Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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FEITOS & DESFEITAS >

Será que o povão gosta?

Por Francisco Djacyr Silva de Souza em 08/07/2008 na edição 493

O rádio que a maioria do povo gosta certamente não é aquele que agride, que polui com palavrões e pornofonia, porém há uma alegação de alguns proprietários de emissoras (rádio é uma concessão pública) que afirmam categoricamente que o povão gosta da baixaria, das piadas de mau gosto e das agressões que são proferidas por alguns locutores aos pobres, aos pretos ou aos homossexuais e a outras minorias que, não tendo o poder nas mãos, sofrem discriminação, desrespeito e agressão verbal na oratória de alguns locutores que têm conseguido altos índices de audiência e prestígio no rádio cearense. A indagação que surge é se realmente nosso povo gosta deste tipo de informação que prefere deseducar e não traz nenhuma contribuição para melhoria da sociedade.

Nosso povo precisa buscar urgentemente um modelo de organização que cultive a cidadania, o respeito e o bem comum, pois somente alcançaremos uma sociedade melhor no momento em que todos cresçam e se ampliem os direitos da pessoa humana na concretização de um mundo melhor. A comunicação deve ter duas vias – a de quem fala e a de quem ouve. No momento, temos que lutar pela democracia no rádio para que o povo seja ouvido e diga realmente o que quer do rádio e procure desenvolver um modelo de comunicação que alcance o sentido pleno da cidadania participativa e na busca de um mundo justo e igualitário para todos os indivíduos.

Um único objetivo: evitar a mudança

No rádio, é possível que algumas pessoas ainda convivam com programas de baixaria, porém estes não são culpados, pois esse processo é resultante de uma crise cultural que assola nosso país e que não deu a todos a chance de se educarem e promoverem uma consciência que busque investigar as mensagens que geralmente estão escondidas nos jargões e nos bordões que propiciam momentos de agressão verbal no rádio. Vale ressaltar que os poderosos, os que têm dinheiro, jamais são questionados ou desrespeitados em nosso rádio, pois agressão é para os pobres e desvalidos, ou mesmo para aqueles que ousam confrontar o modelo de radialismo que não contempla os verdadeiros interesses da sociedade. A esses é reservada a censura, a proibição e a agressão gratuita, num desrespeito às formas de contestação a que a sociedade tem direito e que precisa dar vazão.

Ouvir rádio também é missão, pois a certeza de que podemos mudar o que vem sendo feito é de que há grupos que têm se organizado para refletir sobre as emissões radiofônicas e dizer que tipo de programação querem que chegue a suas casas e qual é o modelo verdadeiro de radialista que nosso povo precisa nos momentos modernos. O povo quer mensagens edificantes e quer ter oportunidade de dizer o que pensa sem filtragens que satisfazem os poderosos, que utilizam os agentes que estão no microfone para justificar o poder dos ricos e a visão dos que têm nas mãos a máquina que lhes dá poder econômico e faz deles agentes da injustiça social que predomina em nosso país.

A organização dos ouvintes é urgente e já existem vários grupos que têm procurado desenvolver uma ação crítica sobre a programação radiofônica, porém são sufocados pelos interesses da grande mídia, que prefere pessoas despolitizadas e conformadas com a situação que hoje está aí e nos deixa na incerteza quanto ao futuro do rádio em termos de cidadania, ética, participação popular e formação cultural. As atitudes dos que comandam os meios de comunicação cerceando a crítica e o questionamento têm um único objetivo: evitar a mudança que vem das ruas e que faz com que nosso povo saiba o que quer do rádio e das comunicações em geral.

Sem ética nem respeito

Por outro lado, a divulgação do que tem sido feito pelos ouvintes organizados tem pouco espaço na mídia em geral, pois o confronto com o poder não faz parte da índole de alguns jornalistas, que muitas vezes estão mais preocupados com a questão da sobrevivência do que com a melhoria da sociedade. Temos movimentos organizados que questionam a mídia e seu papel diante da população, porém muitos têm sido sufocados pela volúpia do capital e por uma formação que não dá conta do papel social dos que fazem comunicação. É necessário que a liberdade de imprensa não seja apenas discursos e que a comunicação contemple todas as formas de expressão e de organização da sociedade, e não apenas aquelas que são criadas e mantidas por organismos atrelados ao poder vigente. O poder é muito forte e contempla poucos que se aliam oportunamente para ganhar prestígio, fama e, principalmente, dinheiro.

Não podemos aceitar que as comunicações sejam instrumentos apenas para satisfazer os poderosos e deixar o povo à margem de uma programação de qualidade e que preze seus usuários. É preciso lutar para que nossos meios de comunicação divulguem os interesses populares e a voz de um povo que luta, trabalha e quer dignidade para um mundo melhor, mais justo e mais democrático.

É urgente questionar o rádio pornofônico, discriminador e agressivo para com o povo que o busca, pois o rádio-cidadão não é o que o povão gosta, como dizem. Prova disso é que muitos estranham e questionam emissões agressivas e desrespeitosas, porém os canais para essa tarefa são poucos ou quase inexistentes. Ainda há muito o que fazer para educar o povo e sair da idéia de que gostamos do rádio anti-democrático e desrespeitoso. Será que o povão gosta de ser agredido? Será que o povão gosta de ser manobrado, ou será que os canais de questionamentos e de discussão da mídia são negados pelos poderosos da mídia? A certeza é que, se houver oportunidade, certamente o povo falará do rádio que quer e que não é o que vem sendo praticado por alguns que se dizem profissionais e não têm o mínimo de ética e respeito pelo que fazem e pelos que os escutam.

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Vice-presidente da Associação de Ouvintes de Rádio do Ceará, Fortaleza, CE

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