Quinta-feira, 27 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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ENTRE ASPAS >

Tarso Genro corrige declaração em entrevista

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 20/02/2009 na edição 525

Leia abaixo a seleção de sexta-feira para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009


 


MAL-ENTENDIDO
Folha de S. Paulo


Tarso solicita a jornal que corrija fala sobre Dilma


‘O ministro da Justiça, Tarso Genro, divulgou comunicado para corrigir parte de entrevista que concedeu ao jornal ‘El País’. Segundo o periódico espanhol, o ministro afirmou que ‘o grande obstáculo’ da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, para concorrer à Presidência em 2010 era o apoio do presidente Lula.


De acordo com o Ministério da Justiça, em nota emitida na tarde de ontem, Tarso usou a palavra ‘handicap’ para descrever a influência do presidente na campanha de Dilma com a conotação de ‘vantagem’. A expressão, porém, teria sido traduzida como ‘obstáculo’.


‘É uma boa candidata, tem boa capacidade de gestão, mas, sobretudo, tem o maior obstáculo que algum candidato à Presidência pode ter: o apoio de Lula’, diz a resposta veiculada no jornal. O ministro pediu ao diretor da publicação que corrigisse a informação. Mas até o fechamento desta edição o texto continuava o mesmo.


Pela continuação da entrevista, é possível perceber que Tarso vê o apoio de Lula como um algo positivo. Ele disse que os candidatos da oposição sabem disso e não falam sobre o presidente, e sim como será o próximo governo.’


 


 


DITADÔMETRO
Painel do Leitor


Ditadura


‘‘Lamentável o uso da palavra ‘ditabranda’ no editorial ‘Limites a Chávez’ (Opinião, 17/2) e vergonhosa a Nota da Redação à manifestação do leitor Sérgio Pinheiro Lopes (‘Painel do Leitor’, ontem). Quer dizer que a violência política e institucional da ditadura brasileira foi em nível ‘comparativamente baixo’? Que palhaçada é essa? Quanto de violência é admissível? No grande ‘Julgamento em Nuremberg’ (1961), o personagem de Spencer Tracy diz ao juiz nazista que alegava que não sabia que o horror havia atingido o nível que atingira: ‘Isso aconteceu quando você condenou à morte o primeiro homem que você sabia que era inocente’. A Folha deveria ter vergonha em relativizar a violência. Será que não é por isso que ela se manifesta de forma cada vez maior nos estádios, nas universidades e nas ruas?’


MAURICIO CIDADE BROGGIATO (Rio Grande, RS)


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‘Inacreditável. A Redação da Folha inventou um ditadômetro, que mede o grau de violência de um período de exceção. Funciona assim: se o redator foi ou teve vítimas envolvidas, será ditadura; se o contrário, será ditabranda. Nos dois casos, todos nós seremos burros.’


LUIZ SERENINI PRADO (Goiânia, GO)


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‘Com certeza o leitor Sérgio Pinheiro Lopes não entendeu o neologismo ‘ditabranda’, pois se referia ao regime militar que não colocou ninguém no ‘paredón’ nem sacrificou com pena de morte intelectuais, artistas e políticos, como fazem as verdadeiras ditaduras. Quando muito, foram exilados e prosperaram no estrangeiro, socorridos por companheiros de esquerda ou por seus próprios méritos. Tivemos uma ditadura à brasileira, com troca de presidentes, que não vergaram uniforme e colocaram terno e gravata, alçando o país a ser a oitava economia do mundo, onde a violência não existia na rua, ameaçando a todos, indistintamente, como hoje. Só sofreu quem cometeu crimes contra o regime e contra a pessoa humana, por provocação, roubo, sequestro e justiçamentos. O senhor Pinheiro deveria agradecer aos militares e civis que salvaram a nação da outra ditadura, que não seria a ‘ditabranda’.’


PAULO MARCOS G. LUSTOZA , capitão-de-mar-e-guerra reformado (Rio de Janeiro, RJ)


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‘Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de ‘ditabranda’? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar ‘importâncias’ e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi ‘doce’ se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala -que horror!’


MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES , professora da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP)


***


‘O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana.’


FÁBIO KONDER COMPARATO , professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP)


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Nota da Redação – A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua ‘indignação’ é obviamente cínica e mentirosa.’


 


 


CASO PAULA OLIVEIRA
Fernando Gabeira


Cortar a própria carne


‘O caso da brasileira que teria sido atacada por skinheads na Suíça trouxe inúmeras lições.


Assim que soube da notícia, resolvi que daria o mesmo tratamento que dei ao processo da morte de Jean Charles, assassinado em Londres. Visitaria a embaixada, acompanharia as notícias sobre o tema, para que o Congresso tivesse uma posição, se achasse conveniente.


Marquei audiência na embaixada para terça, 17. Era quinta-feira. Alguns acharam o prazo muito longo e, no mesmo dia, levaram nota à embaixada. Recusei. Não por desconfiar da versão de Paula naquela hora. Mas pelo fato de que, em política externa, um tempo de decantação sempre ajuda.


