Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > OLIMPÍADAS 2008

Sobre a ética olímpica

Por Ivo Lucchesi em 19/08/2008 na edição 499

Há muito se sabe que o espírito olímpico foi substituído pelo irresistível apelo da ‘fatura do evento’. De um modo geral, qualquer competição esportiva, desde os já distanciados anos inauguradores da economia globalizada, audiência e anunciantes são os reais protagonistas ‘invisíveis’ que fazem do ‘acontecimento esportivo’ a fonte multiplicadora dos lucros. Até aí, portanto, nada há de novo, apesar de milhões de telespectadores, em razão do fuso horário, cederem suas horas de sono.


A questão que realmente causa desconforto ao observador diz respeito ao fato de, a cada Olimpíada, em função de mudanças de regra ou de aprimoramento de ordem tecnológica, novas situações se ofereçam para atletas, nas mais diversas modalidades, poderem superar as marcas de seus antecessores.


A mídia, empenhada, pelo quanto fatura, em manter (ou até multiplicar) audiência, finge não reconhecer uma certa fraude ética. Ao contrário, o que interessa é noticiar que ‘novos heróis’, por seus méritos, suplantaram o recorde de marcas anteriores. A título de simples ilustração, observe-se uma manchete do portal da UOL: ‘Por um centésimo, Phelps conquista sétima medalha de ouro’. Sim, ‘um centésimo’ permitiu que Phelps igualasse o feito olímpico de Mark Spitz nas Olimpíadas de 1972. Ok! Parabéns! Em outra prova, o ‘fenômeno Phelps’, finalmente, conseguiu a oitava medalha! Viva! A mídia vibrou!


Sucessão de ‘fraudes’


Todavia, em 1972 não havia roupas que, por seu tecido e ajustadas ao corpo, favoreciam a velocidade. Em 1972 também não havia nenhum engenheiro australiano que, por pesquisa, deduzisse que, incluindo mais duas alas na piscina, sem serem utilizadas como raias, contribuiriam para igual aceleração, sem falar no aumento de dois para três metros de profundidade na piscina olímpica – o que colabora, enormemente, para diminuir a resistência do movimento da água contra o corpo dos nadadores, afora a depilação de todo o corpo.


Então, quando a notícia dá conta de ‘um centésimo’ haver assegurado o feito de Phelps, a mesma notícia deveria recordar, para o leitor, que, à época de Spitz, novos recursos inexistiam. Contudo, esse lembrete, em nome da justiça, não interessa a quem apenas pretende gerar excitação para assegurar receitas publicitárias, casadas com índices de audiência.


Igualmente, à mídia, não convém destacar que o ginasta Diego Hypólito caiu de modo pouco elegante, por conta de haverem substituído, dois meses antes da competição, o piso. O que, pois, causa espanto é a cumplicidade das redes que transmitem a competição em não denunciarem esse tipo de ‘armadilha’, típica de ‘cérebros mafiosos’ cujo propósito único mira a multiplicação dos lucros. Em tal contexto, ‘espírito olímpico’ não passa de uma expressão anacrônica, em nome da qual não vale a perda de horas de sono. A maior parte do ‘espetáculo’ é apenas a sucessão de ‘fraudes’ que servem para interesses de anunciantes, concorrentes em audiência e glorificação das recentes inovações tecnológicas.


Viva Caymmi


Daiane dos Santos também caiu e ficou em sexto lugar. Que coisa, não é? Em nenhuma narração, houve discurso indignado. Claro! Interessa à mídia lançar a seu público fiel qualquer insinuação quanto a métodos de manipulação de resultados? Alguém, em qualquer veículo de comunicação, seria capaz de denunciar o fato de que atletas chineses e europeus, em competições de ginástica, já estavam, bem antes, treinando com as novas modificações, em detrimento dos ginastas brasileiros? Não. Quem, porventura, no ar, dissesse tal coisa, não retornaria ao microfone.


Por favor, vendam eventos… Se puderem, mintam menos! Por fim, como ilustração da nova ‘lição olímpica’, fica aquele ato de banimento da virtuosa voz da menina de sete anos que, por ser considerada ‘feia’, foi dublada pela ‘graciosa e bela menina’ sem talento vocal algum. Enfim, o canto belo e o encanto natural estão banidos pela voracidade de lucros que não reconhecem o talento natural de quem, na lógica perversa, entenda que, em algum nível, ‘puro talento’ seja incompatível com ampliação de receitas.


