Terça-feira, 25 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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FEITOS & DESFEITAS >

Um aliado ao interesse público

Por Regiane Santos em 16/06/2009 na edição 542

Mesclar uma apuração concisa a um primoroso texto. Embora a premissa pareça impossível de ser aplicada ao jornalismo, a afirmação concretiza-se no livro-reportagem, no qual o repórter preza por uma detalhada investigação revelada ao leitor através de um agradável e dinâmico texto repleto de minuciosos detalhes responsáveis pela reconstituição fidedigna de histórias reais.

Ao pautar sua carreira pelo interesse público, um dos ideais da profissão, repórteres são capazes de produzir livros-reportagem, um diferenciado produto jornalístico disponível no mercado. ‘Veículo de comunicação não-periódico, o livro-reportagem é um produto cultural contemporâneo bastante peculiar. De um lado, amplia o trabalho na imprensa cotidiana, como que concedendo uma espécie de sobrevida aos temas tratados pelos jornais, pelas revistas, emissoras de rádio e televisão. De outro, penetra em campos desprezados pela superficialidade tratados pelos veículos jornalísticos periódicos, recuperando para o leitor a gratificante viagem pelo conhecimento da contemporaneidade’ (OLIVEIRA, Priscila Natividade Dias).

Munido de perseverança e determinação, o jornalista incorpora o espírito idealista para trilhar o árduo caminho rumo à profunda e coesa apuração, quesito básico para a produção de um livro-reportagem.

‘Captam-se as informações através de entrevista, observação participante, memória (resgate de riquezas psicológicas e sociais), documentação e visão pluridimensional simultânea (combinação de fluxos de consciência e monólogos interiores).

Além do gravador e das anotações, o repórter conta ainda com um mapa mental que combina anotações sobre a fala, os gestos, o timbre de voz e o comportamento dos entrevistados’ (PRIZEBISEZKI, Cristiane de Azevedo).

O repórter-detetive

A apuração do fato eleito pelo repórter para direcionar a angulação do livro-reportagem até a sua redação pode perdurar por anos a fio, como em Rota 66, a história da polícia que mata, de Caco Barcellos.

A pauta que nasceu de minuciosas observações do jornalista durante a leitura diária do extinto jornal Notícias Populares e apontava pistas para uma realidade permeada pela injustiça, porém desconhecida de grande parte da população, mas trazida à tona pelo livro-reportagem. ‘O caráter de denúncia social é uma das características mais marcantes do Rota 66. A inconformidade do jornalista diante das mortes de supostos bandidos o leva a uma investigação profunda que resulta em uma denúncia comprobatória sobre os abusos da ação policial na cidade de São Paulo’ (GUZZO, Morgani).

Durante 22 anos, o repórter da Rede Globo de Televisão mergulhou no cruel universo da injustificada matança de afrodescendentes inocentes, residentes em periferias de São Paulo, praticada pelos responsáveis por zelar pela vida.

‘As denúncias de Caco Barcellos são fundamentadas no banco de dados por ele criado, juntamente com colaboradores, para contabilizar os crimes praticados pela polícia em supostos tiroteios, no período de abril de 1970 a junho de 1992. A pesquisa foi organizada com base em cinco fontes: Notícias Populares (NP), Instituto Médico Legal (IML), Justiça Civil, Justiça Militar e Polícia Civil.

Após sete anos de investigação (de 1985 a 1992), Caco Barcellos revelou que 4.179 pessoas foram assassinadas nesses 22 anos de ação policial. Desse total, o jornalista conseguiu consultar os antecedentes criminais de 3.523.

De 3.523 pessoas, 1.496 praticaram algum tipo de crime.

2.027 pessoas assassinadas não praticaram qualquer tipo de crime, o que significa que mais de 57% das vítimas da PM são inocentes.

Do total de 4.179 pessoas assassinadas, o jornalista conseguiu saber a cor de pele de 3.944 vítimas. Desse número de 3.944, 1.932 pessoas eram brancas, 2.012 eram negras e pardas, o que representa 51% das vítimas da PM’ (MOURA, Sandra).

