Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

FEITOS & DESFEITAS > CUBA

Sempre na mídia, com ou sem Fidel

Por Deonisio da Silva em 31/07/2007 na edição 444

Talvez um bom jornal possa ser avaliado por iniciativas como a de O Estado de S.Paulo. Enquanto o noticiário esportivo dominava a mídia e apresentava Cuba rivalizando com os EUA em excelência nos Jogos Pan-Americanos, o jornal mandava José Maria Mayrink a Havana, de onde enviou um relato que ocupou quase uma página do primeiro caderno da edição dominical (29/7).

Não era sem tempo e foi mais do que oportuno, pertinente e necessário que – um ano depois de Fidel Castro ter passado o poder, ainda que provisoriamente, a seu irmão Raúl – um jornalista tarimbado fizesse uma avaliação de como andam as coisas na Ilha famosa, à luz do novo contexto.

Assim, enquanto EUA, Cuba e o Brasil apareciam nos três primeiros lugares e a mídia dava rápidos informes sobre as deserções cubanas, o jornalista destacava anunciadas mudanças, uma delas há muito esperada: uma trégua nas belicosas relações entre os dois governos.

O irmão de Fidel, na avaliação dos próprios cubanos, está sendo tímido nas reformas econômicas, como disse a Mayrink Dimas Castellanos, um dos editores da revista digital Consenso: ‘Eu esperava que Raúl fosse fazer algumas reformas econômicas, mas nada aconteceu.’

Déficit de casas

Castellanos, de 64 anos, integra um grupo de intelectuais que propõe a social-democracia como substituta da Revolução Cubana de 1959. Para se ter uma idéia de como a Revolução é intocável, o cientista político, mesmo depois de ter integrado as tropas cubanas que lutaram na Etiópia, foi demitido do cargo de professor numa escola de agronomia por ter levado a proposta a alguns colegas.

As críticas que o professor faz – com destaque para o surgimento de classes sociais em Cuba, nascidas da divisão entre os que recebem apenas dez dólares por mês e os que vivem de pesos conversíveis, espécie de dólar disfarçado – de algum modo foram endossadas por ninguém menos do que Fidel Castro num de seus artigos, ainda que com outras palavras: ‘Nem todos os cidadãos recebem do exterior divisas conversíveis, algo que não é ilegal, mas às vezes cria desigualdades e privilégios irritantes num país que se esmera pelos serviços vitais e gratuitos que oferece a toda a população.’

Informa Mayrink que os 4 milhões de cubanos espalhados pelos EUA, Canadá e Europa mandam US$ 1,2 bilhão a Cuba todos os anos, mas a maioria do povo não vê esse dinheiro. E o país continua com alguns problemas terríveis, entre os quais um déficit de 2 milhões de casas para uma população de pouco mais de 11 milhões de habitantes.

Mudanças anunciadas

Esses e outros problemas seriam ainda maiores se a Revolução não tivesse triunfado. Mas ocorre que, quase meio século depois, cerca de 70% dos cubanos nasceram depois de 1959.

Quem já visitou Cuba – caso deste escritor – pode avaliar nas ruas o quanto é vulnerável a juventude cubana. O fogo revolucionário arde com fulgor entre os mais velhos, mas os jovens, talvez em maioria, já não sabem avaliar a sofisticada rede de sedução que o império norte-americano, a apenas 140 km da costa cubana, lança, não ao mar, mas ao ar, todos os dias, vinte e quatro horas ininterruptas. Se o governo cubano anunciar em cartazes que todos podem ter o remédio X, todos podem ter mesmo, de fato. Boa parte da juventude acha que os cartazes publicitários dos EUA têm a mesma credibilidade…

O Brasil negocia com Cuba. Os ônibus Marcopolo, de conhecida empresa do Brasil meridional, já circulam pela Ilha, mas enfrentam a concorrência chinesa, que vende ônibus de qualidade inferior, mas mais baratos. A Venezuela negocia melhor: fornece petróleo subsidiado em troca de serviços médicos.

