Domingo, 19 de Abril de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 18 - nº 846

FEITOS & DESFEITAS > CIRCO RICHTHOFEN

Sobre falsidades e a responsabilidade da imprensa

Por Maurício Cardoso em 12/04/2006 na edição 376

Muito se tem falado a respeito da ética profissional dos advogados que levaram Suzane Richthofen a expor seus falsos sentimentos em rede nacional de televisão e na capa da mais vendida revista brasileira. Pouco ou nada se falou das responsabilidades da imprensa neste episódio. Como se ela não tivesse nenhuma. Tem. Toda.


Fala-se de farsa. É verdade. As lágrimas fingidas da assassina confessa dos próprios pais, suas falas mal ensaiadas diante das câmaras e do bloco de anotações das repórteres não constituem outra coisa – uma farsa. Quem fez a entrevista sabia que aquilo era uma farsa. Seria uma farsa particular até se tornar pública. Porque torná-la pública, então?


Nas primeiras aulas de jornalismo, ensina-se que nem tudo que se apura vai para o ar ou se publica. Se a informação é falsa, ela não merece ser publicada. Na medida em que se publica uma falsidade, quem o faz assume a responsabilidade pela falsidade, participa da farsa, mesmo que seja para denunciá-la. Então, por que publicar a falsa lágrima da mulher que matou os pais?


Fica evidente que os advogados pretenderam usar a imprensa para construir uma imagem positiva de sua cliente. Se deram mal. Desconstruíram o que ainda poderia restar de positivo na figura que defendem. Estão sendo cobrados por isso. A imprensa se vingou e usou a farsa montada com sua conivência em proveito próprio. Deu capa na revista e ibope alto na telinha. Para ela, ficou de graça.


Medida processual


Este é um jogo permanente entre fonte e jornalista. Cada um sabe que está sendo usado e deliberadamente busca usar o outro. Sempre foi assim e continuará sendo. É justo que os bônus e também os ônus deste jogo sejam equanimemente repartidos pelos participantes do jogo.


O interesse público é sempre uma boa razão para justificar a publicação de uma informação – esta é outra das lições básicas do bom jornalismo. Pergunta-se: qual o interesse público da entrevista de Suzane? O que ganha a sociedade em saber que além de assassina, a moça é fria e dissimulada. O máximo que as duas reportagens [Fantástico (9/4) e Veja (nº 1951, de 12/4/2006)] conseguem é antecipar o julgamento da ré, o que não é exatamente um bom serviço à convivência social. Para julgar Suzane, com a observância do devido processo legal e com o respeito aos direitos fundamentais do cidadão, mesmo sendo este cidadão uma mulher que matou os próprios pais, está marcado o Tribunal do Júri no dia 5 de junho próximo.


Por causa das entrevistas, a moça voltou para cadeia, mas nem isso pode ser creditado como um bom serviço prestado pela imprensa. O Ministério Público, com o oportunismo que lhe é característico, entrou em cena e fez o pedido para que fosse restabelecida a prisão preventiva de Suzane. Como se fosse crime fracassar no papel de atriz no desempenho de um personagem infeliz. Se Suzane merece cadeia, ela certamente a terá depois de devidamente julgada e condenada. Prisão preventiva não é pena, é medida processual e, portanto, não é instrumento para apenar ou fazer Justiça.


Últimas conseqüências


Voltando ao papel da imprensa no episódio, o que é certo é que não teria havido farsa se a tentativa de farsa não tivesse virado manchete. Da mesma forma que o sigilo do caseiro não teria sido quebrado se não tivesse sido divulgado na imprensa. Vejam: tanto o presidente da Caixa Econômica Federal quanto o ministro da Fazenda estão legalmente autorizados a tomar conhecimento do extrato de qualquer correntista. O que eles não podem fazer, e ninguém pode, é publicar na internet o extrato de quem quer que seja, como foi feito no site de uma revista. Sem divulgação da informação sigilosa, não há quebra de sigilo.


Neste caso, também, quem vazou a informação pretendeu usar a imprensa e acabou sendo usado pela imprensa, que deu um furo. Mas as responsabilidades não foram distribuídas com a mesma equanimidade.


