Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Tecnologia a serviço da democracia

Por Lúcio Flávio Pinto em 24/08/2010 na edição 604

Em 1971, o então analista militar Daniel Ellsberg passou várias horas tirando cópias xerográficas de sete mil folhas de documentos que sua empresa de consultoria, a Rand Corporation, havia produzido para o governo americano. Entregou esses papéis ao jornal The New York Times, sabendo muito bem o que estava fazendo. Eram documentos top secrets, cuja divulgação constituía uma transgressão grave. Ellsberg se convenceu de que devia ultrapassar o limite do sigilo para mostrar à opinião pública dos Estados Unidos que o governo mentia: ao invés de reduzir sua participação na terrível guerra do sudeste asiático, a estava ampliando.

A divulgação gerou um incidente que ficou conhecido na crônica histórica como ‘os documentos do Pentágono’. O governo Nixon tentou interromper a publicação dos papéis pelo jornal novaiorquino, mas a Suprema Corte não aceitou os argumentos da administração federal. Mais importante do que eventual risco para a segurança nacional era a vigência da Primeira Emenda, que assegurou a tutela constitucional à liberdade de imprensa nos EUA.

Daniel Ellsberg, um herói daqueles dias, hoje com 79 anos de idade, voltou a ser lembrado pela imprensa a propósito de vazamento semelhante de informações secretas sobre a guerra do Afeganistão através do site WikiLeaks, no dia 25 de julho, provavelmente por Bradley Manning. Só que a inconfidência abrangeu 100 mil folhas, 14 vezes mais do que as cópias produzidas clandestinamente por Ellsberg. Os documentos por ele vazados eram apenas ‘muito secretos’, por revelarem dados inéditos, enquanto os de Manning são ‘secretos’. Serviram mais para confirmar oficialmente as críticas feitas ao governo do que como novidade para a opinião pública.

Numa entrevista à Folha de S. Paulo, comparando o seu episódio com o atual, Ellsberg disse que decidiu arriscar sua liberdade ‘assim como havia arriscado o meu corpo nas estradas do Vietnã anos antes, para encerrar o nosso envolvimento e parar a matança’. Acredita que Bradley Manning tenha o mesmo convencimento: ‘Esteve no Iraque e estava preparado para passar a vida na prisão ou até ser executado’. Mas não vê os dois comportamentos como extraordinários: ‘Me parece natural que alguém esteja disposto a correr o risco pela paz, pelo fim da matança’.

Fortalecimento da democracia

Ellsberg acredita que a divulgação dos documentos reforçará a convicção da maioria da população de que os Estados Unidos não deveriam estar no Afeganistão, ‘mas isso não significa que os nossos líderes trarão os soldados de volta para casa. Todo presidente, democrata ou republicano, teme ser acusado de abandonar uma guerra vencível. Como essa guerra não é vencível, essa é uma avaliação irresponsável e burra’.

Ainda assim – lembra Ellsberg – os presidentes da república não gostam de enfrentar esse tipo de acusação em campanhas eleitorais: ‘Eles preferem mandar as pessoas para lá para matar e morrer, indefinidamente. Essa declaração que faço é dura, mas é baseada na experiência’.

Apesar da permanência dessa atitude insensata, a evolução da tecnologia tem favorecido, nesse caso, mais à sociedade do que ao governo. É possível vazar documentos secretos em maior abundância e muito mais rapidamente do que antes, através da internet, cujo poder de armazenamento e difusão não tem termo de comparação com a Xerox, uma ferramenta que surgiu para fortalecer a democracia. O avanço que ocorreu nas quatro décadas que transcorreram de Ellsberg para Manning é formidável.

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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