Tive sorte. Nos tempos em que cadeias globais de televisão, CNN, BBC, estão em cena, a diplomacia não apenas se tornou mais transparente. Foi forçada a mudar de ritmo. No entanto, a diplomacia e o jornalismo jamais terão a mesma rapidez. A sintonia precisa acaba nos expondo a gafes.


Outro problema da pressa é anexar os fatos à nossa visão de mundo, como se estivéssemos sempre procurando algo para comprovar uma teoria. A crise econômica vai fortalecer o nacionalismo, em alguns casos, estimular a xenofobia. É a tese. A versão inicial de Paula era uma armadilha, o famoso cqd, como queríamos demonstrar.


É preciso deixar que os fatos aconteçam, respirem, tenham seu desdobramento. No caso de Paula Oliveira, havia muitas máquinas de interpretar, sondando o universo em busca de exemplos. Ela não estava grávida de gêmeos e os cortes poderiam vir de automutilação.


Nesses 200 anos de Darwin, sua visão é um socorro para todos nós: por mais que nos apeguemos a uma hipótese, é preciso abandoná-la sem pena quando as evidências a contestam.’


 


 


JORNALISMO
José Sarney


Cruel um tanto quanto


‘ESCREVENDO sobre Carlos Castelo Branco, o maior jornalista político dos últimos 50 anos e um dos maiores de todos os tempos no Brasil, discuti se o jornalismo era um gênero literário.


Mesmo estando fora da classificação da teoria literária, através dele se pode fazer literatura. E é o que muitas vezes se faz, em textos que aqui mesmo na Folha se leem todo dia, de Clóvis Rossi a José Simão, passando por todos os outros nos dias bons.


Agora o tema volta a preocupar os que fazem jornal na Europa, e o que se discute é como ele passou de um ofício individual para uma tarefa de atelier, coletiva.


Eugenio Scalfari e Jesús de Polanco, que, quase ao mesmo tempo, fundaram ‘La Repubblica’, na Itália, e ‘El País’, na Espanha, transformaram a concepção de jornal, que passou a privilegiar a qualidade do texto, sua relação com a cultura, de tal modo que fosse ao mesmo tempo uma fonte de informação e um gosto intelectual.


Antes deles, ‘Le Monde’ estava neste rol. E até hoje são os três melhores jornais da Europa e estão entre os dez primeiros do mundo, inigualáveis no primor da sua linguagem. Cada matéria é cinzelada como uma obra de arte.


Em recente aula em Roma, Scalfari, já além dos 80 anos, afirmou, para escândalo dos jovens redatores, que o jornalismo ‘é um ofício cruel’. Há 20 anos, ele definiu: ‘Periodista es gente que le dice a la gente lo que le pasa a la gente’. Por que essa mudança brusca? Velho, ele acusa o tempo. Argumenta que hoje a verdade não é fácil de ser encontrada entre tantas verdades, num mundo no qual temos que escolher a nossa verdade.


Os jornais passaram a ter de navegar numa linha perigosa e invisível, totalmente subjetiva, entre a nudez da vida privada e os deveres da imprensa com a vida pública, aquilo que na Itália, e agora no Brasil, entrou na moda, a sagrada lealdade republicana: democracia e solidariedade entre as classes, liberdade como valor fundamental unida à ideia de igualdade.


Quando o jornalista tem de ‘dissecar as pessoas, os personagens da atualidade, despindo-os além de sua aparência’, a isso ele chama de cruel. O problema da privacidade desapareceu, e ela passou a ser regulada pelo sentido de responsabilidade de cada jornal e jornalista. Aí, a controvérsia aborda a imprensa marrom, os jornais de escândalo, a necessidade de atender ao gosto dos leitores, o que nós dizemos ‘vontade de ver sangue’.


Scalfari afirma orgulhoso que ‘La Repubblica’ e ‘El País’ nunca entraram nessa invasão, exceto quando ‘a vida privada se entrelaça com a vida pública’. E amedronta-se com a profecia terrível: ‘O jornal impresso vai acabar em 2018’. É triste ouvir isso. Eu e Elio Gaspari temos como dogma que o jornal e o livro nunca acabarão. A internet que se cuide.’


 


 


CASO BATTISTI
Folha de S. Paulo


Italiano critica imprensa de seu país


‘Em carta, Cesare Battisti, condenado por homicídios nos anos 70 na Itália, diz que sua ‘situação é terrível’ e que há um ‘bombardeio midiático’ na cobertura de seu caso. A Itália, diz ele, não reconhece os próprios ‘erros’ e ‘pecados’. O governo brasileiro concedeu status de refugiado a ele. A carta foi entregue ao senador Eduardo Suplicy (PT-SP) por uma amiga de Battisti.’


 


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Cacofonia global


‘Começou ontem, com artigo de Gordon Brown e Silvio Berlusconi no ‘Il Sole 24 Ore’ e cobertura no ‘Financial Times’, a preparação para o G20 _que vai reunir ricos e emergentes dia 2 de abril, em Londres, para os ‘novos arranjos financeiros globais’. A ‘Economist’ já ironiza a boa vontade européia, listando quantos deles fazem parte do tal G20: Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Espanha e Holanda, mais um tcheco presidente da União Europeia, um português presidente da Comissão Europeia, outro francês diretor do FMI e outro italiano presidente do Fórum de Estabilidade Financeira. E a ‘cacofonia’ avança para os temas, como protecionismo. Mas algum progresso já surge em Londres, registra a Reuters. China, Índia e Brasil devem ser integrados ao ‘círculo’ do fórum de regulação financeira Iosco, hoje comandado por EUA, Japão e europeus.


