Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

FEITOS & DESFEITAS > ENCHENTES E ABANDONO

Terra de rinocerontes

Por Alexandre Bastos Loureiro em 16/01/2007 na edição 416

Dizem que a vida é como uma novela. Mas se for uma novela, estamos pessimamente servidos de atores, o diretor perdeu o controle e o novelista adora um dramalhão. O que vemos atualmente é que o homem tornou-se um animal que se devota diariamente a tornar os seus semelhantes cada vez mais infelizes. A justiça é uma vergonha, a polícia não oferece a segurança necessária e os políticos mostram que podem enganar muitos durante muito tempo.

Mas não resolvi refletir sobre isso de uma hora para a outra. Moro em Campos dos Goytacazes, RJ, que vive um dos momentos mais dramáticos de sua história. A cidade está alagada, uma ponte, rachada, e os políticos racham a cabeça para descobrir quem é o culpado pela tragédia. É triste ver tanta bagunça em uma cidade que poderia ser grande em todos os sentidos. Temos uma grande arrecadação, grande área de extensão e grande história. Mas, infelizmente, estamos nos apequenando com o passar dos anos. Os habitantes de Campos ficaram pequenos quando deixaram de participar ativamente da política. Ficaram pequenos quando os movimentos estudantis recuaram… Ficamos pequenos quando somos lembrados apenas por escândalos políticos, figuras nocivas e eleições intermináveis.

Atualmente, o nosso ícone político com maior destaque nacional se chama Anthony Garotinho. Uma cidade que revelou Nilo Peçanha, José do Patrocínio e o imortal José Cândido de Carvalho, autor de O Coronel e o Lobisomem, ficou durante muitos anos entregue nas mãos de um Garotinho mimado. E mesmo sem cargo político, Garotinho continua fazendo pirraça na terra goitacá. Se não bastasse a água, que deixou milhares de pessoas desabrigadas e alguns mortos, a população de Campos ainda tem que aturar palpites de todos os tipos e notícias pra lá de tendenciosas. O jornal O Diário, sempre simpático ao casal Garotinho, diz o tempo todo que a ponte não concluída no governo Rosinha Garotinho, seria a salvação da província campista.

O diário também faz questão de publicar as mil e uma denúncias do casal Garotinho, que culpa o ex-prefeito de Campos, Arnaldo Vianna, pela não conclusão da obra no prazo prometido. O casal diz que Arnaldo Vianna, quando prefeito, embargou a obra durante um certo tempo por conta de uma árvore que não poderia ser cortada. Mas será que esse é o momento para fazer denúncias e picuinhas? Cerca de 6 mil famílias estão desabrigadas, a cidade continua alagada, pessoas já morreram… E mesmo assim, o ex-governador, ex-prefeito, ex-secretário, ex-deputado Anthony Garotinho não desce do palanque. Esse político, que já não consegue eleger candidatos em sua cidade, vai seguindo ao pé da letra aquela assertiva de que errar é humano, mas colocar a culpa em alguém é estratégico.

A infecção pela mediocridade

Toda essa confusão em Campos me fez pensar numa peça teatral do romeno Eugene Ionesco. Em sua peça O Rinoceronte, Ionesco conta a história de uma pequena cidade, na qual os habitantes vão se metamorfoseando em rinocerontes. Os rinocerontes simbolizam o conformismo. Mas nem todos os habitantes viram rinocerontes. Um homem chamado Bérenger resiste à mutação e, aos pouco, se distancia.

Só que a ‘rinocerontização’ o assusta e ele teme ser infectado pela mediocridade. Mas, como os rinocerontes são maioria, eles transitam em paz, se achando os seres mais lindos e inteligentes do mundo. Por não ser um rinoceronte, Bérenger fica isolado. Aos poucos, descobre que precisa se adaptar aos rinocerontes, ou vai acabar enlouquecendo. A peça de Ionesco é bastante atual. Temos rinocerontes por todos os lados.

Em Campos, os rinocerontes estão nos gabinetes, nos jornais, nas grandes empresas, nos palcos, emissoras de rádio, colunas sociais. O fato é que a cidade mais promissora do Estado do Rio precisa de impulso pra avançar. O progresso é uma realidade cada vez mais próxima. Porém, apesar de toda evolução, Campos dos Goytacazes ainda é a cidade do ‘já teve’. Não é uma pequena cidade, mas ainda está aquém de ser referência e modelo no país. O que falta? A resposta é simples: poder nas mãos das pessoas certas e conscientização da população. Ou então, em pouco tempo, seremos apenas uma terra de rinocerontes.

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Estudante de Direito e assessor de imprensa, Campos dos Goytacazes, RJ

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