Quarta-feira, 24 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1010
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Tribuna da Imprensa deixa de circular

Por Luiz Antonio Magalhães em 02/12/2008 na edição 514

Um editorial ocupando toda a primeira página, assinado pelo jornalista Hélio Fernandes [ver abaixo], anunciou na segunda-feira (1/12) a suspensão temporária das atividades do jornal Tribuna da Imprensa. Segundo Fernandes, a Tribuna está deixando de circular devido à impossibilidade de pagar dívidas contraídas em função de perseguições sofridas durante a ditadura militar (1964-85). O jornalista também acusa o Supremo Tribunal Federal de morosidade por não julgar o pedido de indenização feito à União, justamente pelas perseguições durante o regime de exceção.



Com a indenização, esclarece Fernandes no texto, seria possível quitar a dívida e manter a Tribuna em funcionamento. Segundo o site Comunique-se, o jornal não deverá demitir ninguém e os funcionários receberão seus compromissos assim que sair a indenização.


Fundada em 1949 por Carlos Lacerda, a Tribuna da Imprensa teve um papel relevante durante o segundo governo de Getúlio Vargas. Ferrenho opositor do então presidente, Lacerda sugeriu, em editorial publicado uma semana após o atentado da Rua Tonelero, em 5 de agosto de 1954, que o presidente renunciasse ao cargo. No atentado, Lacerda foi ferido e o major Rubens Vaz, assassinado. Já no dia seguinte o dono da Tribuna atribuía a Vargas a culpa pelo episódio. Com o suicídio de Vargas, na madrugada de 24 de agosto, o jornal foi invadido por simpatizantes de Getúlio e empastelado.


Censura prévia


Em 1962, dificuldades financeiras levaram Carlos Lacerda a vender o jornal para Manuel Francisco Nascimento Brito, genro da Condessa Pereira Carneiro, dona do Jornal do Brasil. O jornalista Alberto Dines, que chefiava a redação do JB, acompanhou a transição de um dono para outro e, depois, durante o ano, foram realizadas tentativas para ‘relançar’ o jornal – participaram do processo Mário Faustino, Hermano Alves e Maurício Cibulares.


Os jornalistas Carlos Castello Branco e Armando Nogueira, que estavam no Jornal do Brasil, chegaram a ser deslocados para a Tribuna, onde assumiriam duas colunas, uma sobre política, outra sobre esportes. Com o fracasso do projeto, os dois foram reintegrados ao JB, mas a idéia das colunas vingou: nasciam a Coluna do Castello e Na Grande Área. No final do ano de 1962, Nascimento Britto decidiu vender a publicação ao jornalista Hélio Fernandes, detentor do título até hoje.


Durante a ditadura militar, o jornal permaneceu 10 anos sob censura prévia e foi um dos mais prejudicados e perseguidos veículos de mídia do país. Em 1981, a sede do jornal chegou a ser vítima de um atentado a bomba, cujos autores seriam simpatizantes da linha-dura do regime.


A seguir, o editorial de Hélio Fernandes sobre a suspensão das atividades do jornal.


***




A TRIBUNA INTERROMPE MOMENTAMENTE A CIRCULAÇÃO POR CULPA DA JUSTIÇA MOROSA, TENDENCIOSA, DESCUIDADA, DISPLICENTE, VERDADEIRAMENTE INJUSTA E AUSENTE, TÃO DITATORIAL QUANTO A DITADURA


O douto procurador-geral da República, Claudio Fonteles, recusou o AGRAVO da União, identificando-o como PROTELATÓRIO.


O imodesto ministro Joaquim Barbosa recebeu o AGRAVO da União, sabendo que era PROTELATÓRIO. Levou 2 anos e meio para entender.


Com a mente revoltada e o coração sangrando, escrevo serenamente, mas com a certeza de que é um libelo que atinge, vai atingir e quero mesmo que atinja o sistema Judiciário. As palavras que coloquei como título desta comunicação representam a ignomínia judicial, que se considera poderosa e inatingível, mas é apenas covarde e insensível.


Retira-se dessa acusação global apenas a primeira instância. O juiz que em 1979 recebeu a ação desta Tribuna da Imprensa examinou imediatamente a questão e dividiu a ação em duas. Uma chamada de LÍQUIDA, que decidiu imediatamente e que, lógico, foi objeto de recursos indevidos, malévolos e protelatórios, que é a que está na mesa do ministro Joaquim Barbosa.


A outra, denominada de ILÍQUIDA, juntava e junta prejuízos ainda maiores, como desvalorização do título do jornal, lucros cessantes, páginas em branco durante 10 anos, perseguição aos anunciantes, que intimidados pessoalmente pelo então diretor da Receita deixavam de anunciar.


(Esse diretor da Receita Federal, Orlando Travancas, era feroz na perseguição e na intimidação. Não demorou muito, foi flagrado em crime de extorsão e corrupção, não quiseram prendê-lo, seria desmoralização para o regime. Foi aposentado luxuosamente, com proventos financeiros ‘generosos’).


A ação ILÍQUIDA dependia de PERÍCIA, que vem desde 1982, e não foi feita por irresponsabilidade e falta de interesse de dois lados. Acreditamos que agora andará em velocidade para recuperar o tempo perdido. Na ação dita LÍQUIDA, o competente juiz de primeira instância, cumprindo o seu dever, sem temor ou dificuldade, condenava a União ao pagamento da INDENIZAÇÃO devida a esta Tribuna.


Que sabendo dos obstáculos que enfrentaria, dos sacrifícios a que seria submetida, assumiu sem qualquer restrição a resistência ao autoritarismo e à permanente e intransigente defesa do interesse nacional, tão sacrificado. ‘Combatíamos o bom combate’, como disse o Apóstolo Paulo.


