Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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FEITOS & DESFEITAS >

Sob o império da lei da selva

Por Luiz Antonio Magalhães em 12/05/2009 na edição 537

Algumas vezes este observador assume a moderação dos comentários dos leitores do Observatório da Imprensa. Não é uma tarefa simples. Em muitos casos, os internautas reclamam de ‘censura’, em outras apontam supostas ofensas e até crimes de calúnia, injúria e difamação em textos liberados pelo moderador.

Poucos leitores prestam atenção, mas na área destinada aos comentários existe um aviso bastante claro sobre as regras do OI para liberar os textos escritos pelos internautas:

‘Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade de idéias e pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem intolerância ou crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Evite vulgaridades e simplificações grosseiras. Não escreva em maiúsculas: isso dificulta a leitura do texto e, na linguagem da internet, é interpretado como gritos. Mensagens que não atendam a estas normas serão deletadas, e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.’

Cada site ou blog tem as suas próprias regras para a interatividade com os leitores, um avanço que a internet permitiu e que sem dúvida alguma veio para ficar. Alguns são mais rigorosos na liberação dos comentários, outros menos. Os mais rigorosos em geral têm medo de processos judiciais e há os que simplesmente ignoram as consequências do que publicam, talvez assumindo a (falsa) idéia de que o que sai em espaços destinados ao público não é passível de processo contra os controladores do site ou contando com a impunidade, uma vez que a tarefa de fiscalizar as milhões de notas que aparecem a cada hora na web de fato não é nada simples.

Ofensas a granel

Alguns exemplos rapidamente pinçados das áreas de comentários de blogs polêmicos, como os dos ultradireitistas Reinaldo Azevedo, da revista Veja, e o Coturno Noturno, publicado por um sujeito que se intitula Coronel, são reveladores do baixíssimo nível do que é aprovado para publicação na blogosfera:

Blog Reinaldo Azevedo

‘Não li todo o post. Mas a frase ‘A lei atual despenalizou, mas não descriminalizou. Ainda é crime [fumar maconha], e eu acho que nós deveríamos avançar’ me autoriza a dizer: O QUE ESPERAR DE UM GOVERNO QUE SE COMPORTA COMO SÃO JORGE DE PUTEIRO?’

Blog Coturno Noturno

‘O que Lula quer é arreganhar todas as porteiras, os cofres, anular o poder de todas as instituição e meter a mão sem nenhuma vergonha, muitos menos carater ou dignidade, no dinheiro do contribuinte, que trabalha duro, paga impostos abusivos pra sustentar essa quadrilha de guerrilheiros e sindicalistas incompetentes e ladrões assumidos, que nem se lixam pra opinião pública e pratica crimes como esporte.Eles não gostam de trabalhar e acham que roubar é normal. Banalizaram a pouca vergonha, legalizaram o crime e o povo que sifu.’

‘Coronel, Antes o Bebado só falava no etanol. Agora que o preço do petroleo caiu e quer mexer na poupança ele procura sair do ar. Mas como mente nosso presidente!’

Naturalmente, a maior parte dos comentaristas escreve anonimamente ou usando pseudônimos. Todos os dias, esses internautas cometem crimes de calúnia, injúria e difamação, agridem a língua portuguesa e a lógica formal. Os exemplos acima foram retirados quase que aleatoriamente dos blogs em questão, não são nem de longe os de conteúdo mais ‘forte’, digamos assim.

Em grande medida, os leitores são instigados pelos autores dos blogs a ‘pegar mais pesado’ do que eles próprios poderiam em seus textos. Insinuações sobre o uso de drogas por um certo político tucano, por exemplo, são frequentes no Coturno Noturno – na área de comentários a identidade do tal homem público sempre acaba aparecendo. Reinaldo, por sua vez, só se refere ao presidente Lula como ‘apedeuta’, insuflando o ódio de classe.

Tensões acirradas

A internet é um fenômeno ainda muito novo no mundo inteiro. A legislação que servia para a imprensa escrita, falada e televisiva não contemplava tamanho grau de interatividade e muito menos as enormes possibilidades de anonimato que a rede mundial permite e até incentiva. No Brasil, por sinal, o Supremo Tribunal Federal acaba de derrubar a Lei de Imprensa, sem no entanto estabelecer novas regras para disciplinar a atividade. Está valendo o que diz a Constituição Federal, promulgada quando a internet ainda engatinhava no país.

Não é preciso ser nenhum gênio para perceber que existe um vazio enorme, uma lacuna que precisa ser preenchida. Não se trata, é óbvio, de defender a restrição das atividades que os internautas desenvolvem na web, mas sim a de algumas regras básicas para disciplinar essas atividades. A internet não pode se transformar em uma máquina de moer reputações (públicas e também privadas – os casos de cyber bulling, por exemplo, crescem assustadoramente e já se tornaram preocupação dos profissionais de educação).

No passado, era muito frequente o uso de panfletos apócrifos como arma de convencimento dos eleitores, especialmente às vésperas de um pleito, quando o tempo para eventuais desmentidos era curto. Hoje, a internet, blogosfera política em particular, está se tornando um permanente panfleto apócrifo, uma terra em que prevalece a lei da selva onde ganha quem bate mais forte. Este cenário requer, sim, alguma regulamentação, ou a barbárie vai se instalar de forma definitiva, corroendo as relações pessoais e colaborando para o acirramento de tensões, sejam raciais, políticas ou religiosas. Um pouco de bom senso não fará mal a ninguém.

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