Segunda-feira, 22 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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FEITOS & DESFEITAS >

SporTV dá olé na Folha de S.Paulo

Por Antonio Carlos Teixeira em 01/01/2008 na edição 466

O canal fechado SporTV e o jornal Folha de S.Paulo protagonizaram dois lances opostos sobre futebol. A TV marcou gol de placa; o jornal deu de canela na bola.

No domingo (23/12), o diário paulista publicou ranking dos supostos clubes brasileiros mais vencedores da história. Para chegar ao resultado, a Folha criou seus próprios critérios, que irritaram muitas torcidas Brasil afora. Uma delas – a do Santos – mobilizou-se na internet para rebater o conteúdo da publicação. Sites, blogs, listas de discussão por e-mail e comunidades no Orkut relacionados ao clube da Baixada repercutiram ao que se passou a chamar entre os santistas de ‘afronta à história de Pelé e Cia.’.

Pelos critérios da Folha, mesmo tendo conquistado, por exemplo, duas Libertadores, dois mundiais e oito títulos nacionais, o grande Santos de Pelé é apenas o quinto clube mais vitorioso do futebol brasileiro. O torcedor santista reagiu. Afinal, a Fifa, entidade máxima do futebol no planeta, deu ao time da Baixada o título de ‘maior clube das Américas em todos os tempos’.

Desprezo absurdo

Em 1962 e 1963, o Santos foi bicampeão da Taça Libertadores e do mundo. Na década de 60, venceu seis vezes a Taça Brasil, competição similar ao atual campeonato nacional, sendo cinco consecutivas. Por essa razão, o clube paulista considera-se, de fato, o único pentacampeão brasileiro. Contrapõe-se à disputa de momento entre São Paulo e Flamengo sobre quem conquistou primeiro o penta. O site Santista Roxo vai mais longe, provocando os rivais com a campanha ‘Penta é pouco pra quem é octa’.

Um dia depois de a Folha divulgar seu polêmico ranking, o programa Arena SporTV, apresentado pelo narrador Cléber Machado, fez diferente. Ao invés de criar critério numérico (e subjetivo) para qualificar o Santos de Pelé, o canal da Globosat recordou o primeiro título mundial interclubes conquistado por time brasileiro. Foram duas horas de informações e números sobre o mundial de 1962, vencido pelo Santos em duas partidas (lá e cá) contra o Benfica, campeão português e europeu.

O Arena foi buscar o gancho do programa no livro Donos da Terra, do jornalista Odir Cunha. A obra conta a história do primeiro título mundial do Santos. Além de Odir, participaram do programa o ex-jogador Pepe, o Canhão da Vila, e os ótimos jornalistas Alberto Helena Jr. e Marco Antônio Rodrigues.

O fato é que o SporTV desferiu várias bofetadas na Folha na tarde de segunda-feira (24/12), véspera do Natal. O canal valorizou justamente o campeonato que o diário paulista, um dia antes, desprezou absurdamente ao considerá-lo inferior a conquistas similares de outros clubes brasileiros.

Pelé existiu?

Pelo ranking do jornal, os títulos mundiais de Santos, Flamengo e Grêmio têm menos valor. O Corinthians, por exemplo, que venceu o mundial em 2000 – diga-se – sem ter passado pelo vestibular chamado Taça Libertadores, recebeu 40 pontos pela conquista. Ao Santos, o jornal deu 30 pontos pelo mundial de 1962, disputado em dois jogos – o primeiro no Brasil e o segundo em Portugal. Se fosse necessária a terceira partida, ela seria jogada em Lisboa, casa do Benfica.

Sobre os campeonatos brasileiros, a Folha novamente usou critérios questionáveis e, por que não dizer, absurdos. As equipes que venceram a Taça Brasil entre 1959 e 1968, como o Bahia, receberam 15 pontos por título, dez a menos que os que conquistaram o Campeonato Brasileiro a partir de 1971. E os absurdos da Folha de S.Paulo vão se apresentando a cada leitura do quadro estatístico.

Recebi várias mensagens eletrônicas sobre o episódio. Todas de torcedores do Santos ensandecidos com o ranking da Folha. O produtor rural Juventino Cunha Alvarenga resumiu sua ira desta forma: ‘Não se assustem se, de agora em diante, o jornal passar a afirmar que Pelé nunca existiu.’

