Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > JORNALISMO DE LATRINA

Sobre o pogrom higienista

Por Humberto Amadeu Capellari em 23/01/2006 na edição 365

Em solidariedade ao padre Júlio Lancelotti e sua missão, enviei esta mensagem à Veja por matéria semelhante a texto de propaganda, profissão de fé na especulação imobiliária e elogios à entrega de propriedade pública à iniciativa privada. No fim aparece um box atacando o protetor dos miseráveis da capital, padre Júlio Lancelloti.

Não por acaso, a gíria ‘derrubar’ tem o significado de matar, eliminar. Os moradores de rua da Tabatingüera que foram ‘derrubados’ por sabe-se-lá-quem ainda aguardam por Justiça. Foi uma maneira um pouco rude a encontrada pelos autores do massacre para ‘reavivar a idéia de espaço público’. Com o poderio de que dispõem os miseráveis (‘esse pessoal’, conforme a colunista; ‘essa raça’, segundo a sabedoria das elites), estes dividem a cidade entre quem está com eles e quem está contra.

Obediência submissa

Os contra, por seu lado, aguardam fervorosamente pela ação firme, pulso forte do poder público, coibindo exemplarmente as atitudes anti-sociais e arrogantemente anárquicas dos hunos que perambulam por ‘nossa’ cidade, tornando-a inviável ao deleite dos turistas, que dirão horrores quando de volta ao Primeiro Mundo. Para combater isso, a solução é doar a Pólis para ser administrada pela iniciativa privada, honesta e competente, conforme comprovado por excelências como a Enron e a Editora Abril.

Voltemos nossas baterias, ops, atenções ao padre Júlio Lancelloti, eleito por Veja como o ‘Indesejável da Semana’. Não são poucos os que detém essa honra. O pároco comete o pecado da ingenuidade, derivada de sua fé na compreensão entre os homens.

A repórter (que só exerce a profissão graças à obrigatoriedade do diploma universitário, abominação inventada pelo governo militar, abraçado fervorosamente por Veja pós-Mino Carta, em troca de um financiamento) deve residir em local confortável, adquirido graças à obediência submissa exigida pelos patrões da mídia daqueles que voluntariamente se prestam a transcrever ditados ou scripts encomendados. Contrariando as regras elementares do jornalismo, ou então seguindo fielmente o ‘Manual Veja de Redação’, não apresentou a versão de Lancelloti sobre o universo com que lida diariamente.

Desejo inconfessável

Nem ao menos mencionou as seguidas ameaças de morte que o padre recebe, o que justificaria (e muito) a existência da tal cerca elétrica. Ao contrário, usando raciocínio que não ficaria deslocado em congresso de corretoras de imóveis e especuladores afins, elogia as ações da prefeitura tucana para retirar todo tipo de entulho humano que, porventura, esteja no caminho dos investimentos privados. Proíbe-se a distribuição de sopa, some-se com os pertences ‘dessa gente’, e o caminho estará limpo.

De forma inacreditavelmente infantil, a repórter pergunta o porquê do padre não viver nas ruas, com o povo que tanto ama (ironia dela). Essa é fácil: diante do exposto, ou seja, considerando as já referidas ameaças de morte que sofre (sofrimento: ofício do homem de fé), somadas a eventos como o massacre da Rua Tabatingüera, cuja solução parece estar fora do campo de interesse da polícia de Alckmin, conclui-se que o padre não é tão ingênuo assim. Não duraria um dia.

Conclui-se que uma sugestão como essa, longe de configurar falta de reflexão por parte do autor revela, na verdade, algo muito bem pensado. Ou, talvez, um desejo inconfessável pela súbita ‘derrubada’ de Júlio Lancelloti.

Insinuação, sim

Segundo denúncias do então senador Roberto Requião, atual governador do Paraná, em pronunciamento no Senado Federal no dia 24/9/1999, Victor Civita teria adquirido, de forma subfaturada, um apartamento na capital paulista. Bem abaixo do preço das demais unidades no mesmo prédio. Seria algum prêmio por serviços prestados? Um cidadão de bem da iniciativa privada, agradecido por alguma matéria favorável? Quem sabe?

É possível que a repórter que assinou a matéria envolvendo Lancelloti não possua um imóvel de sua propriedade. Se continuar com seus valorosos préstimos à causa tão cara a seus chefes, em breve tornar-se-á a feliz proprietária de um belo apartamento, quiçá em algum prédio desses que brotarão, quando então a prefeitura tucana terá realizado diligentemente seu pogrom higienista.

É uma insinuação sim, mas, como nos casos do ‘suposto mensalão’ ou dos dólares de Cuba, provas são dispensáveis. Retratações também.

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Comerciário, São Paulo

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