Minúcias da injustiça

O texto produzido para um livro-reportagem atém-se a detalhes que garantem vida à história real, transportando os leitores à cena narrada no suporte impresso. ‘Com um enfoque diversificado, estrutura literária e investigação profunda, acontecimentos ganham caráter humano e criativo nas páginas do livro, tornando-se além de um documento jornalístico, uma obra literária’ (GUZZO, Morgani).

Através de um texto fluente, caracterizado por Edvaldo Pereira Lima, autor de Páginas Ampliadas, ‘pela elegância obtida dos recursos literários’ (GUZZO, Morgani), o livro-reportagem esquiva-se da pirâmide invertida. Tem ‘…possibilidade de atuar livremente na composição de uma história real, sem as amaras da ditadura do lead e das normas impostas pelo gênero. As possibilidades literárias, unidas à veracidade e temática jornalística, abrem espaço para uma reportagem mais atraente, aprofundada e dinâmica aos olhos do leitor, sem deixar de lado os princípios que regem o fazer jornalístico’ (OLIVEIRA, Priscila Natividade Dias Santos).

Em Rota 66, Caco Barcelos abusa das minúcias ao longo do livro-reportagem, transportando os leitores para as cenas descritas na narrativa real, bem como proporciona, através de um detalhado perfil, a constituição mental dos personagens mencionados pelo repórter. ‘Ao longo das páginas, Barcellos desvenda cada assassinato, descreve as cenas, o cenário, a personalidade dos envolvidos (tanto os policiais quanto as vítimas), transcreve diálogos, pensamentos e ações das mais diversas formas. Elementos narrativos como estes usados pelo jornalista, fazem de Rota 66 um gênero híbrido, contento características da literatura e do jornalismo investigativo’ (GUZZO, Morgani).

Um gênero pouco explorado

Embora o livro-reportagem cumpra a nobre função de desnudar injustiças sociais desconhecidas por uma considerável parcela da sociedade, ele, infelizmente, não caiu no ‘gosto’ da maioria dos profissionais da área. ‘O livro-reportagem ainda não é produzido em larga escala no Brasil e isso nada tem a ver com os recursos disponíveis, com o tempo e com o consumo por parte dos leitores. Ainda não se fazem livros-reportagem em larga escala no Brasil por uma questão de mentalidade fechada, desconhecimento, preguiça, burocracia e um certo autojulgamento moral. O fato é que ainda é mais cômodo deixar tudo como está: cada vez menos interessante e quase sem repercussão’ (GUZZO, Morgani).

Infelizmente, o jornalismo que preza o interesse público tem sido esquecido, especialmente por uma grande parcela da nova geração de jornalistas que se preocupa somente em reportar os fatos à população através de uma apuração superficial e redação resumida, presas às amaras impostas pelo mercado editorial.

Mas, felizmente, existem livros-reportagem já imortalizados como o Rota 66 que devem ser utilizados pelos professores nos cursos de Jornalismo, tentando, assim, despertar, nos universitários a paixão pela reportagem, que pode ser materializada através da produção de um livro-reportagem.


Bibliografia

GUZZO, Morgani. Jornalismo Investigativo e Literatura: o livro-reportagem atuando na denúncia social. Disponível aqui:

http://www.unicentro.br/pet/pdf/08_morgani.pdf [Consultado em junho de 2009]

MOURA, Sandra. Caco Barcellos: o repórter e o método. João Pessoa, Editora Universitária, 2007.

OLIVEIRA, Priscila Natividade Dias Santos. Jornalismo literário: como o livro-reportagem transforma um fato em história. Disponível aqui:

http://intercom.org.br/papers/nacionais/2006/resumos/R0717-1.pdf [Consultado em junho de 2009]

PRIZIBISCZKI. Cristiane de Azevedo. A práxis do livro-reportagem: teoria e prática em diálogo. Disponível aqui:

http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2007/resumos/R1109-2.pdf [Consultado em junho de 2009]

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Jornalista, assessora de comunicação freelance e colunista do Jornal Aqui, Pedro Leopoldo, MG

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