De acordo com interesses

A procuradora do município de São Paulo Neli Aparecida de Faria encaminhou carta de protesto ao ombudsman da Folha, Mário Magalhães. Em resumo, escreveu ela: ‘O ranking da Folha (que tenta justificar o injustificável numa página) foi definido com base em critérios pífios, inócuos e contraditórios…’

Outros e-mails, como o do jornalista Márcio De Meo, questionaram a diferença de pontuação entre a mesma competição. ‘A não inclusão da Recopa dos anos 60 não se justifica. Se o problema é a descontinuidade, torna-se indefensável a inclusão de torneios mais recentes, de importância discutível, como a Copa Mercosul. Isso sem contar a desvalorização da Taça Brasil ante o Brasileiro, ou do Mundial Interclubes conquistado pelo Santos, comparado ao Mundialito vencido pelo Corinthians’, observou De Meo.

O técnico em Edificações Eduardo Valdoski foi mais abrangente em sua análise. Estranhou o fato de os campeonatos paulista e carioca valerem mais que os dos demais Estados. ‘Ah, é mais importante? Pra quem? Pro jornalismo de São Paulo? E pro pessoal de Minas, qual é mais importante? Isso não é defesa somente do Santos FC, mas uma busca por isonomia, igualdade para todas as equipes…’

Já Osvaldo Luiz Prado afirmou que os rankings são elaborados para dar destaque a quem o jornalista quer. ‘Eles criam as pontuações de acordo com seus interesses, e colocam no ranking somente os campeonatos que lhes interessam.’ Allan Maciel lembrou que, na época de Pelé, os títulos mundiais eram disputados em duas partidas, ida e volta. ‘Ser campeão no Japão é uma coisa. Quero ver ganhar título mundial jogando uma lá e outra cá.’

‘Não há, nem pode haver melhor’

Ao fim, descobre-se que o ranking do jornal paulista – de caso pensado ou não – acaba por desqualificar as conquistas do grande Santos de Pelé, Dorval, Mengálvio, Pagão, Pepe, Coutinho, Mauro Ramos, Gilmar, Carlos Alberto, Dalmo, Edu, Zito, Lima e Cia. Justo a Folha, um dos veículos que mais combatem as irregularidades praticadas pela cartolagem, como má gestão, desvio de recursos dos clubes e entidades, corrupção, continuísmo, administração familiar etc.

Ao publicar tal ranking, o diário se posiciona também do lado das injustiças cometidas pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol). A entidade, comandada pelo presidente vitalício Ricardo Teixeira, resiste a reconhecer os seis títulos brasileiros vencidos pelo Santos entre 1961 e 1965, além da taça Roberto Gomes Pedrosa, em 1968. A própria Fifa já oficializou essas conquistas.

Para muitos, o Santos de Pelé foi o maior time de futebol em todos os tempos. Mas, para a Folha de S. Paulo, suas conquistas têm menos valor que as de outros clubes. No livro de Odir Cunha, lançado dia desses, há declarações impressionantes de ídolos do Benfica sobre o Santos de Pelé. Eis algumas delas:

** ‘É muito difícil encontrar tanto craque, tanto jogador inteligente como naquele time. Comparo o Santos de 62 com a Seleção do Brasil de 70. São as duas melhores equipes de futebol que vi até hoje. A Seleção de 70 é a confirmação de um modelo de jogo que o Santos já demonstrava há muito tempo’ (Antônio Simões, ponta-esquerda do Benfica e da Seleção Portuguesa).

** ‘Sim, neste momento o Santos é imbatível. Não me parece viável que algum time possa vencê-lo’ (Vittorio Pozzo, técnico bicampeão mundial pela Itália em 1934 e 1938).

** ‘Em cada posição, o Santos tinha jogadores extraordinários, mas foi o Pelé que fez mais. O Pelé é um jogador como ainda não conheci. Ele estava impossível de ser marcado’ (Humberto, zagueiro-central do Benfica).

** ‘Mas não era só o Pelé. Tinha o Pepe, o Zito, o Coutinho, o Dorval… era uma equipe extraordinária’. (Fernando Cruz, lateral-esquerdo do Benfica e da Seleção Portuguesa).

** ‘O Santos é uma equipe quase perfeita. Joga sereno, seus homens sabem se desmarcar e fazer passes, todos eles possuem um controle de bola excepcional’ (Matt Busby, técnico do Manchester United).

** ‘Foi a melhor partida que vi em toda minha vida’ (Pierre Schwinte, árbitro do jogo).

** ‘O Brasil tem também o melhor time do mundo’ (France Football, França).

** ‘O que se pode dizer do Santos? Ontem, qualquer equipe teria sucumbido sob sua potência’ (Diário de Notícias, Portugal).

** ‘Não há, nem pode haver melhor’ (Gazeta Esportiva, Brasil).

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Jornalista, Brasília, DF

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