Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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FEITOS & DESFEITAS >

Sucesso e pacto com diabo

Por Robson Terra em 28/07/2009 na edição 548

O folclore que envolve o pacto com o diabo rende boatos, histórias e enredos em filmes, romances, novelas, peças de teatro, teorias conspiratórias, enfim, pano para manga e para o vestuário inteiro. A fábula sobre personagens de sucesso traz sempre o pano de fundo de que ele fez o famoso acordo de vida e negação da morte. A busca sobre o assunto no Google traz a citação: ‘Não é de hoje que artistas, cantores e cantoras realizam pactos com Satanás a fim de obter sucesso, fama e dinheiro. Muitas vezes pessoas são informadas desses acontecimentos e afirmam estarmos exagerando ou delirando em nossas afirmações. Que pai ou mãe compraria um CD de algum artista para presentear seus filhos sabendo que tal pessoa fez um pacto com o diabo? Essas informações são meticulosamente escondidas do público.’

O folclore da mídia envolvendo os chamados olimpianos vem como espectro periférico da aura que envolve os incensados. Dizem que as estrelas conseguem a notoriedade porque fizeram pacto com o diabo, que um dia certamente vem buscar tudo o que lhe pertence. Com juros e correção de tempos de inflação. A expressão surgiu na Idade Média como o mito central de uma sociedade empenhada no processo de domesticação da sexualidade. Do pacto com Satanás recebem-se todas as benesses que simples mortais não podem ter acesso. Segundo a Wikipédia, vender a alma ao diabo é considerado símbolo cultural da modernidade. Fausto, livro de Goethe que demorou sessenta anos para ser escrito, é um poema de proporções épicas que relata a tragédia do Dr. Fausto, homem das ciências que, desiludido com o conhecimento do tempo, faz um pacto com o demônio Mefistófeles que o enche com a energia satânica insufladora da paixão pela técnica e pelo progresso. Ler o livro remete à reflexão cruel.

Crise e carências infinitas

Na idade mídia, somos cúmplices da ‘venda da alma’ aos processos do mercado de consumo que a indústria cultural estimula. A busca do poder, dinheiro e riqueza, a troca da alma com o diabo, que nunca existiu, povoa o imaginário que envolve os astros famosos da telinha, do esporte e da música e que, curiosamente, morrem de forma surpreendente… Será que o leitor faria o pacto com o diabo para ter tudo o que sonha na vida, o que vê na TV, e no ajuste de contas entregaria sua alma a Mefisto? Na sociedade contemporânea, envolvida na espetacularização de si mesma, ‘o povo contempla-se no espelho’, conforme Jean Baudrillard, e na televisão ‘tentamos conformar a vida do lar com a imagem das famílias felizes que a televisão nos apresenta; ora, tais famílias limitam-se a ser a síntese divertida de todas as nossas’.

Baudrillard fala das compensações do homem alienado não ser apenas diminuído, empobrecido, mas intacto na sua essência, revoltado contra si próprio e transformado em inimigo de si mesmo. Por isso o sucesso do artista incomoda tanto os comuns. Os mortais, segundo o autor francês, se limitavam a ser simples no modo de sobrevivência (comer, beber, alojar-se, vestir-se) e as classes privilegiadas buscam adornos, castelos e jóias. Seremos eternos insatisfeitos e invejosos. Haja ‘diabos’ para tantos pactos em tempos de crise e carências infinitas.

A mensagem no final da história remete ao tradicional: os bons alcançam o céu, os maus são punidos e os amantes vivem felizes para sempre. Fora com o diabo! É clássico!

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Jornalista, pesquisador e mestre em Comunicação e Tecnologia

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