Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > UOL

Tereza Rangel

24/06/2008 na edição 491

‘A principal foto destacada pela home page do UOL para a semana de moda de São Paulo (SP Fashion Week), a partir das 9h54, era o do corpo de uma modelo, sob o chapéu ‘Carne’. Isso mesmo, ‘Carne’. O enunciado da chamada-foto não melhorava as coisas. ‘Dobrinhas de top chamam atenção’.

A decisão editorial de destacar a foto foi duramente criticada por internautas. Indignado, o repórter-fotográfico da Folha Caio Guatelli diz, inclusive, que o resultado das gordurinhas aparentes pode ser, simplesmente, resultado do mau uso do Photoshop.

‘Fiquei surpreso ao ler uma chamada da SP Fashion Week na home page do UOL. O texto trazia: ‘Dobrinhas’ de top chamam atenção. Depois de testemunhar a morte da top Ana Carolina Reston e assistir a tantas discussões sobre o tema saúde X beleza, onde especialistas na área de saúde afirmam que os excessos para se alcançar a magreza que leva à beleza é algo totalmente insalubre, deixa-me indignado ver que o site UOL publica em sua home uma frase que estimule seus leitores a criticarem uma dobrinha a mais de uma top model. E o que é essa dobrinha? Até onde eu vejo não é nada mais que o resultado de seu movimento, que através do uso excessivo do filtro de Máscara de Nitidez do Photoshop, o chamado filtro ‘Unsharp Mask’, a estrutura física ganhou traços mais grosseiros. Tenho certeza que se o filtro Máscara de Nitidez tivesse sido usado com mais profissionalismo, a dobrinha, que é linda, não teria sido tão ressaltada.’

Caio Guatelli

Antonio Geremias, colaborador assíduo da ombudsman e que sempre se queixa do corte que normalmente privilegia as nádegas, coxas, virilhas na edição de fotos de mulheres esportistas, foi sucinto no caso da foto da modelo.

‘Tereza, olha só como eles se referem às modelos (legenda da foto da esquerda): Carne!’

Antonio Geremias

Para piorar o caso, ao se clicar na foto, não se conseguia nenhuma informação adicional na legenda única de todo o álbum, ‘Karolina Kurkova e a Londres hippie dos anos 70 dão tom do desfile da Cia. Marítima’, sem nenhuma referência às dobrinhas. Era preciso um clique adicional e a leitura do texto para se ter certeza de que a foto destacada pela home page era da tcheca Karolina.

A resposta da redação

O editor da home page escreveu para defender a publicação da imagem.

‘Em tempos de discussão sobre anorexia e excesso de magreza, a primeira página do UOL escolheu um enunciando que não reforça nenhum estereótipo – pelo contrário.

Ao dizer que as dobrinhas chamaram a atenção, a primeira página não pôs nenhum juízo de valor num fato destacado por todas as coberturas, inclusive a nossa. Chamar a atenção pode, inclusive, ser entendido como algo positivo – uma supermodelo como Karolina Kurkova, uma das Angels da Victoria’s Secret, a principal estrela do desfile em questão, exibiu um corpo que não se rendia à ditadura da beleza, abrindo espaço para o debate e para o surgimento um novo padrão, mais saudável, para modelos de passarela.

Quanto ao suposto mau uso do photoshop, só posso dizer que se trata de uma avaliação completamente equivocada do internauta, uma vez que, como a ombudsman bem sabe, não usamos o photoshop para produzir notícia.

Haroldo Ceravolo Sereza

Editor da Home Page do UOL’

Meu comentário: sem nenhuma informação adicional na legenda e sob o chapéu ‘Carne’, fica difícil aceitar que a intenção era destacar algo positivo. Até porque o texto relativo ao desfile dizia que ‘a entrada inicial da top tcheca repercutiu pela platéia em alguns comentários negativos sobre seu corpo, um pouco fora dos padrões sequíssimos de boa parte das modelos nas temporadas de verão.’ Nada alvissareiro, portanto.