Atenção, telespectadores! Ainda é tempo para a ‘cair a ficha’… Em meio a tantas fraudes, mais um ser, absolutamente autêntico, nos deixa: Caymmi. Entretanto, apesar de já ausente, ainda ouço aquela voz grave e límpida entoando as notas de ‘O mar,/ quando quebra na praia/ é bonito… é bonito /…/’.


Obrigado por tudo, querido Caymmi. Você nunca foi uma fraude. Sem precisar do ‘Olimpo’, sua presença sempre foi limpa.

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Ensaísta, articulista, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular de Linguagem Impressa e Audiovisual da FACHA (RJ)

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/08/2008 Ricardo Camargo

    A reflexão trazida neste texto toca diretamente a temas como a politização da estética, tanto no plano dos fins estatais como dos fins de lucro societário – empregada esta palavra com o peso que tem no Direito Empresarial -, bem como o da construção dos heróis e o uso do esporte mais como meio de demonstração de força do que propriamente como meio de integração, a despeito do discurso se voltar a este último aspecto. Esta temática é considerada tabu, passível, inclusive, de rotulagem pelos fanáticos de todos os matizes, justamente porque põe a nu o problema central do ser humano reduzido a uma simples condição de consumidor de produtos midiáticos. Não é, pois, uma questão de desculpar o ‘coitadismo’ ou de considerar que não houve eventualmente inépcia dos nossos atletas – e, na maior parte dos casos, realmente, não houve -, mas de discutir o esporte como objeto de manipulação midiática. Nas vezes em que dei aula, também não o fiz gratuitamente. Mas, de qualquer sorte, não é isto o que realmente importa para o debate deste texto, realmente, um dos mais lúcidos a que tive acesso nestes tempos de irracionalidade ufanística ou ‘entreguística’.

  2. Comentou em 19/08/2008 José Luis Ariosto Pereira Silva

    Marco Antônio Leite , tenha mais respeito pelos atletas que esforçaram-se para trazer o ouro para o Brasil, e não caia na conversa da grande midia da incompetência do Brasil, ok, está na cara que os brasileiros foram prejudicados, a história da vara que sumiu beneficiou quem??? uma americana que ficou com a prata! Gente como vc fica torcendo contra, para desanimar o povo, repito o que eu disse, se nossos atletas dessem essa alegria da vitoria pra populacao, seria demais para vcs tucanos, né???? a inflação acabou, o salário mínimo subiu, a saúde melhorou, tudo está bem melhor agora, mas vcs tucanos não aceitam, né??? Imagina se o Brasil bate o recorde de medalhas bem no governo do Lula, hein?? Vcs iriam morder o cotovelo de ódio! Tenha mais amor ao Brasil, sr Marco Antônio Leite e pare de torcer contra, como vcs tucanos tem feito desde que Lula assumiu, reconheça que vcs perderam, e tenham humildade de ajudar o Brasil, ok???? OU volte para o blog dos seus idolos mainardi e ronaldo azevedo! hahaha

  3. Comentou em 19/08/2008 Cláudio Dias

    Muito ruim o texto… Dos piores que já li por aqui. E desonesto também, pois ouvi, muitas vezes, a referência à tecnologia como motivo para a quebra de recordes.

  4. Comentou em 19/08/2008 MARIA AMÉLIA Tostes Filgueiras Campos

    Prezado Ivo, pertinentes as suas observações que eu mesma desconhecia sobre mudanças de pisos para os atletas da ginástica olímpica e a falta de costume dos nossos ginastas para com tais superfícies. É bem notória, também, a falta de crítica da mídia sobre esses e vários outros assuntos, bem como o seu atrelamento aos polpudos recursos publicitários. Mas, veja bem: onde estão os atletas e suas entidades representativas que não exigem em alto e bom tom tratamento semelhante no esporte olímpico? O silêncio da mídia é tão vergonhoso quanto o daqueles que se intimidam d se vergam às injustiças praticadas por outros. Acho então que é o momento de se repensar as participações dos países em desenvolvimento nas competições do resto do mundo.

  5. Comentou em 15/11/2007 José Carlos dos Santos

    É decepcionante sabermos que uma jornalista foi demitida por emitir uma opinião sobre o roubo realizado pelos bancos com o dinheiro do plano Bresser.
    Será que voltamos a censura ,ou ela nunca deixou de existir ?
    Ou a tv seguira o exemplo do PT, na eliminação de seus desafetos ?.
    Estamos indignados com a demissão da Salete.

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