De todo modo, avisa a AP, vem aí mais cacofonia, pois se abriu ‘Novo capítulo na tentativa de reformar o Conselho de Segurança’, ontem, com ‘uma reunião a portas fechadas dos 192 membros da ONU’.


DESGLOBALIZAÇÃO


A nova ‘Economist’, na mesma linha, dá sinal de alerta para a ‘desglobalização’, no texto ‘Voltando suas costas para o mundo’. Avalia que ‘a integração da economia mundial está batendo em retirada em todas as frentes’, na movimentação de bens, empregos e capital. Ainda não é propriamente a ‘desglobalização’, como cunhada pelo economista Walden Bello. ‘As nações não desistiram da globalização, protegida pela fé das empresas nas cadeias globais de suprimento’, mas pode estar se aproximando ‘um ponto perigoso em que esta maneira de organizar a produção seja vista como coisa do passado’.


DESEMPREGO…


Ontem as manchetes abriram o dia com ‘Emprego formal tem primeira queda desde 99’, no UOL, e chegaram depois a ‘Embraer anuncia demissão de mais de 4.000’, na Folha Online. Esta foi parar também no alto da home do ‘Wall Street Journal’, com o corte de 20% devido à ‘demanda em queda por aeronaves’.


E LUCRO RECORDE


Fim do dia e nos mesmos sites e portais daqui a manchete passou a ‘Lucro da Vale sobe 136% no quarto trimestre e vai a R$ 10,4 bilhões’, R$ 21,3 bilhões no ano.


DO V PARA O L


E Nouriel Roubini voltou a atacar ontem em seu blog, partindo dos dados de PIB do quarto trimestre de EUA e outros para anunciar que a ‘esperança ilusória’ de uma recessão em V ficou para trás, trocada pela já existente recessão em U. E o risco agora é de uma ‘estagdeflação em L, como no Japão’.


COLAPSO INDUSTRIAL


A manchete da ‘Economist’, na mesma direção, anuncia ‘O colapso da indústria’. E afirma que ‘a crise financeira criou uma crise industrial’ em todo o mundo. Brasil inclusive.


CHINA NO PRÉ-SAL


No topo das buscas de Brasil pelo Yahoo News, com despachos de AP, Reuters, Bloomberg e Xinhua, nada de crise e sim o acordo da Petrobras com a China. A estatal promete 100 milhões de barris diários de petróleo cru em troca de um empréstimo de US$ 10 bilhões, para explorar os promissores campos da camada pré-sal. O presidente da estatal diz que o acordo ‘demonstra as novas possibilidades de levantar recursos’, hoje.


A BARRIGA


BBC e AP deram a admissão de ‘falso ataque’ da brasileira sublinhando como as ‘reportagens chocaram o Brasil’ e ‘revoltaram os brasileiros’ com fotos do ‘corpo cortado’.


VANTAGEM


Até o blog de Reinaldo Azevedo defendeu Tarso Genro contra a trapalhada do ‘El País’ com uma entrevista do ministro. Ele usou ‘handicap’ e o jornal entendeu como ‘obstáculo’ e não ‘vantagem’ o apoio de Lula à candidatura de Dilma Rousseff. E foi o próprio título usado pelo ‘El País’, que mantinha a chamada na home ontem às 22h30, sem retificação.


FAMÍLIAS


A ‘Economist’ traz carta de José Sarney, em que o senador questiona o texto que o descreveu como ‘dinossauro’ e símbolo do ‘semifeudalismo’. Ele sublinha que um ‘grupo rival’ dirige o Maranhão há sete anos. E lembra que famílias políticas se mantém no poder por gerações também nos EUA (Kennedy, Bush) e no próprio Reino Unido (Pitt).’


 


 


CARTUM
Andrea Murta


Ativistas protestam contra charge ao verem paralelo entre Obama e chimpanzé


‘Centenas de pessoas protestaram ontem em Nova York contra a publicação de uma charge pelo tabloide ‘New York Post’, acusando o jornal de traçar um paralelo entre o presidente Barack Obama e um chimpanzé. O tabloide foi alvo de críticas na imprensa e recebeu milhares de telefonemas de reclamações de leitores.


Os manifestantes, liderados pelo ativista de direitos civis Al Sharpton, se reuniram em frente à sede do jornal em Manhattan para pedir o boicote ao tabloide, um dos mais lidos da cidade. Também pediram a prisão do magnata Rupert Murdoch, dono do ‘Post’.


Na charge, publicada na quarta, dois policiais matam um chimpanzé enquanto um deles diz: ‘Agora eles terão que achar outra pessoa para escrever a próxima lei de estímulo econômico’.


O jornal afirma que a inspiração não foi racista, e sim uma crítica à abordagem de Washington para a lei. O desenho, segundo o diretor do ‘Post’, foi inspirado pelo caso de um chimpanzé de estimação que, em um surto, atacou uma mulher em Connecticut na segunda e foi morto a tiros por policiais.


