outras medidas estão em andamento, como o projeto de Lei nº 1821/03 que prevê a criação de cotas graduais na TV aberta e fechada do país para a exibição de desenhos animados nacionais. É importante ressaltar que a presente medida não tem o apoio dos representantes das emissoras de TV.

O riso da nossa gente

Em defesa, as emissoras alegam que no país não existe produção suficiente para atender à demanda. Ao contrário dos conglomerados brasileiros, produtores e animadores independentes defendem exatamente o inverso. Dizem que no Brasil existem bons profissionais e excelentes trabalhos. Salientam ainda que o principal entrave a esta situação é a visão subestimada da TV brasileira: leia-se: programação por assinatura, Globo, SBT, Band, Record e Rede TV.

E a propalada TV Digital, dará voz ao desenho genuinamente brasileiro? Caso essa projeção se concretize.

Você já imaginou uma trilha animada desvendando os meandros das letras de Machado de Assis? Enredos que propiciassem a todos analisar de forma suave e calma, passo a passo, a linha de produção dos juros bancários no Brasil? O riso da nossa gente com as nossas próprias desgraças públicas? A imagem cômica e desastrosa do amadorismo de nossos políticos? Será que isso é pedir demais?

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Jornalista, pós-graduando em Linguagem, Cultura e Ensino pela Unioeste, Foz do Iguaçu, PR

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/12/2007 Filipe Fonseca

    Concordo com a Patrícia. Por que os desenhos teriam que seguir supostas ‘tradições folclóricas’, tipicamente empurradas goela abaixo das crianças como símbolo da ‘nação’. O Perna Longa, o Pica-Pau, e os outros, são personagens folclóricos? E a criatividade, onde fica, diante desses moldes nacionalistas bolorentos?

    E as crinaças, devem estar loucas para poder ‘analisar de forma suave e calma, passo a passo, a linha de produção dos juros bancários no Brasil’, como faz o Zé Colmeia nos EUA. Mal podem esperar!!!

  2. Comentou em 05/12/2007 Patrícia Valiño

    Como fã de animação eu preciso fazer este comentário: eu adoraria que tivéssemos um mercado interno de produção de desenhos animados. Mas detestaria que esse mercado se visse preso, amarrado pela obrigação de retratar a cultura e o folclore de seu país. Acho que essas ‘obrigações de honra’ só tornam a nossa produção cultural limitada e tediosa. Pouca gente falou nisso, mas acho que um dos ingredientes do sucesso de tropa de elite foi fugir da fórmula do ‘debate dos problemas sociais do país’ e partir para a violência barata que entretém as massas. Diversão fútil é comercializável, é nessessária para relaxarmos a contento dos problemas do dia a dia, e ajuda a trazer grana fácil para um segmento de entretenimento. Você vê com certeza filmes que pregam os valores americanos, mas também encontra facilmente filmes abstratos que não têm nada haver com a cultura e o folclore deles, tipo grandes títulos de fantasia e ficção científica. Esses aliás viram cultura. Mas não são parte da cultura quando lançados. E esses com freqüência viram carros-chefe de faturamento.
    Eu gostaria de ver autores brasileiros tirarem da manga um Matrix, por exemplo. Que tal? Um conceito totalmente doido que resultasse em uma história alucinante e surreal. Ainda não vi ninguém tentar isso por aqui!

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