Tanto a publicação do extrato do caseiro como a exibição da falsa lágrima da assassina fazem parte do show da mídia, desta tendência universal e irreversível de transformar tudo e qualquer coisa num espetáculo para comover platéias. Informação é outra coisa, mas tudo bem. É muito salutar que seja garantido às últimas conseqüências o direito de informação. Que a imprensa publique absolutamente tudo que julgar no seu direito. Mas é igualmente muito salutar que responda pelo que escreve, fala e exibe.

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Diretor de redação do site Consultor Jurídico

Todos os comentários

  1. Comentou em 07/12/2008 Mara Regina Silva

    Já nos falamos por telefone, mas perdi contato, peço que entre o mais rápido possível em contato comigo
    assunto que envolve sua filha Nizia Caroni URGENTISSIMO. Peço pelo amor de DEus que de atencção ao meu recado

    OBS; E se alguem puder me ajudar localiza-lo o telef. é 0xx (35) 35226655

  2. Comentou em 18/04/2006 Joelma Tereza Serafins dos Reis

    Srº Mauricio concordo em número e grau sobre tudo o que disse, mas quando diz porque tornar pública a matéria? Para que nós brasileiros também tenhamos a oportunidade de construir nosso senso crítico sobre crimes hediondos e tudo bem que prisão preventiva não é pena, mas seria absurdo enquanto ser humano saber que a população viu e ouviu aqueles absurdos e nada foi feito, quem sou eu para julgar o mérito da questão, simplesmente uma brasileira que ainda acredita que podemos resgatar valores a muito perdidos em nossa sociedade, onde uma filha planeja a morte de seus pais friamente e não sente remorso por isso, tenho uma linda filha, que desejei com muito amor, que está com apenas dois meses de vida, imagine pensar que está mesma maravilhada pode me tirar o direito de viver, simplesmente por ganância e o poder.
    A imprensa foi sensacionalista, mas vamos tentar olhar os vários ângulos, mesmo que para obter proveito em causa própria a imprensa usou de má fé, mas se não fosse assim a Suzane ainda estaria posando de menina influenciada e desmemoriada.

  3. Comentou em 18/04/2006 Joelma Tereza Serafins dos Reis

    Srº Mauricio concordo em número e grau sobre tudo o que disse, mas quando diz porque tornar pública a matéria? Para que nós brasileiros também tenhamos a oportunidade de construir nosso senso crítico sobre crimes hediondos e tudo bem que prisão preventiva não é pena, mas seria absurdo enquanto ser humano saber que a população viu e ouviu aqueles absurdos e nada foi feito, quem sou eu para julgar o mérito da questão, simplesmente uma brasileira que ainda acredita que podemos resgatar valores a muito perdidos em nossa sociedade, onde uma filha planeja a morte de seus pais friamente e não sente remorso por isso, tenho uma linda filha, que desejei com muito amor, que está com apenas dois meses de vida, imagine pensar que está mesma maravilhada pode me tirar o direito de viver, simplesmente por ganância e o poder.
    A imprensa foi sensacionalista, mas vamos tentar olhar os vários ângulos, mesmo que para obter proveito em causa própria a imprensa usou de má fé, mas se não fosse assim a Suzane ainda estaria posando de menina influenciada e desmemoriada.

  4. Comentou em 17/04/2006 Dermeval Vianna Filho

    Meus parabéns, Maurício. Você vai ao cerne da questão: a mídia, ao invés de ser imparcial, está adotando um comportamento que beira o limite do fascismo. Ela expõe fatos, acusa e pune, num totalitarismo semelhante aos dos períodos mais obscuros da história.
    Ora, vivemos num Estado Democrático de Direito ou não? Quando a mídia acusa a existência de censura, escora-se no direito fundamental de liberdade de informação. No entanto, quando decide acusar alguém, sem observância do contraditório, diga-se, ela o faz sem nenhuma cerimônia, desrespeitando o princípio constitucional da presunção de inocência e do devido processo legal.
    Infelizmente, não é na própria imprensa que encontaremos a solução destes problemas, mas no Poder Judiciário. Já passou da hora de imputarmos à imprensa, e aos seus atores, a sua cota de responsabilidade. Senão, em pouco tempo, obras como ‘1984’ e ‘Admirável Mundo Novo’ deixarão de ser ficcionais.

