Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & POLÍTICA

Sobre a liberdade de expressão

Por Adriana Vandoni em 06/01/2009 na edição 519

Mais uma vez um simples desabafo meu, relatando toda a minha indignação com a irresponsabilidade com que o povo é tratado – virou polêmica, e agora soube que até entre alguns jornalistas. No dia 29/12 eu relatei no blog Prosa & Política a falta de um mísero comprimido de Isordil em um posto de saúde do bairro Novo Horizonte, em Cuiabá, que poderia ter salvado a vida do senhor Valter (ver aqui). Relatei também as péssimas condições do Pronto Socorro de Cuiabá, que mais parece um matadouro clandestino.


Pois bem, para minha surpresa, e até consternação, esse meu desabafo foi motivo de debate entre um grupo de jornalistas dentro de uma instituição pública. Não, eles não estavam discutindo as condições da saúde pública da cidade de Cuiabá, muito menos a responsabilidade dos gestores. E eis aqui a minha consternação.


Por mais deplorável que pareça, o que ocupou os neurônios do grupo não foi o relato da falta de remédio no posto de saúde ou o ambiente funesto do Pronto Socorro de Cuiabá, muito menos a morte de seu Valter, mas a tentativa de descobrir por que eu havia escrito aquilo.


Escrita ideológica e fisiológica


‘Será que a Adriana está virando a casaca?’, foi o que comentaram no grupo. Por esse raciocínio, se eu reclamo do serviço prestado pelo município, eu estou brigando com o PSDB, partido do prefeito, logo, virando a casaca e apoiando o grupo político do governador. Se faço o contrário, não tenho moral pra criticar porque sou tucana.


Por aquelas cabeças não passou a possibilidade de que a vítima poderia ser uma pessoa querida e meu texto, um desabafo de indignação diante dos atuais responsáveis pela saúde pública. Pois é, seu Valter era motorista dos meus sogros há 22 anos e eu apenas não quis colocar o episódio como um fato pessoal mesmo porque se fosse um total desconhecido, mas soubesse dos fatos como soube deste, escreveria com a mesma indignação. Já cansei de fazer isso, independente de qual partido ou governante seja o responsável pelo descaso.


Para alguns jornalistas, a escrita só pode ser interpretada de duas formas: ideológica ou fisiológica. Funciona assim: escrita ideológica = ‘Sicrana critica Fulano porque é seu adversário político. Mesmo que Fulano esteja cometendo um ilícito, Sicrana só pode estar escrevendo assim porque tem interesse político’. Na outra interpretação, a escrita fisiológica = ‘Sicrana critica Beltrano porque foi cooptada por Fulano, que deve estar pagando para ela fazer isso’.


Não enxergam o umbigo


Talvez isso seja a causa do famoso ‘jabá’ no meio jornalístico, em que Fulanos e Beltranos usam o dinheiro roubado do povo para satisfazer as necessidades fisiológicas dos Sicranos. E que se danem as injustiças do país! Neste caso não sei quem é mais canalha, se o vagabundo que rouba, ou o salafrário que se farta do dinheiro roubado.


Ética profissional, preocupação com o próximo, compromisso social? Para essa turminha de meia dúzia, isso só é defendido até o momento que lhe abanam umas notinhas. Um carguinho, um salário, uma mesada ou um mensalinho, ou até um terreninho, refestelam o rabo tal qual uma cadela no cio. E o pior, essa meia dúzia acaba comprometendo a imagem de uma classe inteira.


Às vezes, fico me perguntando o que será que lhes foi ensinado na faculdade? Gabam-se tanto de serem jornalistas com diploma, mas não passam de massa de manobra para essa ou aquela ideologia. Não investigam ou criticam o presidente do STF embasados em fatos ou documentos. Enterram-no, simbolicamente, como protesto para pressioná-lo a decidir-se pela exigência do diploma, mas para quê? O médico serve à sociedade pra curar doentes, o advogado para fazer a defesa dos cidadãos. O que eles desejam?


A maioria dos que estavam no tal ‘debate sobre mim’ se negou a criticar a tentativa do diretor-geral do Dnit, Luiz Pagot, de cercear a liberdade de expressão porque não tenho diploma de jornalista. Vejam só! O umbigo deve ser muito distante para esses porque não conseguem enxergar nem o próprio.


