Domingo, 18 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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FEITOS & DESFEITAS >

Um caminho para o jornalismo no interior

21/04/2009 na edição 534

Notícias influenciam as decisões políticas, sociais e morais de uma sociedade, especialmente nas cidades do interior. Em municípios com menos de 100 mil habitantes e afastados geograficamente de centros urbanos, os jornais impressos locais influenciam, nitidamente, a sociedade. ‘Os meios de comunicação transformam de forma fundamental a organização da vida social’ (CORREIA, João Carlos).

Infelizmente, uma considerável parcela dos ‘jornais de interior’ limita suas notícias ao bom e velho trinômio: política, sociedade e polícia. Editores estampam freqüentemente nas páginas de seus periódicos notícias de crimes ilustradas com grandes imagens sensacionalistas; notas sobre os bastidores da política sem a devida checagem e fotos posadas de cidadãos que pertencem à classe econômica privilegiada daquela cidade.

Grande parte dos jornalistas, seduzidos pela ascensão social, sente-se honrada em oferecer seus apurados ouvidos às confidências de políticos interessados em autopromoção para vencer as próximas eleições. Os profissionais da comunicação dispendem ainda boa parte de seu tempo a eventos nos quais integrantes da alta casta promovem fúteis badalações que são noticiadas pelas colunas sociais com fotos posadas seguidas por legendas repletas de adjetivos.

Declarações inócuas

Através deste círculo vicioso, a população local permanece ‘amputada’ de boas informações sobre sua comunidade. Para comprometer ainda mais a qualidade das informações ofertadas ao público, o repórter que atua no interior depara com entraves para acessar estatísticas, dados e números públicos, uma vez que eles só são fornecidos caso não provoquem incômodo e/ou transtornos àqueles que detêm o poder.

‘Os atores que são beneficiados com a assimetria de informações se dão conta dos ganhos que podem obter com a manutenção de um status quo assimétrico. Isso vale para o prefeito, que pode usar o dinheiro para outros fins, o professor, que pode ser preguiçoso, e o mecânico, que cobra mais do que deveria, porque detêm mais informações que o indivíduo no qual o poder estava originalmente alocado, mas que foi forçado, dadas as circunstâncias da modernidade, a delegá-lo’ (CANELA, Guilherme; NASCIMENTO, Solano).

Sem concisas informações em mãos, o jornalista povoa as páginas do jornal local com notícias factuais baseadas em declarações inócuas provenientes de fontismos que não contribuem para a consolidação de um olhar crítico sobre os problemas da comunidade.

O cidadão nos processos de decisão

Valendo-se da premissa de que o jornalismo contribui para ‘aumentar a eficiência do poder público, diminuir a corrupção e elevar a accountability‘ (CANELA, Guilherme; NASCIMENTO, Solano), o repórter que atua em veículos de comunicação em cidades de interior deve incorporar o espírito de jornalista investigativo e transmutar dados oficiais em pontos de partida para pesquisas.

Munidos de ferramentas provenientes de jornalismo de precisão e outras técnicas das Ciências Sociais, os profissionais da comunicação podem produzir reportagens sustentadas por sólidas informações que aguçam o senso crítico de formadores de opinião, responsáveis por reivindicar aos governantes efetivas ações que garantam o bem-estar coletivo, pois ‘à comunicação social local cabe a insubstituível tarefa de promover o envolvimento do cidadão nos processos de decisão, através de incentivo ao conhecimento, discussão e diálogo’ (CARVALHEIRO, José Ricardo).

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Jornalista, blogueira e assessora de comunicação freelance, Pedro Leopoldo, MG

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