A explicação não convenceu. Na véspera da publicação, Obama, primeiro presidente negro dos EUA, havia assinado lei, redigida pelos democratas do Congresso, que destina US$ 787 bilhões para estimular a economia.


‘A charge pinga racismo’, disse à CNN o analista político David Gergen, da Universidade Harvard. ‘Todos conhecem o histórico e as referências de uma comparação com macacos, e não é possível que o ‘Post’ não tenha previsto essa interpretação.’


O caso ganhou importância também por coincidir com um discurso do novo secretário da Justiça dos EUA, Eric Holder, o primeiro negro no posto, que disse na quarta que os EUA são ‘um país de covardes’ no que se refere a questões raciais.


Jornalistas do ‘Post’ tentaram se distanciar do episódio ontem. A editora-associada Sandra Guzman enviou e-mail a repórteres afirmando que ‘não teve nada a ver com a charge’ e que ‘manifestou objeções à chefia’.


O governador de Nova York, David Paterson, também pediu explicações do ‘Post’ em entrevista.


Al Sharpton disse ainda que pretende se encontrar com anunciantes para estimulá-los a retirar suas peças do tabloide. ‘Pensaram que éramos macacos, mas vamos provar que somos leões.’’


 


 


ANNA POLITKOVSKAYA
Folha de S. Paulo


Rússia absolve acusados de matar repórter


‘Três acusados de envolvimento direto na morte da jornalista Anna Politkovskaya, assassinada com cinco tiros ao chegar ao prédio em que morava, em Moscou, em outubro de 2006, foram inocentados unanimemente ontem por um júri popular na capital russa.


Politkovskaya, que tinha 48 anos quando foi morta, ganhou reconhecimento ao escrever sobre abusos cometidos pelas tropas russas na região separatista da Tchetchênia. Por sua cobertura crítica ao Kremlin, a jornalista sofria constante pressão do governo.


Dois irmãos tchetchenos, Dzhabrail e Igrabim Makhmudov, e um ex-policial russo, Sergei Khadzhikurbanov, estavam sendo julgados por participarem da ação que resultou na morte da jornalista. Um terceiro irmão Makhmudov, Rustam, é acusado pela Promotoria de ter sido o autor dos disparos, mas ele se encontra foragido e não estava em julgamento.


Um quarto acusado, o ex-agente do serviço secreto russo Pavel Riaguzov, também era réu no caso, porém sem ser acusado de participação direta no assassinato.


Os jurados decidiram que a Promotoria não havia sido capaz de provar a participação dos acusados no assassinato.


A atuação da Promotoria foi caracterizada pelos advogados da família da jornalista, por colegas e pela imprensa internacional como confusa e pouco rigorosa. Os representantes da acusação são criticados por não terem se esforçado para chegar até os mandantes do crime.


O editor de Politkovskaya no jornal ‘Novaya Gazeta’, Sergei Sokolov, afirma que a interferência de autoridades do governo russo pode ter contribuído para a fragilidade da acusação.


O Kremlin sempre negou qualquer envolvimento na morte da jornalista, uma das mais veementes críticas do governo de Vladimir Putin, hoje primeiro-ministro, que era presidente da Rússia à época do assassinato.


Putin disse então que ‘inimigos’ do governo poderiam ter cometido o crime para sujar a imagem do Kremlin. ‘O assassinato causa mais danos ao governo do que qualquer dos textos’ de Politkovskaya, disse ele pouco depois do crime.


Diante do veredicto, do qual a Promotoria prometeu recorrer, a advogada da família da jornalista disse que a decisão poderia ajudar no esclarecimento do caso. ‘Qualquer declaração de culpa poderia permitir aos investigadores dizerem que o seu trabalho estava concluído. Agora há a necessidade de se fazer uma investigação efetiva’, afirmou Karina Moskalenko.


Já o filho de Politkovskaya, Ilya, disse considerar que ‘os acusados participaram, de uma forma ou de outra, do assassinato’ de sua mãe. ‘O grau de culpa deveria ter sido demonstrado no tribunal, mas a acusação não foi capaz de fazê-lo.’


A Rússia é considerada pela organização norte-americana Comitê para a Proteção de Jornalistas o terceiro lugar mais perigoso do mundo para repórteres, atrás apenas do Iraque e da Argélia. Há um mês, outra jornalista do ‘Novaya Gazeta’, Anastasia Baburova, 25, foi assassinada em Moscou. Ela e o advogado Stanislav Markelov, 34, como Politkovskaya crítico da atuação russa na Tchetchênia, foram mortos após participarem de entrevista coletiva.


Com agências internacionais’


 


 


CASO DO SAPATO
Folha de S. Paulo


Dúvida para julgamento de iraquiano que agrediu Bush


‘O jornalista Muntader al Zaidi, aclamado como herói no Iraque após atirar sapatos contra George W. Bush, começou a ser julgado ontem, em Bagdá, e pode ser condenado a até 15 anos de prisão por ‘atacar um chefe de Estado em visita oficial’.


Mas uma dúvida interrompeu o trabalho do tribunal até 12 de março: Bush estava de fato em visita oficial?