  5. Comentou em 13/04/2006 Lilian Fugii

    É lastimável o que a imprensa consegue fazer com um país, com um povo…
    Estamos a dias acompanhando uma tremenda farsa de todos os lados. Ré, Advogados e Imprensa, algo que me parece já ter se tornado uma pequena briga particular, LASTIMAVEL mesmo.
    Enquanto a imprensa se preocupa com o caso da Suzane Richthofen, que a mim não interessa em nada, nossos maravilhosos políticos continuam deitando e rolando no congresso.
    Porque não mostrar ao povo o que realmente interessa. Tudo bem que o caso interesse, mas é por causa de nossa legislação que tudo isso está acontecendo, inclusive a liberdade da TAL, só foi possível por causa desta mesma legislação, defasada, equivocada, e que os nossos políticos, aqueles mesmos que estão deitando e rolando não se interessam, não ligam, não mudam, mudar? Pra quê ? Não os prejudica…
    A Imprensa mostra para o povo o que lhe é conveniente, o que dá audiência o extremo estrume, lixo…
    O povo não se interessa por política, a imprensa se aproveita deste fato para “agradar” seus telespectadores totalmente sem informação, sem conhecimento, sem cultura e ninguém os convencem de que sua participação é importante.
    O povo tem que aprender que quem manda em um país é o povo. Que voto não é obrigação, é direito adquirido, houve luta por esse direito, temos que exercê-lo com seriedade, temos o direito de saber o que se passa e de poder decidir quem fica e quem sai, não são eles que tem que decidir, nós os colocamos lá, temos o direito e o dever de tirá-los.
    O povo não enxerga que a França só está onde está porque possui um povo que participa, mudam, fazem a diferença.
    Aqui nos dias atuais ainda vivemos a política do “pão e circo”, aquela em que os reis abaixavam o preço do trigo e dava festas gratuitas para o povo não ter tempo de prestar atenção no que se passava no “governo”, desde milhares de anos atrás nada mudou.
    E a imprensa o que faz ????
    Novela.
    Isso mesmo, novela, para o povo, Suzane, Futebol, Juiz ladrão, Falta de segurança e blá blá blá blá blá.
    No dia em que todo o mundo resolver levar o país a sério, o povo, os políticos e principalmente a imprensa começaremos a crescer de verdade.
    Porque com tudo que acontece, que a imprensa nos passa, parece que realmente seja interessante o povo só saber de “algumas coisas”, porque tanta omissão ???
    Poderia escrever um livro sobre o assunto, mas sei bem que isto tem um endereço certo, apenas “algumas camadas”, mas isso já é um outro assunto, que infelismente também envolve de forma negativa a Imprensa e nossos políticos, os principais personagens desta triste história”.

    Lílian Rocha Fugii

  6. Comentou em 13/04/2006 Tatiana Jeronimo

    Quero parabenizar o Sr. Maurício Cardoso pelo excelente texto crítico escrito. Sou estudante de Letras, e reconheço o quanto é difícil ler um texto bem escrito. E este texto, além ser bom, evidencia a percepção do autor em reconhecer a intenção daqueles que desejam ganhar reconhecimento em cima de um fato abominável.

  7. Comentou em 13/04/2006 Tatiana Jeronimo

    Quero parabenizar o Sr. Maurício Cardoso pelo excelente texto crítico escrito. Sou estudante de Letras, e reconheço o quanto é difícil ler um texto bem escrito. E este texto, além ser bom, evidencia a percepção do autor em reconhecer a intenção daqueles que desejam ganhar reconhecimento em cima de um fato abominável.

  8. Comentou em 13/04/2006 wellington albuquerque

    Concordo com tudo o que foi dito, porém pergunto?
    O que é a TV se não uma grande farsa, uma grande ilusão, uma grande fantasia.

    Quando da chamada dessa entrevista, o bom telespectador, aquele que sabe o que é a TV brasileira e mundial, que vive de sensacionalismos baratos, já podia simplesmente mudar de canal ou desligar a TV ou ler um livro, porque estava escancarado para todos que se veria a seguir apenas e tão somente, busca por indices maiores de audiência.

    Tudo na TV é duvidoso, e carece de autenticidade, desde desenhos infantis até o nosso bom futebol, passando pelas novelas e telejornalismo, então a pergunta que não quer calar, é:

    Como mudar esse estado de coisas?

