Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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FEITOS & DESFEITAS >

Silêncio da imprensa

Por Lúcio Flávio Pinto em 21/11/2006 na edição 408

Quase dois meses atrás um amigo me mandou cópia de um protesto judicial apresentado no Rio de Janeiro contra a proposta de compra da Inco pela Companhia Vale do Rio Doce. Como o Jornal Pessoal é quinzenal, ressalvou que a grande imprensa divulgaria primeiro a questão, mas eu podia ter conhecimento da íntegra da peça e analisá-la. Os dias se passaram e nenhum registro apareceu na imprensa. Este jornal acabou dando o ‘furo’ por inércia dos que souberam primeiro e se omitiram. E continua a ser o único a tratar do protesto, registrado na edição 376.

Nada a surpreender, por se tratar de assunto irrelevante? Nada disso. Mesmo tramitando pela justiça federal dezenas de ações que questionam a privatização da CVRD, a Vale não ouviu as autoridades brasileiras nem prestou contas ao judiciário do negócio que realizou com a empresa canadense. Exceto pelo protesto, não houve uma cobrança interna devida pela ex-estatal. Quando a transação foi consumada, nenhuma voz se levantou para questioná-la pelo prisma dos interesses brasileiros. Mais uma vez este jornal, na sua edição anterior, ficou em solilóquio.

Os termos do acordo entre a CVRD e a Inco só foram referendados pelo governo canadense, dentre outras exigências, porque a Vale se comprometeu a não reduzir em mais do que 15% o quadro de pessoal da nova controlada nos próximos três anos e a mantê-lo sempre em 85% do que é atualmente.

Imagine-se se na privatização, consumada em abril de 1997 (há quase 10 anos, portanto), condições semelhantes fossem estabelecidas? Claro que não em relação ao quadro de pessoal daquele momento, sangrado nos anos anteriores pelo governo federal, que gastou muito dinheiro nessa redução drástica, mas numa relação vinculada ao lucro líquido da empresa, que continua na escalada de recordes, para a qual a administração FHC muito contribuiu com o oneroso corte de gastos que promoveu.

O que significa essa montanha de dinheiro de rentabilidade para o Brasil e os Estados nos quais a Vale atua? Muito pouco. Nem mesmo quando a diretoria da empresa apresenta números impressionantes, como fez na semana passada, ao anunciar os estrondosos resultados do terceiro trimestre, há um efeito social correspondente.

Cada vez mais se enrijece a couraça corporativa da Vale. Mesmo quando a empresa age corretamente num primeiro momento, como fez em relação aos Xikrin, negando-se a ceder às suas descabidas exigências, num segundo momento mostra que não tira do episódio a lição devida para corrigir sua postura em relação à realidade circundante aos seus enclaves minerais e logísticos.

A empresa pode cancelar as liberalidades que pratica em benefício comunitário e social, mas não pode ignorar as seqüelas provocadas por seus empreendimentos insulares, que não espraiam bons resultados, que não germinam no sertão, tornado por ela mais agreste, socialmente falando. Eventuais concessões, como as feitas aos Xikrin, quando transferidas para o plano da efetiva responsabilidade (que, se não é assumida voluntariamente, precisa ser imposta pelo governo), revelam o que são: perfumaria efêmera no quadro de carências humanas que a Vale não atende – e, pelo contrário, multiplica e agrava.

Perguntas e respostas

Será que a grande imprensa não vê isso? Claro que vê. Se não fala, é porque não quer. Mas e os jornalistas, individualmente: por que não abordam questões de tal relevo? Profissionais competentes parecem não se permitir ultrapassar a cerca da CVRD, que é muito mimosa, é cheia de flores, mas é um redil antijornalístico. Teleconferência, videoconferência, toneladas de press-releases e outros mimos fazem efeito. Mas não só – nem principalmente – pela eficácia do marketing: é também porque muitos jornalistas não se dão ao trabalho de resistir e de reagir à sutil e sofisticada manipulação.

Esse jogo de manipulação não seria tão eficaz se os jornalistas aplicassem seu talento e lembrassem de seus compromissos profissionais, que sustentam a fé de seu ofício. Não precisa ser grande profissional. Basta raciocinar, fazer as perguntas devidas e ir atrás das respostas satisfatórias, procurando um jeito de fazê-las chegar a quem interessa: o distinto público.

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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