Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & SOCIEDADE

Sobre a imprensa, o poder e ovos podres

Por Jose Luiz Ribeiro da Silva em 14/08/2007 na edição 446

Chamada de ‘Quarto Poder’ ou ‘Quarto Estado’ por uns, e considerada como ‘aparelho ideológico’ do Estado por outros, a imprensa tem adquirido nos últimos anos um papel fundamental na formação do pensamento contemporâneo. É nela que ocorrem divulgação e formação de idéias que irão orientar a opinião pública sobre seus conceitos e julgamentos.

Observa-se, no entanto, uma falta de pluralismo na cobertura de assuntos importantes para a nossa sociedade e, principalmente, no que tange a assuntos estratégicos para os interesses das nossas elites dominantes.

De tal sorte que a imprensa – através dos seus principais órgãos de divulgação – passa a exercer um papel de mantenedor do status quo de determinados setores de nossa sociedade, legitimando as ações e pensamentos de seus interesses junto à sociedade em geral, mas principalmente, e perigosamente, impondo à população um pensamento unívoco, limitando o debate e restringindo a informação.

Em matéria publicada na revista Universidade e Sociedade de fevereiro de 1998, órgão de divulgação do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior, o professor Bernardo Kucinski, da Universidade de São Paulo, já alertava, naquela ocasião, estar se criando em nossa sociedade o que se poderia chamar de uma ditadura do consenso. (Kucinski, 1998, p. 6). Muito embora o referido artigo possua quase 10 anos de existência, a sua contemporaneidade é contundente.

Idéias dominantes

Segundo as análises do professor Kucinski, quatro são as pré-condições que determinam e operam a chamada ‘construção de um consenso’, no universo cultural brasileiro, parafraseando o termo cunhado pelo lingüista norte-americano Noam Chomsky:

** Alto grau de concentração da propriedade dos meios de comunicações pertencentes a um mesmo grupo econômico ou a afiliadas;

** O que leva a uma certa uniformidade na divulgação da notícia pelos diversos tipos de mídia;

** Além do fato de que os jornalistas, ou por medo de assumir riscos ou por comodismo, se apoiarem uns aos outros, para dar legitimidade aos seus relatos;

** O que se soma ao fato de se constatar um ‘alto grau de promiscuidade’ entre jornalistas e establishment, no qual se destacam políticos, lobistas, ‘fontes oficiais’ e assessorias de grandes empresas. (KUCINSKI, 1998, p. 7).

Muito embora a idéia de agenda nacional remonte ao governo militar, concebida pelo general Golbery do Couto e Silva e um grupo importante de jornalistas para assegurar a chamada ‘abertura lenta, gradual e irrestrita’ do regime político de então, não deixa de ser inquietante, considerando o alto grau de polarização econômica e social da sociedade brasileira, que setores poderosos da mídia, associados a setores econômicos também poderosos, ditem e determinem à sociedade o seu modo de pensamento. A conclusão a que se chega é a de que, sem sombra de dúvidas, as idéias dominantes só podem ser as de interesse das classes dominantes.

O caso do Provão

Cria-se, assim, o que se poderia chamar de agenda nacional. Uma agenda de assuntos que devem ser destacados, enquanto outros, nem tanto. Tal homogeneidade de notícias é percebida com facilidade ao se compararem os diversos jornais existentes e seus lay-outs. Dessa forma, é possível observar como opera esse fenômeno, suas manchetes e seus assuntos parecendo uniformizados, não muitas vezes idênticos.

Os oito anos de governo Fernando Henrique Cardoso e sua agenda neoliberal são caso exemplar nesse sentido, a ponto de um de seus ministros (Rubens Ricupero) trocar confidências com o repórter (Carlos Monforte) da Rede Globo de Televisão: ‘O que é bom, a gente divulga; o que não é, a gente esconde’. O ex-ministro, se não me falha a memória, está desfrutando de um confortável cargo numa dessas Cortes internacionais de justiça ou coisa que o valha; o jornalista Monforte continua com um dos principais comentaristas políticos da Rede Globo.

Este conluio e promiscuidade entre poder político e a mídia em geral, nesse período, foram tantos e tão descarados a ponto de serem explicitados na frase do ministro da Educação e aspirante à Presidência da República (Paulo Renato Souza) sobre o papel da imprensa frente à necessidade de legitimação das políticas de gestão: ‘Eu tenho alguns exemplos muito claros dessa participação da mídia. O caso do Provão. O caso do Provão foi ganho na imprensa!’ (Paulo Renato Souza, revista Imprensa, citada em Caros Amigos, 2001).

Depoimento no YouTube

Dada a sua grandiosidade e consecutivamente ao seu poder de influência, a Rede Globo de Comunicações sempre estará presente a esse tipo de debate. Não se pode negar, e já faz parte da história brasileira recente, o seu comportamento e posicionamento ante acontecimentos que marcaram a vida política e social do país. A campanha Diretas Já, a eleição de Brizola no Rio, ou o seqüestro do empresário Abílio Diniz são exemplos que devem ser considerados por estudiosos da cultura nacional, pois englobam vários aspectos – culturais, sociais, políticos, éticos, dentre muitos.

A bola da vez (me desculpem a grosseria da expressão) é o trágico acidente evolvendo o avião da TAM em Congonhas. Seus locutores, auxiliados pelos teleprompts, ora com a voz embargada pela emoção, ora pela indignação, e auxiliados, mais uma vez, pelos políticos de ocasião e de sua preferência, fazem pilhagem, transformando a integridade das vítimas da catástrofe em panfletos eleitoreiros para as próximas eleições.

Em depoimento veiculado no site YouTube, ‘Boninho’, como é conhecido um dos diretores globais, afirma categoricamente ter acertado muitas ‘vagabundas’ com ovos podres da sacada de seu apartamento. O vídeo foi tirado do ar rapidamente, mas as ‘vagabundas’ ficaram na calçada esperando novos ovos podres embalados em forma de notícias.

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Psicólogo, Curitiba, PR

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