Assim, quem está num cartaz na avenida vizinha da Praça da Revolução, é Hugo Chávez, não o presidente Lula.

Um fato novo ocorreu semana passada. No dia 26 de julho, quinta-feira, data em que os cubanos celebram o fracassado assalto ao quartel Moncada, em 1953, seis anos antes de a Revolução triunfar, pela primeira vez Fidel Castro não compareceu. Discursando em seu lugar, seu irmão Raúl reconheceu erros, propôs abrir Cuba a investimentos externos e ofereceu diálogo aos EUA.

A mídia está com a palavra. O leitorado brasileiro precisa e quer saber mais sobre as anunciadas mudanças.

Todos os comentários

  1. Comentou em 30/10/2008 Mônica Arruda

    Caros amigos,
    Essa semana nós da imprensa em BH passamos por um episódio, que eu considero horrível no jornalismo, uma fonte foi comprada por uma tv,( o SBT!) Vou explicar melhor. Vcs lembram do operário que caiu em uma cisterna e ficou mais de 30 horas no buraco de 22 metros de profundidade, então? O Sr José foi resgatado e depois, qd ele saiu do hsopital, a imprensa inteira o aguardava na porta para entrevistá-lo e ele atendeu apenas a turma do SBT, pq o GUGU ofereceu ao pobre homem , uma casa em troca da exclusiva. Isso não seria falta de ética? Ou ainda falta de respeito com a gente q ficou lá o dia inteiro esperando o Sr José q deveria ter tanta coisa para nos contar, poxa…aí vai meu desabafo. Sou Repórter da rádio Band News BH
    Um abraço a todos!

  2. Comentou em 23/09/2007 andre ezequiel rios rios

    nos da comunidade manancial de vida fazemos um trabalha de regastar joves no mundo das drogas e temos muita dificuldade de leva-los por nao termos um meio de trasporte por isso peço que atraves do seu progama venhamos ha ter uma oportunidade de ganhamos um veiculo pra facilitar nossas vida nos ajude se puder pois voçe é uma pessoa ajudadora JESUS TE AMA

  3. Comentou em 03/08/2007 José Augusto Nieto

    Tudo que se vê na mídia brasileira é apenas uma faceta do que acontece em Cuba. Gostaria de ver na mídia mais reportagens sobre esse ‘maravilhoso’ sistema, que inovou, descartando a liberdade e democracia como fatores importantes, e seduziu tantos intelectuais brasileiros. Se ser intectual no Brasil é gostar de ditadura, prefiro ser operador de enxada.

    Já sobre os onibus chineses, é fácil vender barato explorando o trabalhador: o trabalho na China está praticamente livre de encargos sociais; as jornadas são de seis dias por semana; as férias são uma semana; não há subsídio de férias nem 13º.mês ou Fundo de Desemprego. E aqui no Brasil está reprelto de formador de opinião que omite a realidade do trabalho na China. Igual omitem o que acontece em Cuba.

  4. Comentou em 03/08/2007 Marco Antônio Leite

    Qual é o objetivo central que a burguesia deseja mudanças políticas na Ilha Cubana. Entendemos que essas mudanças tão ‘necessárias’ que a elite apregoa, não trará nenhum benefício direto para o trabalhador Cubano, mas sim para a escol que ira explorar a mão de obra da ilha em troca de míseros salários. Querem fazer de Cuba um moderno bordel, com hotéis de luxo, comércio restrito aos aquinhoados pelo dinheiro, bairros que irão segregar a pequena e média burguesia em detrimento da maioria do povo. Cuba não necessita de mãos assassinas como temos aqui no Brasil, onde meia dúzia de pessoas vivem nababescamente e a maioria sofre às conseqüências do desemprego, custo de vida elevado, trafico de drogas prostituição pôr necessidade entre outras mazelas que o sistema institui para massacrar o pobre.

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