O ex-presidente fez uma viagem-surpresa ao Iraque em 14 de dezembro, quando foi alvo dos sapatos de Zaidi -ofensa grave para os árabes dada a conotação de impureza do objeto. Os juízes querem determinar se Bush havia recebido um convite formal. Se confirmado que não, o destino de Zaidi é incerto.


‘Só quis expressar o ódio dentro de mim e de todos os iraquianos’, disse o jornalista sobre seu ato.


Com agências internacionais’


 


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Em livro, Bonner revela ‘modo de fazer’ ‘JN’


‘O jornalista William Bonner está escrevendo um livro sobre o processo de produção do ‘Jornal Nacional’, que ele edita e apresenta. O livro, o primeiro de Bonner, será lançado em setembro, quando o mais influente telejornal brasileiro completa 40 anos. Deverá se chamar ‘JN – Modo de Fazer’.


A obra apresentará a linha editorial do ‘JN’ (‘Mostrar, todos os dias, aquilo que de mais importante aconteceu no Brasil e no mundo, com clareza, isenção e pluralidade’, segundo Bonner), a rotina de apuração, a relação com as afiliadas e correspondentes, as reuniões e a preocupação com a linguagem.


Mas, de acordo com a Globo, não será apenas um manual de telejornalismo. Organizado em capítulos e ilustrado com fotografias, terá também bastidores de edições atípicas e de grandes coberturas, além dos desafios da bancada de apresentadores, assuntos que podem interessar ao telespectador comum.


Bonner contará no livro que a edição mais atípica da qual participou foi a do acidente de avião da TAM em Congonhas, em julho de 2007. ‘Apresentamos o jornal e conversamos ao vivo com vários repórteres, enquanto os fatos transcorriam e eram apurados’, lembra.


Revelará também o maior ‘sufoco’ que passou ao vivo: Foi ‘a leitura da carta aos brasileiros redigida pelos filhos do jornalista Roberto Marinho, no dia seguinte à sua morte [em agosto de 2002]’.


PINTINHO CENSURADO


O DJ que animou a festa na casa de ‘Big Brother Brasil’, anteontem à noite, interrompeu a execução da música ‘Pintinho Amarelinho’ logo em seu início. Alguém lembrou a ele de que o ‘clássico’ infantil é de Gugu Liberato, do SBT. O material foi ao ar no pay-per-view.


ASTÚCIA


Só deu SBT na festa infantil de ‘BBB’. Um participante alertou aos demais que, se não se comportassem, ele chamaria a Supernanny. E não faltaram referências a ‘Chaves’.


TOP FIVE


‘BBB’ foi a maior audiência da Globo na quarta. Deu 35,3 pontos, mais do que ‘Caminho das Índias’ (33,5), mas, curto (oito minutos), foi beneficiado pela novela das oito, que entregou em alta no Ibope.


PRISÃO


A Globo gostou da audiência obtida por ‘Prison Break’, que exibe no lugar do ‘Programa do Jô’. Tanto que decidiu apresentar a segunda temporada imediatamente após o término da primeira, em 5 de março. A série rendeu até agora 9 pontos no Ibope, um a menos do que ‘Lost’, mas sua participação no total de televisores ligados em canais de TV é maior (50%).


SAMBA NO PÉ


Ana Maria Braga gravará parte do ‘Mais Você’ de segunda na madrugada do mesmo dia, no camarote que comprou no sambódromo do Rio.


SHOW DE FÉ


R.R. Soares, o pastor que aluga parte do horário nobre da Band, ganhou do Ministério das Comunicações mais um canal, agora em Ourinhos (SP).’


 


 


Fernanda Ezabella


‘Sou Bi’ investiga sexualidade dos jovens


‘Josh tem oito anos e vive no Texas. Ele cogita virar gay, casar com várias mulheres ou ser travesti, quando crescer. Em Memphis, uma adolescente discute com o namorado porque ela também gosta de meninas. E, em Hollywood, um casal passa os finais de semana à procura de uma parceira sexual.


Os personagens da vida real estão num documentário sobre bissexualidade que o Multishow exibe hoje à noite. As duas diretoras do filme viajaram pelos EUA em 2005 e colheram os mais diversos depoimentos de jovens, seus pais e colegas, além de pesquisadores do sexo e psicólogos de universidades.


Em Berkeley, por exemplo, um pesquisador prega camisinhas nas árvores de um parque local e investiga homens, muitos dos quais casados, que procuram ali sexo casual com outros desconhecidos. Estudos são citados, polêmicos ou não, deixando no ar a pergunta: mas o que é, afinal, ser bissexual? ‘Entre os jovens, a questão não é mais se é gay, lésbica etc. É mais para ‘você vai querer lasanha ou comida tailandesa neste final de semana’, diz um crítico cultural da Califórnia.


Para um vendedor de Roswell, Novo México, a pergunta é mais capciosa. ‘Não sei porque os jovens são bissexuais, não sei se tem algo a ver com alienígenas’, diz.


SOU BI


Quando: hoje, às 23h15


Onde: Multishow


Classificação: não indicado para menores de 18 anos’


 


 


 


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O Estado de S. Paulo


Sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009


 


SARNEY
João Domingos


À ‘Economist’, ele diz que não é hora de se aposentar


‘Em carta publicada na edição eletrônica de ontem da revista The Economist, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), diz que não está na hora de se aposentar e, no contexto da longevidade em cargos públicos, criticado pela revista britânica, compara-se a políticos mundiais importantes, como Winston Churchill, David Lloyd George e Benjamin Disraeli.


