Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > COBERTURA ELEITORAL

The Economist tem candidato

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 26/10/2010 na edição 613

Apesar de sua apresentação atual (em formato de revista), o semanário britânico The Economist é um antigo e tradicional jornal da Inglaterra. Sua história confunde-se com o próprio surgimento do capitalismo. O periódico surgiu do combate às corn laws (leis dos grãos, em inglês) e outras leis protecionistas que o governo inglês impunha às commodities importadas na época. Estas leis estatais da coroa britânica ‘amarravam’ as forças produtivas do país e impediam seu pleno desenvolvimento rumo ao capitalismo empresarial. A publicação surgiu, então, como uma espécie de lobby da livre-empresa, contra as barreiras do mercantilismo do império britânico.


O jornal foi fundado pelo escocês James Wilson, em 1843. Filho de proprietários da indústria têxtil, Wilson fazia parte do movimento parlamentar que visava a derrubar as leis protecionistas que encareciam a cesta básica dos trabalhadores ingleses. Estas leis impediam, através de pesados impostos, a importação de trigo, milho e outros grãos estrangeiros, encarecendo a ‘cesta básica’ do trabalhador inglês e sufocando o capitalismo em seu berço. O periódico nasceu para defender a livre-empresa, o internacionalismo e a intervenção mínima, ou nula, do Estado na economia. As leis protecionistas foram revogadas, mas o jornal seguiu em frente, sempre defendendo os interesses da livre-empresa e do mercado livre da ingerência estatal, até os dias de hoje. E, desde sua fundação, o semanário não se afasta destes princípios.


Suas matérias não-assinadas dão ao periódico a aparência de um ‘jornal de editores’. Mesmo afirmando o contrário, e deixando transparecer que por detrás daqueles anônimos artigos estão grandes nomes da economia, da política e da ciência europeia e mundial, a comissão editorial do jornal reconhece que suas matérias são ‘bastante editadas’. Os colaboradores são anônimos porque, para eles, no Economist o que importa é o texto, e não quem o escreve…


Conservadorismo fiscal e mercado livre


De qualquer forma, todo jornalista com um mínimo conhecimento de História respeita as nobres tradições do passado deste jornal. Seus fundadores (em 1861, o genro de Wilson, Walter Bagehot, filho de banqueiros e articulista, assumiu a edição do jornal, iniciando sua expansão até a América), foram leitores entusiastas de Adam Smith e David Ricardo. Liberais históricos, eles ajudaram a derrubar o mercantilismo definitivamente. Denunciaram a escravidão e tudo o mais que estivesse no caminho da livre empresa. É uma publicação histórica, com um passado louvável.


Recentemente, este jornal inglês declarou que José Serra seria melhor presidente para o Brasil do que sua oponente, do Partido dos Trabalhadores. Dilma Rousseff e Lula, para o semanário britânico, defendem uma maior presença do Estado na economia. Segundo o periódico, os dois são fracos e pouco empenhados no combate ao déficit público. Além disso, estariam os petistas ‘muito confortáveis’ no poder. Por isso, uma mudança ‘por cima’ seria aconselhável (já que nos fundamentos, segundo o periódico, os dois concorrentes do segundo turno são muito parecidos, e nenhum deles representa perigo para a livre-empresa).


Acreditam os editores do Economist que Serra, por seu histórico, seria mais competente em reduzir o desperdício e o déficit das contas públicas. E com o governo livre da obrigação do controle macroeconômico, sobraria espaço e tempo para que capitais privados fossem atraídos para investimentos em infra-estrutura, raciocinam os anônimos articulistas da publicação britânica.


Não há nada de especial no apoio deste jornal ao candidato Serra. The Economist é um praticante do jornalismo cívico. Assume posições e defende ideias que considera corretas, geralmente do ponto de vista social ou político. Nunca fugiu do credo liberal do século 19. Seus editores atuais orgulham-se disto. O jornal conservador, que apoiou a Guerra do Vietnã, os governos Reagan e Thatcher e as reformas do FMI, agora apoia os cortes nos programas sociais na Inglaterra e a candidatura de José Serra no Brasil. Não há nada de novo ou especial nisto.


O jornal inglês (que, vez por outra defende algumas causas progressistas, como o casamento gay e a candidatura do ex-presidente Clinton), é um baluarte do liberalismo clássico. O mais antigo e tradicional periódico liberal ainda em circulação. Sua simpatia por José Serra significa simplesmente a compatibilidade das ideias deste candidato com as posições editoriais desta publicação em defesa do conservadorismo fiscal e do mercado livre. Nada mais que isso.

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Consultor de Urbanismo, professor e tradutor

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