Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > OBSERVAÇÃO DO LEITOR

Telenovelas e a formação de opinião

Por Alyson Lupo Nunes em 22/04/2008 na edição 482

O que dizer sobre as novelas que mostram personagens que já acordam de manhã ostentando jóias e vestindo roupas de luxo, calças e camisas de linho, vestidos caros, e ninguém trabalha. Moram em bairros ricos, em condomínios caros. De frente para a praia, quando possível.

Essas novelas são assistidas por pessoas pobres, que muitas vezes não podem nem completar suas geladeiras nem usar roupas sem furos. Não têm acesso a serviços de saúde dignos, escolas que ofereçam o mínimo de condições para o aprendizado, enfrentam filas em agências de emprego, sem sucesso. A essas pessoas é mostrado, sem pudor algum, como a felicidade está longe, num mundo inacessível da telinha azul. Não é de admirar que alguns joguem lixo nas ruas, que nunca ocuparão como cidadãos; assaltem e matem senhores e senhoras que nunca os verão como iguais; que busquem aqueles sonhos que são mostrados e que são a causa da sua condição miserável. Que as emissoras continuem elitistas e que provoquem a verdadeira revolta!

As novelas são muito bem produzidas, têm uma fotografia bonita, os núcleos dramáticos são articulados e complexos, os artistas são homens e mulheres atraentes. E está tudo ali, de graça, todos os dias. Se é difícil para uma pessoa com 10, 15 anos de estudo acadêmico, com maior conhecimento do mundo que o cerca, com muito mais opções de entretenimento na vida, resistir aos seus apelos, imagine para uma pessoa humilde, que gasta muito mais tempo se ocupando de garantir a sobrevivência e muitas vezes só tem a TV e a cama como fonte de diversão.

Você deve adorar novela, mas admita: o que aparece na tela é muito diferente da realidade, não é? Mas não é a isso que se dispõe a telenovela. A telenovela se dispõe a retratar a realidade. Só que retrata uma realidade distorcida da sociedade e, é óbvio, a partir do ponto de vista daqueles que tomam as decisões, lá em cima. Há 100 ou 150 anos eles seriam fazendeiros, a nobreza. Hoje são fazendeiros, empresários. São as mesmas famílias.

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A matéria de 30 minutos, extremamente rudimentar e amadora, que o Fantástico transmitiu na noite de domingo (20/4) sobre a ‘inocência’ do pai e da madrasta de Isabella Nardoni constitui um insulto à nossa profissão e é uma desmoralização para os padrões da TV Globo. No debate sobre o ‘apedrejamento prévio’ dos suspeitos, e atitude da mídia neste caso, faltam algumas considerações: a indignação da multidão, mais do que um ‘prejulgamento’ é um atestado da saturação do povo diante da impunidade que deixa livres autores de crimes cínicos e abomináveis (como os de Pimenta da Veiga, do promotor Igor que assassinou friamente a esposa grávida, e o nunca esclarecido caso da Rua Cuba). Sugiro que Alexandre e Anna Carolina sejam logo canonizados. Suzanne von Richthofen é outra que merece logo o altar. (Cecilia Prada, jornalista, Campinas, SP)

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Não sei se estou escrevendo para o local certo, mas se não estiver acredito que V.Sas. conseguirão encaminhar este e-mail a alguém que possa tomar alguma providência a respeito do assunto. Hoje de manhã (18/4/08 às 7h40), no Bom Dia Brasil, da Globo, foi apresentada uma ‘reportagem’ sobre a última notícia da moda: Alexandre Nardoni e Ana Carolina. A notícia era: ‘Várias equipes de jornalistas estão aqui na porta da delegacia desde cedo para garantir o melhor ângulo para registrar o casal chegando à delegacia…’ Isso é notícia??? Isso é a preparação de uma equipe de reportagem para registrar alguma coisa que possivelmente virá a ser uma notícia. Tal preparação acontece corriqueiramente em qualquer evento de importância. Mas a Globo resolveu dar esta ‘notícia’ de suma importância.