Na carta – uma reposta a artigo publicado há 15 dias pela revista, com o título Onde os dinossauros ainda vagam -, Sarney afirma que ‘tampouco há algo de original na participação de membros de uma mesma família na política de um país.’ E diz que os exemplos britânicos incluem os Pitts e os Churchills e, nos Estados Unidos, as famílias Adams, Kennedy e Bush.


Sarney se queixa de que o artigo deixou de mencionar que nos últimos sete anos um grupo rival controla o governo do Maranhão. ‘Eu não concorro a uma eleição no Maranhão há 30 anos. Assim, não creio que se possa dizer que eu controlo o Estado como um feudo.’


Por fim, Sarney responde à afirmação da revista de que foi um presidente ‘acidental e sem distinção’. ‘Não é este o julgamento do povo brasileiro, que nas pesquisas sobre ex-presidentes me colocou em terceiro lugar’, argumenta. ‘A história julgará o meu papel, mas sou reconhecido como o presidente da transição democrática, da convocação da Assembleia Constituinte e que priorizou o desenvolvimento social, o que permitiu o surgimento de uma sociedade verdadeiramente democrática e levou um operário a ser eleito presidente da República.’’


 


 


CINEMA
Luiz Carlos Merten


Razão e sensibilidade


‘Acasos de distribuição fazem com que estreiem juntos filmes produzidos com dois anos de diferença, mas que de alguma forma tratam de temas parecidos ou complementares. Milk – A Voz da Igualdade, de Gus Van Sant, indicado para oito Oscars, incluindo melhor filme, diretor e ator (Sean Penn), reconstitui vida e morte do político de São Francisco que personificou, nos anos 70, a luta dos gays norte-americanos por direitos civis. As Testemunhas, de André Téchiné, dá outro testemunho, imediatamente posterior, para lembrar seus mortos pela aids, nos primórdios da síndrome de imunodeficiência adquirida, no começo dos 80. Van Sant e Techiné são gays assumidos, mas o que eles fazem não é simplesmente advogar em causa própria.


No recente Festival de Berlim, em que Milk foi exibido na seção Panorama – com o documentário vencedor do Oscar The Times of Harvey Milk -, Van Sant confessou que nunca havia pensado em fazer uma ?biopic? (cinebiografia) do polêmico personagem, mas que foi apanhado pelo roteiro de Dustin Lance Black. Seu projeto era outro, sobre o bairro de Castro, em São Francisco, que foi a plataforma política de Harvey Milk. Pesquisando sobre Castro, ele topou com Dustin Lance, um moço bonito (‘handsome’, segundo o diretor). Um dia, um amigo ligou para ele em Portland – Van Sant continua morando em Idaho -, perguntando se poderia visitá-lo com Lance, que tinha um script para mostrar-lhe. Foi assim que Milk entrou em definitivo na vida do diretor.


Em filmes como Elefante, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, e Last Days, Gus Van Sant já se havia inspirado em personagens e situações reais. Ambos os filmes possuíam linguagens um tanto experimentais. Milk devolve Van Sant à vertente narrativa mais tradicional de Gênio Indomável – que Matt Damon e Ben Affleck escreveram, e os dois compartilharam o Oscar de roteiro original. A preocupação de realismo se manifesta na forma como o diretor integra imagens da época ao relato, o que dá a Milk um lado (quase) documentário. Não é um grande filme, que isso fique claro, mas é importante. Van Sant foi direto em Berlim – Harvey Milk não foi o Martin Luther King da causa gay. Ele não dinamitou a capa da sociedade puritana e homófoba em que vivia. Talvez o tivesse feito, se não fosse assassinado. Seu brado – ‘I recruit you’ – virou palavra de ordem, e não apenas da comunidade gay. Para o diretor, Milk ‘foi praticamente o primeiro, o pioneiro’, e assim ele o retratou.’


 


 


Luiz Carlos Merten


‘Após era Bush de homofobia, uma nova saída do armário’


‘É interessante que Milk se abra com imagens de arquivo mostrando a erupção de policiais em bares gays de Nova York, nos anos 70. Esses bares eram verdadeiros guetos e os frequentadores procuram preservar suas identidades, tapando o rosto. Oito anos mais tarde – o tempo da pregação de Harvey Milk -, agora é o próprio personagem, interpretado por Sean Penn, quem protege o rosto, no desfecho do filme. Ele está na mira do revólver de seu assassino. As balas que o atingem o fazem rodopiar e a última imagem que Milk vê é a da casa de ópera de São Francisco, uma licença poética de Gus Van Sant.


Razão e sensibilidade. O Milk das primeiras cenas – o relato tem o formato de flashback, um depoimento que o próprio personagem deixa gravado, pois teme ser assassinado – é um homem consciente de que chega aos 40 anos sem nada ter feito. Ele abandona Nova York com o amante – James Franco – e em São Francisco inicia sua militância política. O filme contrapõe a ficção e o documentário, por meio de imagens de arquivo em que aparece a verdadeira Anita Bryant, oponente de Milk e da causa gay em geral, uma ex-cantora que virou porta-voz dos puritanos, com seu brado de que era preciso matar homossexuais ‘por amor a Cristo’.


