Terça-feira, 25 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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Sensacionalismo e manipulação

Por Marcus Miranda em 12/05/2009 na edição 537

Embora os manuais de Jornalismo não deixem dúvidas quanto à conceituação de sensacionalismo, que inclui a apresentação de hipóteses de comprovação impossível, para O Globo isto não causa qualquer constrangimento nem gera qualquer comentário crítico internamente, numa coluna jocosamente denominada de autocrítica, quando atende ao objetivo político-ideológico do jornal.

Assim, foi o caso da manchete do jornal da família Marinho sobre uma hipotética população que seria hoje de uma favela removida há cerca de 40 anos, do entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Deve-se destacar que o cálculo – conservador, segundo o jornal – foi feito pela própria redação. Talvez sejam jornalistas com especialização em estatística e demografia e os leitores não saibam.

Mas, o que O Globo pretendia com a manchete? Elementar, meu caro Watson: ‘assustar’ os seus principais leitores, moradores da Zona Sul do Rio, que constituem quase 40% do seu público.

A atual posição do principal jornal da cidade reitera o ditado popular, que diz que ‘quem herda aos seus não degenera’. Afinal, tem sido patente a postura extremamente reacionária do Globo defendendo anacronismos, como a remoção de favelas e a construção de muros milionários, sob o pretexto de proteção ambiental.

Campanhas inúteis e manipuladoras

No entanto, não é só na produção de manchetes sensacionalistas que o jornal, que apoiou a ditadura militar, vem se destacando. Ao comentar os péssimos serviços prestados pelo metrô, supervia e barcas, privatizados no final dos anos 90, O Globo explicitou o papel do então governador Marcelo Alencar, mas omitiu, de forma descarada, o atual governador Sérgio Cabral, que presidia a Assembléia Legislativa e garantiu a aprovação da lei que privatizava estas e outras empresas.

Inclusive, para que não se perca na história, após a derrota do candidato de Marcelo Alencar ao governo do estado, Sérgio Cabral imediatamente aliou-se ao vencedor, Garotinho, e traiu Alencar, impedindo a privatização da Companhia de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae). Este foi um dos principais motivos da ruptura entre eles.

Por que a omissão do nome de Sérgio Cabral? Será por conta das inúteis e manipuladoras campanhas publicitárias, que custaram mais de R$ 80 milhões de recursos públicos, em 2007 e 2008 e que este ano devem chegar aos R$ 70 milhões?

Um político em busca de um mentor

Primeiro, foram as ONGs; depois, as cooperativas; e agora serão as Organizações Sociais que, sem licitação, poderão receber recursos públicos, equipamentos e funcionários da cidade do Rio de Janeiro. Isto com o apoio declarado dos herdeiros de Roberto Marinho, através de editorial e artigos favoráveis, oriundos da pena de políticos e colunistas, que estão sempre a postos para confirmar o que o genial Aparício Torelly, o Barão de Itararé, dizia: uma negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados.

Com o objetivo de manipular a opinião pública, além de esconder no editorial o pequeno detalhe da ausência de licitação para entrega de bens, pessoal e dinheiro público para as denominadas organizações sociais, O Globo usa como exemplo a Rede Sarah, que são hospitais sem emergência, com quadro funcional pequeno, surgida na década de 1960, em Brasília, com uma característica determinada, diferente da estrutura tradicional das redes públicas de saúde.

É um bom exercício de ficção imaginar como seria entregar para os de amigos do rei hospitais gigantescos, como o Souza Aguiar e o Miguel Couto.

O único temor é que, amanhã, a Fundação Roberto Marinho se torne uma Organização Social – se é que já não é – e comece a assumir escolas pela cidade, cedidas pelo prefeito Eduardo Paes, que é um político permanentemente em busca de um mentor.

Com certeza, elas seriam na Zona Sul do Rio, e a primeira compra seriam televisores para exibição de DVDs do Telecurso.

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Jornalista, Rio de Janeiro, RJ

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