A Globo ocupou três equipes de reportagem para cobrir o fato: duas ficaram nas casas do casal e mais uma na porta da delegacia onde o casal iria depor. Veicularam na TV as três equipes, por mais de duas vezes cada uma, dizendo as mesmas coisas: ‘Saíram no carro bem cedo e voltaram para casa’ (será que foram à padaria?); ‘O vidro do carro era escuro: não deu para ver. Foi o porteiro que falou quem estava no carro’ (noooossssa!!); ‘Não se sabe se vão chegar na hora marcada, 10h30… Não se sabe se vão chegar em carros separados… Não se sabe se virão acompanhados dos advogados ou dos pais…’ (não se sabe se comeram sucrilhos com ou sem açúcar no café da manhã).

Depois de tantas notícias ‘cruciais’, vamos ao que ‘interessa’ neste caso (interessa?), que é a chegada do casal à delegacia. É para isso que as equipes de reportagem estão lá: para cobrir o fato de extrema importância: o casal entrando na delegacia. ‘Olha lá! Estão chegando! Vão Entrar! Entraram!!! É gooool!’ Impressionante… Será que as notícias mais importantes, a serem divulgadas num horário tão assistido, na maior, mais assistida e mais copiada rede de televisão do país, são essas? Não tem nada melhor, mais proveitoso, mais instrutivo, mais educativo em matéria de reportagem?

Conforme os Objetivos do próprio Observatório, ‘os meios de comunicação de massa são produzidos por empresas cujas decisões atendem aos desígnios de seus acionistas. Mas o produto jornalístico é, inquestionavelmente, um serviço público, com garantias e privilégios específicos previstos em vários artigos da Constituição, o que pressupõe imperiosas contrapartidas em matéria de deveres e responsabilidades sociais’. Então, é essa a contrapartida que o jornalismo da Globo está nos entregando? (Antônio Eustáquio Pereira, analista de sistemas, Belo Horizonte, MG)

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A cobertura do assassinato da pequena Isabella Nardoni fez subir a audiência dos telejornais brasileiros. As informações são da coluna ‘Outro Canal’ de Daniel Castro, da Folha de S.Paulo de sexta-feira (18/4).

Balanço Geral da Rede Record, cresceu 25%. Na quinta-feira (17) o programa tinha uma cama em seu cenário, como se fosse a de Isabella. Já o Fala que eu te escuto, da Igreja Universal, fez uma reconstituição do crime com atores. Podemos perceber pelas informações da coluna como alguns programas de TV estão ganhando audiência com o caso. A Record também mostrou que no local onde estão acampados centenas de jornalistas e curiosos são vendidos algodão doce e sorvete. Ate mesmo o lucro de uma comerciante com aluguel de salas para jornais e TVs foi divulgado na reportagem.

O Jornal Nacional da Rede Globo ocupou mais de 15 minutos na edição do dia 15 de abril com a cobertura do caso, o que equivale a 37% do telejornal. A emissora mobilizou 18 repórteres, 8 produtores e 20 cinegrafistas para cobrir o caso, fazendo plantão permanente em casas de parentes de Isabella e em delegacias.

Seria tudo muito normal, já que o caso de Isabella merece atenção especial de todos os jornalistas e da sociedade brasileira, mas deve-se levar em consideração que outros crimes iguais ou mais violentos são cometidos todos os dias contra crianças e nem mesmo são citados pelos mesmos telejornais. É importante informar, mais antes de tudo é também digno dar a informação sem preconceito. (Vanderson de Souza Cordeiro, jornalista precário, Santo Antonio do Aracanguá, SP)

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Não tenho o hábito de colocar reclamações nos meios de comunicação, porque bem sei ter cada um seu ‘rabo preso’ nalgum tronco longe das vistas do grande público. Hoje faço uma exceção através do Observatório da Imprensa, que me apraz ver quando possível. É para falar da pobreza dos departamentos de jornalismo da emissoras de televisão, pelo menos as São Paulo. No caso, por exemplo, da morte recente dessa menina Isabella. Não descarto o modo bárbaro do crime, tampouco o justifico por qualquer razão. Alguns canais, a maioria se pode dizer, se apraz em alongar o caso, de forma excessivamente repetitiva, recorrente e redundante. Montam programas de mais de duas horas para, além das suposições, repetir tudo desde o início e até envolvendo jornalistas de grande prestígio na área policial – que, por serem empregados da emissora, se vêm obrigados a integrar o elenco dessa ópera-bufa.