Em Berlim, Van Sant lembrou que tinha 26 anos quando Milk foi assassinado em São Francisco. Por sua militância, ele fora alçado a um cargo político, desempenhando uma função legislativa – espécie de vereador – na Câmara local. O fato não o marcou particularmente, nem foi determinante para que ele quisesse fazer agora o filme. O que o seduziu foi o roteiro de Dustin Lance Black. ‘O assassinato, na época, foi uma coisa muito local. Só depois adquiriu a importância que possui hoje.’ Narrar essa história justamente quando a presidência de Barack Obama inicia nova fase nos EUA, após a homofobia da era George W. Bush, equivale, como ele diz, a ‘uma nova saída do armário’.


Van Sant conta que, anterior ao projeto sobre Milk, havia seu desejo de fazer um filme sobre Castro, o bairro de São Francisco em que Harvey foi morar, ao abandonar Nova York. Castro possuía uma alta concentração de gays e foi lá que Milk iniciou sua luta por direitos civis. O projeto sobre Castro aproximou Van Sant de Dustin Lance Black, mas era uma relação superficial. Van Sant sonhava com uma abordagem antropológica e, quem sabe, teria feito um filme de linguagem mais ousada, como Last Days e Paranoid Park. O roteiro de Dustin Lance deu um centro dramático ao que estava muito vago na sua cabeça. Mas ainda havia um problema – o ator para fazer o papel.


Van Sant agradeceu a Sean Penn por sua generosidade. Ator engajado, ele se interessou pelo assunto quando o diretor o encontrou num festival e ambos conversaram vagamente. Van Sant pensava que Penn até já se havia esquecido da proposta. A entrega do ator é total – ‘Eu quero você!’ (ou ‘Eu te recruto!’). O duelo de domingo no Oscar promete ser emocionante – Mickey Rourke, ou a segunda chance, o retorno, em O Lutador. Sean Penn, o glamour, a transformação, em Milk. Penn é melhor. Se ganha, é outra história. A estatueta de melhor ator promete arrombar a festa.’


 


 


TELEVISÃO
Cristina Padiglione


Roda Viva passará a ser gravado: ao vivo, somente na web


‘A reforma no Roda Viva não se resume à troca de apresentadores, de Lillian Witte Fibe por Heródoto Barbeiro. A partir de 2 de março, o programa retoma a realização de entrevistas inéditas, mas não mais ao vivo pela TV, característica que marca sua trajetória de 22 anos no ar.


Explica-se: o novo Roda Viva passará a ser gravado às 19 horas de segunda-feira, pouco antes de ser exibido pela TV Cultura, sendo transmitido ao vivo apenas pela internet. Embora o programa já estivesse sendo visto ao vivo pela web, Heródoto aposta que a interatividade online funcionará melhor às 19h.


Se Lillian Witte Fibe deixou o comando do programa, como antecipou em entrevista ao Estado, por crer que boa parte dos entrevistados não tinha relevância, Heródoto se abstém de comentar a opinião da ex-âncora. Eis o que ele diz ao Estado sobre sua volta à mesma cadeira que ocupou entre 1994 e 95:


Por que foi decidido que a atração só terá transmissão ao vivo pela web?


Nós queremos dar um salto no programa. Vamos usar o recurso do IPTV e apostamos que a participação do internauta, que rende muito mais interatividade que telefonemas de telespectadores, será bem maior às 7 da noite. Estamos vivendo uma confluência de mídias e aposto muito nisso.


A Lillian Witte Fibe deixou o programa por crer que o time de entrevistados estivesse fraco. Você concorda?


Eticamente, não me compete concordar ou discordar porque eu não estava no Roda Viva nesse período, estava no Jornal da Cultura.


Já conversou com a equipe sobre nomes de entrevistados?


O Roda Viva se distingue por entrevistar nomes que interessem à sociedade. Mas devemos olhar para determinados temas e a partir deles escolher o entrevistado. Por exemplo: dentro da crise econômica mundial, estamos assistindo à ameaça de fechamento da maior montadora do mundo. Por que não trazer alguém da indústria automobilística? Se eu for pensar apenas em celebridades, terei de esperar o presidente da GM passar pelo Brasil. Mas é claro que há pessoas que sempre interessam. O Felipão nos interessa.


A Lillian disse que não tinha sugestões acatadas pela equipe. Você participará da escolha de entrevistados?


Não quero sentar lá só para apresentar o programa, quero participar e, com essa abertura para a internet, dar um up grade no Roda Viva.’


 


 


LIVRO
Ubiratan Brasil


CBL decide manter atual presidente


‘Numa agitada eleição realizada anteontem para a escolha da diretoria que vai comandar a Câmara Brasileira do Livro (CBL) no biênio 2009/2011, a atual presidente Rosely Boschini foi reeleita com 185 dos 238 votos. A CBL tem 554 associados e promove a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, além de conceder o prestigiado Prêmio Jabuti. Rosely Boschini derrotou o candidato da chapa Mudança & Participação, Armando Antongini Filho, que recebeu 52 votos e acusava a atual diretoria de firmar um acordo irregular com uma empresa de marketing para captação de recursos incentivados pela Lei Rouanet. Houve apenas um voto nulo. Entre as propostas da nova presidente, que concedeu entrevista ao Estado antes da eleição, está a reformulação da Bienal do Livro e a expansão dos festivais literários.