  9. Comentou em 13/04/2006 Edgar de Souza Batista

    Vou dar a minha opnião sobre o caso, o que mais me assusta não é o fato dela ter matado os pais ‘Me assustou em época’.
    Mas já que ela errou foi presa, tericamente pagará por isso.
    Eu fiquei espantado a força de vontade que uma rede de televisão tem em querer derrubar um ser humano, como diz io ditado ‘Errar é Humano’.
    Agora fica um monte de senhoras revoltadas, em suas cadeiras e senhores embasbacados em seus escritórios com a farsa da moça.
    Mas eu faço uma pergunta aos senhores:
    Quem espantou mais a Suzane ou a parlamentar que dançou no plenário?
    Qual a diferença entre as duas, fora a idade?
    Hora meu senhores e senhoras uma coisa eu aprendi no espiritismo, ‘Se não for para ajudar por favor não atrapalhe’
    E longe de discuções religiosas fica a indignação de um repaz de 24 anos que não quer fazer julgamento das pessoas e sim das idéias que elas tem.
    A moça errou e todos nós sabemos, para afundar a garota em lama aparecem milhares, agora para estender a mão e ajuda-la não aparece nunhum.
    Sobre a Rede Globo, ela está mais preocupada em IBOP do que na matéria em si ou informar a população.
    Aliás, sobre dança da parlamentar a Globo não fez nem menção, ou pelo menos eu não vi.

  10. Comentou em 13/04/2006 Luiz Carlos Alfredo

    Que a Imprensa Brasileira precisa ser mais responsável, eu concordo. Mas daí o Sr. Maurício Cardoso (autor dessa matéria) entender que não interessa ao público saber que a assassina dos seus próprios pais também é uma pessoa fria e dessimulada (ainda mais quando tenta enganar a sociedade se fazendo de vítima)aí já demais. Interessa sim ao público saber que essa assassina é fria e dessimulada, é importante sim, que essa informações cheguem ao conhecimento da sociedade. Afinal o que o Sr. Maurício Cardoso pretende? Que sejamos um sociedade alienada? Que apenas alguns poucos tenham acesso a informação e sejam onipotentes juízes?
    Sr. Maurício Cardoso reflita um pouco sobre o que V.S. escreveu.

    Luiz Carlos Alfredo

  11. Comentou em 13/04/2006 Luiz Carlos Alfredo

    Que a Imprensa Brasileira precisa ser mais responsável, eu concordo. Mas daí o Sr. Maurício Cardoso (autor dessa matéria) entender que não interessa ao público saber que a assassina dos seus próprios pais também é uma pessoa fria e dessimulada (ainda mais quando tenta enganar a sociedade se fazendo de vítima)aí já demais. Interessa sim ao público saber que essa assassina é fria e dessimulada, é importante sim, que essa informações cheguem ao conhecimento da sociedade. Afinal o que o Sr. Maurício Cardoso pretende? Que sejamos um sociedade alienada? Que apenas alguns poucos tenham acesso a informação e sejam onipotentes juízes?
    Sr. Maurício Cardoso reflita um pouco sobre o que V.S. escreveu.

    Luiz Carlos Alfredo

  12. Comentou em 13/04/2006 Arnaldo Leal

    Excelente artigo. Brilhante exposição dos fatos. Há muito já achava que a imprensa Brasileira era o retrato da próprio Brasil: incapaz, apelativa, demagógica e desonesta.

  13. Comentou em 13/04/2006 Fernanda Souza

    /fico admirada e por não dizer indignada, que haja pessoas que ainda defendam pessoas com a srta. Suzane, acredito que a imprensa cumpriu o seu papel quando mostrou em rede nacional a persoanlidade fria e calculista que se encontra por trás daquela carinha de anjo. Se a imprensa tivesse a coragem de agir desta forma sempre, este país seria com certeza muito melhor, com menos impunidade e hipocrisia.

  14. Comentou em 12/04/2006 Gabriel Calixto

    Discordo inteiramente do Sr. Maurício, que denuncia o caráter julgador da imprensa e, no entanto, a está julgando. De julgamentos já chega os que fizeram os advogados da ré, menosprezando a nossa inteligência. O Sr. Maurício quer dizer que não haveria farsa se não houvesse uma câmera sobre ela. Ora, será que vamos voltar àquela famosa pergunta: Se uma árvore cai na floresta e não há alguém para ouvi-la, ela faz barulho? Tanto faz, que as absolvições atrás de absolvições feitas à sombra da imprensa estão abarroando a nossa sociedade de criminosos convictos e livres. Portanto, eu prefiro ir ao teatro e criticar os atores do que encontrá-los num beco me apontando um revólver

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