De 1982 (primeira e única sentença) até este ano de 2008 (26 anos), a decisão do competente juiz de primeira instância foi naufragando na impunidade, no descuido, na imprudência dos chamados MAGISTRADOS SUPERIORES.


Nesses 26 anos, desembargadores que não tinham nenhum adjetivo, mas lutavam arduamente para ganhar a complementação de DESEMBARGADORES FEDERAIS, nem ligavam para a justiça ou a injustiça. Importantes, se consideravam insubstituíveis e incomparáveis, não queriam que alguém pensasse ou admitisse que eram inferiores. Lógico, cuidando da ambição pessoal, não podiam perder tempo FAZENDO JUSTIÇA. Que era o que o juiz de primeira instância compreendeu e decidiu imediatamente.


Em 26 de março de 1981, a ditadura agonizante mas vingativa explodiu prédios, máquinas e demais dependências desta Tribuna. Podíamos acrescentar isso na própria ação ou começar nova, com mais esse prejuízo colossal. Não quisemos. É fato também facilmente comprovável, não protestamos nem reivindicamos judicialmente em relação a mais esse terrorismo. Financeiro, econômico, irreparável.


Outro fato que também é acusação contra DESEMBARGADORES FEDERAIS facilmente comprovável verificando o andamento, quer dizer, a paralisação do processo: vários DESEMBARGADORES FEDERAIS ficaram 2, 3 e até 4 anos com o processo engavetado. Alguns devolviam o processo pela razão maior de todas: caíam na EXPULSÓRIA. Mas continuavam fazendo parte do esquema e sistema de atrasar a eficácia da prestação jurisdicional. Necessária nova distribuição, isso era feito lentamente, esqueciam inteiramente da importância de fazer justiça.


E o próprio Supremo Tribunal Federal não pode ser considerado INOCENTE ou DESCONHECEDOR do processo. Pois há quase 3 anos ele está na mesa do ministro Joaquim Barbosa, ‘esperavam um negro subserviente, encontraram um magistrado que veio para fazer justiça’. Na prática está desmentindo a teoria. Negro ou branco, não importa a cor e sim a I-N-S-E-N-S-I-B-I-L-I-D-A-D-E como magistrado.


O ministro Joaquim Barbosa, do STF, com extrema boa vontade, recebeu o recurso inócuo da União, verdadeira litigância de má-fé, que sabia ser apenas PROTELATÓRIO. Os autos estão descansando em seu gabinete desde abril de 2006. Postura diferente adotou o douto procurador-geral da República, Cláudio Lemos Fonteles, que há mais de 2 anos já fulminara o teratológico recurso como INADMISSÍVEL, sem razão de ser, vez que almeja REDISCUTIR o que já tinha sido pacificado nas instâncias inferiores, ou seja, o direito líquido e certo desta Tribuna da Imprensa ser indenizada por conta de danos morais e prejuízos materiais de vulto que sofrera, em decorrência de atos truculentos e de censura permanente dos governantes dos anos de chumbo e que quase levaram o jornal à falência.


Inexplicavelmente, repita-se, o bravo (ou bravateiro?) Joaquim Barbosa aceitou o afrontoso apelo da União que nem deveria ser conhecido, por conta quem sabe de um cochilo, displicência ou então não tem a sabedoria jurídica que tanto apregoa.


Não quero ir mais longe, lembrar apenas o seguinte: a Tribuna da Imprensa não será FECHADA pela indolência da Justiça, que, sem perceber, a castiga tanto ou mais do que a ditadura, na medida em que por inaceitável MOROSIDADE está retardando a implementação da execução de sentença condenatória da ré, União Federal, e sua maior devedora.


ASSIM, suspenderemos por alguns meses a circulação deste jornal, que entra, coincidentemente, no ano 60 da sua existência. 14 com Carlos Lacerda, 46 com este repórter. Não transigimos, não conversamos, não negociamos a opinião aberta e franca pela recompensa escondida mas relevante. Poderíamos ter cedido, concedido, concordado, conquistaríamos a riqueza falsa e inconsciente, mas GLORIOSA E DURADOURA.


Vivemos num mundo dominado pela VISIBILIDADE e a RECIPROCIDADE. Como não nos entregamos nunca, como ninguém neste jornal distribui visibilidade para receber reciprocidade, estamos em situação dificílima.


Nesse quadro, já dissemos e reiteramos que essa primeira indenização será toda destinada ao pagamento de DÍVIDAS obrigatórias contraídas por causa da perseguição incessante comprovadamente sofrida.


Em matéria de tempo, uma parte do Judiciário foi mais ditatorial do que a ditadura. Esta perseguiu o jornal das mais variadas formas, por 20 anos. A Justiça quer ver se chega aos 30 anos, por conta de sua repugnante MOROSIDADE, TÃO RUINOSA e imoral quanto a ilimitada violência perpetrada pela ditadura.


Se vivo fosse, o jurista Ruy Barbosa por certo processaria os lenientes julgadores do processo indenizatório ajuizado pela Tribuna contra a União há quase 30 anos e sem pagamento algum até hoje, porque para Ruy, que é tão festejado e citado, mas não imitado, JUSTIÇA ATRASADA NÃO É JUSTIÇA, SENÃO INJUSTIÇA QUALIFICADA E MANIFESTA. Até breve. Muito breve.


PS – ‘A única coisa que devemos temer é o próprio medo. O medo inominável, injustificável, sem razão de ser. Medo que paralisa os esforços e transforma um avanço vitorioso numa derrota ou numa retirada desastrosa’. Franklin Delano Roosevelt, 4 de março de 1933. Um dia antes de tomar posse pela primeira vez como presidente e já pronto para lançar o New Deal.

******

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