‘Muito compreensiva’


A causa, isto é, a defesa da liberdade, não passou pela cabeça dos que mais nela deveriam ser interessados [na liberdade]. O que interessa é que não querem que eu escreva por não ter o tal ‘diproma’. De antemão, aviso: não quero ter diploma de jornalista, não sou jornalista e jamais quis ser. Mas, como cidadã, tenho o direito de opinar e escrever sobre o que quer que seja. Ou não? E por isso defendo a democracia e a liberdade de expressão de qualquer ameaça, vinda de quem quer que seja, contra qualquer um.


Semanas atrás, assim que a ameaça de Pagot eclodiu e ele deixou claro que o processo contra mim era um exemplo a todos que pretendessem escrever sobre ele, liguei para a presidente do Sindicato de Jornalistas do estado de Mato Grosso, por desencargo de consciência e para ver até onde ia a luta do sindicato pela liberdade de expressão, base que lastreia o exercício da profissão da classe que ela representa. Veja o que ela me disse: ‘Sabe o que é, a mídia às vezes exagera!’ Verdade. Juro que escutei isso da presidente do Sindicato dos Jornalistas do estado de Mato Grosso. Perguntei se o sindicato não iria se pronunciar, não por minha necessidade, pois afinal já estou muito bem defendida e a postura do sindicato pouco ou nada interessa a mim, mas jamais imaginei que um sindicato de jornalistas iria se calar diante da declarada ameaça ao direito de liberdade de expressão.


A presidente do sindicato foi ‘muito compreensiva’, disse que se eu quisesse poderia ir à reunião que acontecerá no dia 12 de janeiro e aí poderia expor meu caso e eles se reuniriam para decidir o que fazer. Democrática a sua forma de lidar com a questão, não fosse a liberdade de expressão uma questão que não precisa da minha presença para ser discutida, mas deveria ter uma resposta dos representantes dos jornalistas. Por que eu iria a uma reunião do sindicato dos jornalistas? Prefiro discutir a liberdade de expressão neste meu espaço, independente deles.


‘Resistência’ não resiste ao poder


Mas talvez essa postura tenha uma explicação. O Sindicato dos Jornalistas acabou de ganhar do governo do estado um terreno para construir a sua sede, além de conseguir também fazer com que alguns deputados destinem uma verbinha para a obra. Entenderam como funciona? Vejam só o convite para o lançamento da pedra fundamental da sede, com a logomarca do governo do estado. Para que lutar pela preservação do direito de expressão quando o desejo maior é possuir a própria sede?


Uma ‘foca’ da cidade vizinha de Várzea Grande chegou a fazer uma representação no Sindicato dos Jornalistas de MT, imagine, em nome de Pagot, por supostamente eu exercer ilegalmente a profissão. Caramba, que tem o fiofó com as calças? Nada, mas a coitada cometeu esse desatino. Seria o mesmo que eu apresentar uma reclamação contra um arquiteto no sindicato dos médicos! Ou representar contra ela no sindicato das prostitutas.


É a tal história: princípios, coerência, compromisso com o povo são ideais que independem de partido ou profissão. Eis a nossa diferença. Não sou orientada por isso, muito menos por dízimos governamentais.


Mas tenho esperança em um futuro melhor, apesar dessa meia dúzia.


Será que se eu me filiasse ao PT ou PR (a bola da vez para esse grupinho) me tornaria ídolo dessa meia dúzia? Eles tentam me enquadrar em algum estereótipo. Pois podem desistir. Vão acabar torrando as cacholas tentando me decifrar. Como já disse, sigo o lema do Chacrinha: não vim para explicar, vim para confundir.


Tomara que a tal reunião do dia 12, à qual eu não vou, seja para discutir não sobre mim, mas sobre a subserviência de um sindicato que usa como lema a frase: ‘Com as pedras do caminho construímos o nosso muro de resistência’ e que, na verdade, não resiste a um sopro do poder. Tomara que usem a reunião para repensar a postura de um sindicato que representa uma classe séria e importante e que já foi a vanguarda na luta pelo direito à liberdade de expressão no Brasil.

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Economista, especialista em Administração Pública pela FGV/RJ, articulista política do blog Prosa & Política www.prosaepolitica.com.br

Todos os comentários

  1. Comentou em 07/01/2009 Kátia Regina Ribeiro

    Caro colega, a informação é verdadeira, inclusive um grupo de jornalista está entrando com um pedido de impugnação da doação do terreno.
    A questão ñ é se a Adriana é jornalista, a questão é qto à liberdade de expressão. Ela recebeu apoio da OAB sem ser advogada. Este sindicato atual (ñ sou sindicalizada, graças a Deus) ideológico e equivocado, por preconceito e interesses comerciais, ñ vai se manifestar para ñ desagradar o ameaçante.

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