Como o Brasil pode se tornar um país de leitores?


O Brasil deu passos importantes nessa direção nos últimos anos. A adoção da Lei do Livro, a desoneração fiscal e a criação do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) são alguns deles e a CBL esteve sempre entre os protagonistas. Os editores, que têm feito do Brasil o oitavo maior produtor de livros do mundo, estão fazendo a sua parte, publicando livros de qualidade e procurando, com os outros elos da cadeia produtiva, como os distribuidores e os livreiros, colocá-los ao alcance dos leitores. Mas está na hora do Brasil avançar mais rápido. Precisamos de mais investimentos em educação e cultura para ampliar a base de leitores. E também de políticas públicas capazes de garantir maior acesso aos livros tanto nas livrarias como nas bibliotecas públicas.


Quais os efeitos da pirataria do livro no País?


Pirataria é, antes de qualquer coisa, um roubo e, muitas vezes, esconde atrás de si uma rede criminosa. A posição da CBL tem sido de total repúdio à pirataria e contra ela temos travado, com outras entidades nacionais e internacionais, um combate frontal. Autores e a indústria editorial perdem, em todo o mundo, bilhões de dólares todos os anos, causando prejuízos muitas vezes insustentáveis que inibem novos investimentos no setor. Temos buscado, em primeiro lugar, esclarecer leitores, autoridades e universidades sobre suas consequências danosas para a sociedade. É certo que é preciso distinguir entre pirataria e o uso comercial abusivo de produtos produzidos legalmente por empresas que pagam impostos, com as exceções já previstas nas leis, em especial a Lei de Direitos Autorais. Por isso, a CBL tem defendido uma ação combinada entre educação, repressão pontual com base na legislação e um diálogo permanente com as autoridades.


O que pensa sobre a mudança na lei do direito autoral pelo governo?


É preciso que se tenha a compreensão que a propriedade intelectual é um bem jurídico que se encontra legalmente protegido e deve ser preservado e garantido no Estado democrático de Direito. Receio que a mudança na legislação autoral possa causar insegurança jurídica aos detentores de direitos autorais e, em consequência, prejudicar os investimentos na criação, na produção e na difusão da cultura escrita. Estamos acompanhando com rigor as propostas de alteração, que ainda estão sob análise do Ministério da Cultura, e criamos na CBL um grupo de trabalho de alto nível, representativo de quase 30 entidades, para dialogar e defender as posições do setor junto ao governo. É fundamental manter um bom diálogo com o governo para, mais do que ser ouvido, influir nesse debate e assegurar que as posições do setor sejam levadas em conta. Para chegar a uma proposta realmente viável, o Estado deve criar mecanismos que, ao mesmo tempo que permitam o livre acesso à cultura, também resguardem os autores e os detentores de direitos autorais, que devem ser devidamente remunerados por isso.


De que forma a CBL pode participar ativamente da expansão de mercados literários como audiolivros, e-books, etc.?


A larga experiência da CBL na promoção do livro impresso a capacita a atuar ativamente na expansão e integração entre o mercado literário e as novas mídias. Uma das ações que a CBL tem feito nesse sentido é buscar, por meio a Escola do Livro, uma melhor capacitação profissional do setor nessa área. Vamos também intensificar a promoção de debates sobre políticas públicas e mercadológicas com especialistas da área e criar uma agenda própria para discutir temas fundamentais, como a proteção aos direitos autorais no ambiente digital. Ao mesmo tempo, vamos dar o apoio necessário às inúmeras ações pontuais, como a CBL tem feito, por exemplo, com as entidades que têm investindo no audiolivro como meio para democratizar o acesso das pessoas portadoras de qualquer tipo de deficiência à leitura.


Como se posiciona a CBL diante da apreensão do mercado editorial com o abalo na economia mundial?


A CBL deve promover ações que visem tanto ao desenvolvimento do setor como aos ganhos de competitividade. Por isso, temos trabalhado intensamente em duas frentes: uma para fortalecer as relações institucionais com o governo em diversos níveis, que melhoraram nos últimos anos; a outra busca capacitar melhor empresários e profissionais da área. É importante, no entanto, ter em mente que, embora grave, a crise é passageira. Por isso, é fundamental que os investimentos em educação continuem a ser encarados como prioridade para o governo, principal comprador de livros do País. Nesse sentido, uma ação primordial para a CBL é aprimorar as parcerias, já existentes, com órgãos do governo, de modo a orientar os investimentos dos empresários do setor e aumentar a capacidade de venda de seus produtos e sua absorção pelas políticas públicas. Outro desafio é o crédito. Os empresários do livro, que têm papel fundamental na produção e difusão da cultura, não dispõem de linhas especiais de financiamento. Isso deve ser revisto e vamos aumentar as pressões para que haja uma solução rápida e em prazo compatível com o momento econômico que vivemos.’


 


 


 


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