Mais redação: nova manifestação da redação, que tenta explicar, com palavras nobres, uma edição, reitero, de mau gosto e sensacionalista.

‘Cara Tereza,

quem fez a chamada sobre a top Karolina Kurkova fui eu. E confesso que fiquei surpresa com o viés negativo com que ela foi recebida por sua coluna e pelos dois leitores citados. Dos quase 170 mil internautas que entraram na matéria pela página principal do UOL, nenhum se queixou diretamente com a home page – acho natural e mais do que bem-vindas as posições dissonantes, mas simplesmente não foi o caso, talvez porque a chamada tenha sido bem-sucedida em expor uma situação de lados polêmicos sem impôr valores, respeitando o exercício de reflexão do leitor.

A chamada foi formulada de forma consciente, buscando o debate e a reflexão. A top model Karolina Kurkova é uma profissional de destaque em sua área e as ‘dobrinhas’, usadas assim, em diminutivo e entre aspas, viraram, sim, assunto, e estavam, sim, em nossa e em todas as coberturas do desfile. A questão proposta pela chamada é exatamente essa: essas ‘dobrinhas’, essa ‘carne’ – o termo que tanto incomodou a ombudsman e foi escolhido por mim exatamente pelo contraponto ao pejorativo ‘osso’ e por ser tão representativo da idéia de humanidade –, essa carne mínima, destoaram a ponto de virar assunto. Fingir que isso não foi o comentário dominante na imprensa e no local (por coincidência, eu estava no desfile e comprovei o que nossa e as outras coberturas reportam) para poupar o leitor do lado ‘feio’ do debate me parece leviano.

Nosso conteúdo não se aprofundava na questão, mas corrigir um possível problema de omissão com outro não me pareceu adequado. A home page do UOL reportou um fato e deu, a meu ver, a proporção adequada aos elementos. Escolher de que lado o leitor deve ficar, direcionando a redação ou simplesmente omitindo, é, para mim, um esvaziamento do debate. Portanto, não é uma opção.

Carina Martins

Editora-assistente da Home Page do UOL’

***

Quem são os rapazes? (17/6/08)

O UOL vem noticiando, desde o último domingo, o caso de três rapazes que, depois de abordados no Rio por militares, levados para um quartel, liberados, desaparecerem e foram achados mortos em um lixão em Duque de Caxias (Baixada Fluminense). Sabe-se, pela versão da polícia, que os rapazes foram entregues pelos militares a traficantes em um morro vizinho àquele em que moravam.

Chama atenção a falta de perfil dos rapazes (nem ao menos fotos nos álbuns de imagens do dia). Quem são David Wilson Florêncio da Silva, 24, Wellington Gonzaga Costa, 19, e Marcos Paulo da Silva, 17? Faltaram textos devidamente destacados na home page que mostrem como eles viviam, o que faziam, como se divertiam, quem eram suas famílias e seus amigos e por que, uma vez levados a traficantes, foram brutalmente assassinados. Até agora, a cobertura tem sido burocrática, apostando mais no desdobramento da investigação policial e nas falas das autoridades (o caso só virou manchete quando o governador do Rio chamou os militares envolvidos no caso de ‘marginais’). Nessas horas, é bom colocar repórteres na rua.

Ainda dá tempo de brindar os internautas com um perfil dos rapazes e com uma cobertura mais reveladora. Seria bom, também, saber quem são os 11 presos e explicar como se dá a relação entre militares, traficantes e população dos morros ocupados pelo Exército do Rio.

P.S. Atualizado dia 18: redação informa ter feito perfil dos mortos, chamado na home page a partir da noite do dia 17.

***

Problemas na leitura de e-mails

O novo sistema de gerenciamento de e-mails encaminhados à ombudsman apresentou problemas. Mensagens enviadas no final de semana não podem ser lidas. A previsão da equipe técnica é de que, em até 24 horas, as mensagens serão recuperadas. Peço desculpas por isso.’

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