Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Sobre o complexo de vira-lata

Por Francisco Fernandes Ladeira em 19/01/2016 na edição 886

Décadas antes da vexatória derrota de 7 a 1 para a Alemanha, a seleção brasileira já havia perdido um Mundial de futebol em seu próprio território. O ano era 1950 e o palco da “tragédia”, o estádio do Maracanã. Precisando apenas de um empate no último jogo da competição (na época o regulamento era diferente do atual); o escrete canarinho titubeou diante do Uruguai. Resultado final: 2 a 1 para a Celeste Olímpica. Como era de se esperar, um clima de pessimismo generalizado tomou conta do país. Na ocasião, o escritor Nelson Rodrigues cunhou o clássico termo “complexo de vira-lata” para representar o sentimento de inferioridade que o brasileiro possui em relação a outros povos, sobretudo aqueles do chamado “Primeiro Mundo”.

Pois bem, oito anos mais tarde, na Copa do Mundo realizada na Suécia, o Brasil se sagrou campeão pela primeira vez e, a partir de então, vieram mais quatro títulos que solapariam peremptoriamente o sentimento de inferioridade futebolística. Se o “complexo de vira-lata” foi banido do futebol, nos outros âmbitos da sociedade brasileira ele ainda insiste em permanecer. Vejamos um exemplo recente. Uma postagem compartilhada milhares de vezes nas redes sociais comparava duas praias após a festa de réveillon. A primeira nos Estados Unidos (supostamente limpa) e a segunda, no Brasil (repleta de lixo). Mesmo se tratando de uma grotesca montagem, conforme o desmentido em oportuna matéria da revista Fórum, a referida postagem recebeu numerosos comentários que execravam o “selvagem” brasileiro e exaltavam o “civilizado” americano.

Mas, afinal de contas, por que esse falso senso de inferioridade se disseminou tanto em nossa sociedade? Em entrevista à Folha de S.Paulo, o cientista político e presidente do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) Jessé Souza asseverou que o “complexo de vira-lata” é um discurso criado pela classe dominante que remete ao período colonial, corroborado academicamente por nossa intelligentsia (através de influentes nomes como Sérgio Buarque de Holanda, Roberto DaMatta, Fernando Henrique Cardoso e Raymundo Faoro) e replicado pelo senso comum.

O abandono da classe dos excluídos

No livro “A tolice da inteligência brasileira”, Jessé denuncia análises maniqueístas em que, ao longo dos anos, elite econômica e intelectualidade idealizaram sociedades de países desenvolvidos como racionais, democráticas, igualitárias e meritocráticas. Em contrapartida, pensaram o Brasil como um país marcado exclusivamente por corrupção generalizada, compadrio, malemolência e patrimonialismo. Resumidamente: o famoso “jeitinho brasileiro”. Desse modo, estereótipos negativos sobre nossa população encontram terrenos férteis em piadas do cotidiano, na “Lei de Gérson”, em telenovelas (por meio de personagens interesseiros, malandros e passionais), na literatura (“Macunaíma”, de Mário de Andrade) e nos programas de humor (“Bento Carneiro, o vampiro brasileiro”, de Chico Anysio, ao contrário de seus congêneres estrangeiros, era medroso, ignorante e abobado).

Refutando o que muitos ainda insistem em colocar, é preciso frisar que características negativas como patrimonialismo ou desonestidade não são intrínsecas ao DNA tupiniquim, mas fatores inerentes ao capitalismo, sistema econômico que coloca a busca por lucro e ascensão social acima de quaisquer valores humanos. Aspectos negativos e positivos, obviamente, ocorrem em todas as nações. “Eu gostaria antes de tudo de saber onde fica esse país maravilhoso, formado apenas pelo mérito, que não favorece ninguém e onde relações familiares não decidem carreiras. Quem conhecer, por favor, me avise. Eu passei boa parte de minha vida adulta em países ditos ‘avançados’ e nunca conheci um assim”, provocou Jessé Souza. O brasileiro possui suas peculiaridades; não é melhor nem pior do que os outros povos. O “complexo de vira-lata” não reflete a realidade. Trata-se, assim, de um mito criado para legitimar a separação entre a elite econômica, autoproclamada guardiã de todas as virtudes, e as classes populares, qualificadas como portadoras de todo tipo de vício.

Evidentemente, nenhum indivíduo é obrigado a ter posições ufanistas ou tampouco gostar de seu próprio país, mas subestimá-lo com generalizações elitistas e, por outro lado, sobrevalorizar constantemente o estrangeiro, não é, definitivamente, a melhor maneira de expor determinados argumentos. Ademais, os verdadeiros problemas do Brasil não nascem de supostas deficiências culturais que tenhamos frente aos países desenvolvidos, mas da incapacidade de nossa sociedade integrar um vasto contingente de excluídos a quem faltam recursos materiais, equipamentos básicos de educação, autoestima e cidadania. “A peculiaridade do Brasil é a tolerância com o abandono da classe dos excluídos que chamo provocativamente de ‘ralé’. Todos nossos problemas –insegurança, baixa produtividade, serviços públicos de má qualidade – advêm do esquecimento dessa classe”, concluiu o supracitado Jessé Souza. Em outros termos, o que dificulta nosso verdadeiro desenvolvimento não são aspectos negativos do povo, mas a vertiginosa desigualdade social que assola o país há séculos.

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Francisco Fernandes Ladeira é mestrando em Geografia

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