O prazer que têm em melodramatizar a violência, o trágico, só serve, na minha opinião, para influenciar as mentes menos preparadas. O que antigamente tínhamos como ‘programas caça-cadáveres’ (hoje resta apenas um) foi dissimulado pela programação das emissoras de jornalismo miúdo. É geral. (Elysiário Távora dos Santos, aposentado, São Paulo, SP)

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Uma questão que me chamou atenção semana passada foi a cobertura pífia dada pela imprensa à queda do avião no Congo. O que será que mudou: o interesse da mídia em tragédias ou o local que ela ocorre? Procurando melhor sobre esse país descobrimos que a União Européia proíbe o uso do seu espaço aéreo pelas empresas aéreas do Congo, e ninguém fala nisso! Por que não nos mostram os resgates, histórias de sobreviventes dessa tragédia, como fazem com tantas outras? (Carina Dantas, psicóloga, São Carlos, SP)

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O caso Isabella tornou-se, além de um caso trágico, uma tremenda novela mexicana – ou uma novela global, como ‘Quem matou Irineu Vasconcelos’ ou ‘Quem matou Odete Roitman’. A cobertura da imprensa muitas vezes atrapalha as investigações: muito se especula e nada se apura ou muito se pressiona. Esse negócio de a cada minuto soltar uma informação nova, que nem foi devidamente apurada, não é interessante. O público quer a informação precisa. Ora se diz terem achado um cabelo, ter havido sangue no pescoço, depois um hematoma no corpo, e agora não é hematoma, é mancha… enfim, ora se diz uma coisa, depois vem outra que a contradiz, e assim segue a investigação.

A imprensa entrevista gente que nada tem a ver com o caso, vizinho do pai na época da escola, lá da época do bolinha… A imprensa deveria transmitir só o que a polícia divulgar, e não ficar em cima, pressionando, especulando e acusando quem quer que seja sem que realmente se tenha provas para tanto. (Hans Misfeldt, estudante de Jornalismo, São Paulo, SP)

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Por que a delegada que denunciou os previstos réu e ré de ‘assassinos’, saiu da mídia? A delegada foi esquecida? A polícia conta com tanta credibilidade assim, tanto na opinião pública como em seus bastidores? Fora dos bastidores é o que a mídia tem publicado! Acho que, sobre este caso, caberia alguma satisfação à sociedade. (Ruy Torres, engenheiro, São Paulo/SP)

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Admiro o sr. Dines pela coragem e vocação para o jornalismo lúcido. Segue endereço de matéria da Folha Online que acredito ser um desrespeito. O que será que querem dizer com ‘presidenciável preferido’? Preferido de quem?? Do jornal??? Do Kennedy Alencar? (Carlos Gómez, analista de estudos setoriais, São Paulo, SP)

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O Jornal Nacional ‘mistura’ notícias e seus intervalos comerciais, isso quase ninguém duvida. Mas na edição de segunda-feira (14/4) passaram dos limites. Depois de noticiar uma possível invasão da Vale do Rio Doce em Carajás pelo MST, para protestar contra o ‘suposto massacre de manifestantes em Eldorado dos Carajás’ (dito por Fátima Bernardes), ao entrar o bloco comercial vem uma propaganda da Vale de cerca de 1 minuto, paparicando as atividades de preservação e cuidados com o meio ambiente da empresa. O anúncio faz parecer que a Vale cuida mais ‘da natureza’ do que os próprios indígenas ou comunidades que vivem na floresta. É de apavorar como a emissora é tendenciosa. (Marlon Witte da Silva, auxiliar judiciário, Porto Alegre, RS)

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Não sei se tiveram a oportunidade de ler Veja (edição 2057, de 23/4/1008). Se não tiveram, por favor leiam a coluna do ‘jornalista’ factóide Diogo Mainard. Esse tipo de imprensa não serve para o Brasil democrático, serviria para a Itália no início do século 20. Estou enviando este e-mail ao Observatório porque o colunista não tem ‘fale conosco’ em seu blog, nem a revista tem ombudsman.

