Quarta-feira, 16 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

FEITOS & DESFEITAS > COBERTURA DO URUGUAI

Tão perto e tão longe

Por Renato Gianuca em 08/03/2005 na edição 319

Com a posse do médico Tabaré Vásquez na presidência do Uruguai, na terça-feira (1/3), abre-se um novo ciclo na política do país vizinho. Enquanto os uruguaios festejam nas ruas a ascensão de seus novos governantes, impressiona o escasso destaque e espaço mínimo dedicados pela mídia brasileira aos eventos que se sucedem logo ali, a poucos quilômetros de Porto Alegre.

Uma rápida visita às edições de quarta (2/3) do principais jornais da capital gaúcha mostra fotos dominantes nas capas de Zero Hora e do Jornal do Comércio, além de fotos menores no Correio do Povo e O Sul.

A cobertura mais extensa é do Zero Hora, que enviou um repórter a Montevidéu para contar que o ‘Uruguai terá um Fome Zero’, além de destacar ‘a presença discreta de Lula’. As matérias estão nas páginas 23 e 24, nesta última ocupando menos de um terço do espaço com uma historinha escrita pelo editor de Fotografia do jornal sobre a presença das bandeiras brasileiras na capital uruguaia, em dois momentos distintos da história.

A cobertura do ZH é complementada por um editorial, não o principal, sobre ‘o pragmatismo da esquerda’. Neste editorial, o jornal esclarece que a chegada ao poder de Vásquez e sua Frente Ampla é ‘de especial interesse para o Rio Grande do Sul, com quem o Uruguai partilha uma fronteira e uma história’. Este fato evidente, porém, não se reflete no noticiário diário da mídia gaúcha, sejam jornais, revistas, rádios ou TVs. Seria como se o Uruguai estivesse em um outro longínquo continente, quando está tão perto, com cidades, como Livramento e Rivera, onde uma larga avenida liga os dois povos.

Alertas de Orwell

Os outros jornais porto-alegrenses dedicaram espaços bem menores à histórica mudança uruguaia: o Correio do Povo diz na capa que ‘esquerda governa Uruguai e apóia Brasil’, num textinho de 15 linhas; na página 9, a história da posse em 55 linhas e outra notinha, de 13 linhas, sobre o reatamento das relações entre Montevidéu e Havana.

O Jornal do Comércio, na capa, diz que ‘Tabaré promete fortalecer o Mercosul’ e chama para a página 15, onde há uma matéria de 70 linhas com foto pequena. E O Sul dá foto pequena de Tabaré no alto da capa e, no miolo, conta a história em 70 linhas, mais uma retranca menor sobre a reunião de Lula, Kirchner e Chávez em Montevidéu.

Deve-se destacar que, à exceção do Zero Hora, nenhum dos outros jornais de Porto Alegre enviou jornalistas à capital uruguaia, e escreveram suas matérias como base em telegramas das agências internacionais.

Se o Uruguai, de fato, é de ‘especial interesse para os gaúchos’, então a mídia porto-alegrense estava adormecida, presenciando os eventos à distância, perdendo de longe para a cobertura da Folha de S.Paulo, por exemplo. O jornalão paulistano enviou dois repórteres a Montevidéu, deu foto dominante na sua capa e ocupou praticamente toda a página A 10 com matérias, infográficos e um comentário de Rupert Cornwell, do jornal inglês The Independent.

Mas a cobertura mais extensa de todo o episódio ficou com o sítio de internet Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br), que, ao longo dos últimos dias, dedicou espaços ao Uruguai, enviou repórteres a Montevidéu e publicou comentários e análises de seus principais articulistas, além de artigos de comentaristas do jornal uruguaio Brecha.

Constata-se uma vez mais uma espécie de cegueira, ou descaso, pelos fatos que acontecem aqui ao lado – e isso não só no caso do Uruguai. Quantas e quantas vezes a mídia gasta páginas e páginas com julgamentos de cantores pedófilos, ou de tal acusados, ou casamentos de mentirinha em castelos de contos de fadas na Europa, e outros supostos ‘eventos’ que nada acrescentam. Ao mesmo tempo, diariamente crianças indígenas morrem de fome nas reservas e aldeias no Brasil.

Há, parece, um descolamento entre a realidade dos fatos, por dura e áspera que seja, e uma decisão dos barões da mídia de impingir histórias espetaculares aos leitores, ouvintes e telespectadores. Buscam, quem sabe, mergulhar o público numa geléia geral, anestesiando a opinião pública, desvirtuando esse serviço público que são os noticiários, para satisfazer, quiçá, sua ânsia de lucros. Ou coisas piores. George Orwell já alertava em seu clássico 1984 sobre aquela distopia tão presente nos dias de hoje, com ficções que já são reais; como o ‘duplipensar’ e o Big Brother a vigiar os corações e mentes dos cidadãos do globo.

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