O texto trata de cotas universitárias, ou melhor, fala mais de racismo. Alguns termos como ‘macaquear’, ‘quilombolismo’ e ataques a Barack Obama revelam a pérfida tendência do autor como as idéia de direita, ou fascistas. O texto preconceituoso fere não somente a ética da imprensa livre, como também os negros do Brasil. Isso é um crime e uma inconstitucionalidade.

Não sou negro, nem descendente, porém incomodado com o conteúdo racista explícito estou enviando este e-mail um órgão de imprensa que observa, com atenção, essas ideologias sensacionalistas. Não leio Veja, infelizmente esta eu li. Liberdade de imprensa não é dizer o que quer, da forma que quer, desrespeitando a Constituição e até mesmo o ser humano.

Existe lei no Brasil, que regulamenta o papel da imprensa? Acho que Diogo Mainardi, com suas idéias liberais, é mais escravo do que quem ataca. Pior é obedecer ‘seu dono’ e confundir imprensa livre com tutela patronal. Espero que o OI reflita e comente este ato fascista. (Paulo Cesar Souza, professor, Martinópolis, SP)

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Tenho algumas perguntas sobre as indenizações da ditadura militar e dos abusos feitos por autoridades públicas em exercício do poder:

1) Por que o patrimônio pessoal e os rendimentos pessoais nunca entram no montante da indenização? 2) É justo processar o Estado democrático e conseqüentemente os contribuintes e trabalhadores que sustentam o país? 3) Os auto-exilados não decidiram sair do país por conta própria? Alguns deles receberam ajuda financeira de contribuintes estrangeiros no Chile, EUA, ou do trabalho de cidadãos cubanos e soviéticos? 4) Quem quer tomar o poder a bala, e controlá-lo, pode ser considerado herói da democracia ou deve ser considerado um golpista incompetente? Tem direito a esta grana das indenizações? 5) As famílias de militares mortos em combate aos guerrilheiros também têm direito a indenizações? 6) É justo a população assumir esse custo com o suor dos seu trabalho ao invés de o Estado colocar na cadeia os torturadores e assassinos? 7) Quantos dias por ano a população deste país vai trabalhar para indenizar estas pessoas? 8) A anistia virou um encargo a mais para os brasileiros tão vítimas da ditadura quantos aos seu opositores? 9) O corporativismo está presente na imprensa ao tratar deste assunto? 10) Quem merece receber indenização neste país? E por quê? (Warner Burchauser, vendedor, Campinas, SP)

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No dia em que a BBC Brasil divulgou um comentário sobre uma reportagem feita pelo jornal americano Los Angeles Times, a respeito da epidemia de dengue que ameaça o status favorável que o Brasil conquistou no setor econômico, lembrei de uma charge do fotoblog do Jal que traz o mosquito da dengue no Corcovado, de braços abertos, e os dizeres: ‘Rio de Janeiro – Aqui a dengue te recebe de braços abertos!’ Charge que talvez seja o melhor cartão postal a representar o Rio ou Brasil nesse momento epidêmico. Inteligente ainda foi a frase postada abaixo da charge: ‘A dengue não assusta só os cariocas mas a todos nós brasileiros, que somos, antes do mosquito, vítimas da incompetência da administração pública, verdadeira praga deste país!’. Tema interessante para discussão. (Alberto Sousa, médico, Rio de Janeiro, RJ)

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Técnico de operações, Rio de Janeiro, RJ

Todos os comentários

  1. Comentou em 28/04/2008 Mariana Rocha

    eu concordo com o que já foi dito que novela retrata uma ficção e que tem o intuito de entreter a população, porém as pessoas ás vezes esqueçam que a televisão tem um poder sócio-cultural muito forte, uma vez que essa pessoa, por exemplo, de baixa renda que está assistindo a novela, ela não está somente assistindo para passar o tempo, ela está assistindo e tomando, muitas vezes, aquela realidade como a verdadeira e a partir dai vai começar igual, ou tentar. Eu já vi inúmeras vezes pessoas começando a se vestir igual tal personagem, a falar igual, ou seja, um telespectador começa a adquirir pra si a mesma cultura daquele personagem, e isso não é mentira, é um fato. O papel da televisão, feliz ou infelizmente, hoje, vai além de entreter.

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