Quinta-feira, 21 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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FEITOS & DESFEITAS >

Um caricaturista no escuro

Por David Margolick em 04/02/2009







David Levine, talvez o maior caricaturista desde os tempos de Daumier, não
poderá registrar a era Barack Obama, que começa agora. Sua visão foi afetada por
uma degeneração macular e tornou hesitante o traço preciso com o qual, há quase
cinquenta anos, demole biografias e ilumina, satiriza e alfineta todos os
presidentes americanos do século XX.


Um drama agudo feriu a celebrada revista literária The New York Review of
Books
ao longo de todo o ano de 2006. Nada a ver com o conteúdo de algum de
seus artigos sobre política ou cultura. Nem com as discussões tipicamente
biliosas de sua seção de cartas. Ou com os anúncios pessoais altamente
instigantes da última página. O drama se desenrolou em torno das magistrais
ilustrações do caricaturista David Levine, que há 45 anos se confundiam com a
identidade da revista.


À primeira vista, a safra 2006 de Levine para a Review era a esperada:
Jimmy Carter, George Soros, Colin Powell, além da variedade habitual de
romancistas, cientistas, poetas, tiranos e acadêmicos, vivos ou mortos. A
irreverência do ilustrador também continuava intacta: Vladimir Putin vestindo um
manto de monarca; os lábios do juiz da Suprema Corte Samuel Alito, recém-saído
das herméticas sabatinas de confirmação pelo Senado, fechados por um zíper.


Para quem conhecia bem o trabalho de Levine, no entanto, havia algo de
essencialmente errado nos traços. Os desenhos eram mais pobres, mais grosseiros,
mais hesitantes. Até mesmo a assinatura, o ‘DLevine’ despretensioso e confiante
que sempre se aninhava no mesmo lugar, ao pé da ilustração, ficara diferente:
tornara-se trêmulo e errático, quase ilegível. Às vezes, vazava para fora da
moldura.


Nome no expediente


Se poucos notaram a mudança foi porque suas caricaturas mais clássicas e
antigas para a Review – num total de mais de 3 800 – continuavam a ser
publicadas na revista. Somente quando os desenhos antigos eram justapostos aos
mais recentes, às vezes na mesma página, o contraste se tornava óbvio.


Embora boa parte dos quase 140 mil assinantes da Review possa não ter
notado a diferença, para os profissionais do meio artístico acompanhar a
decadência dos trabalhos de Levine a cada novo número da publicação foi como
assistir à queda de um colosso.


Uma ponta do drama transcorria na Henry Street, no bairro nova-iorquino de
Brooklyn Heights, onde Levine, hoje com 82 anos, viveu e trabalhou a maior parte
de sua vida. Ali, mesmo com o recurso de luzes fortes e lentes de aumento, seu
universo foi ficando mais sombrio e indistinto. Ele simplesmente não conseguia
mais enxergar com nitidez. Tampouco podia confiar na destreza da mão – perdera o
controle sobre as linhas que sempre se submeteram à sua vontade. Tanto os traços
despojados com que definia os contornos de seus retratados, quanto o complexo
trançado que lhes dava alma, lhe escapavam. Seu oftalmologista fora claro: ‘Sr.
Levine, o senhor é muito bem conservado para sua idade. Mas não os seus olhos.’
O diagnóstico: degeneração macular.


Remédios e injeções não funcionaram. Levine continuou a trabalhar com enorme
esforço. Trocou pena e tinta pelo lápis, que, nas suas palavras, ‘perdoa mais
quando eu erro’. Ainda assim, os resultados ficavam aquém do esperado. E pela
primeira vez – com exceção das poucas ocasiões em que seus desenhos foram
considerados corrosivos demais pela publicação – a New York Review of
Books
passou a recusar seu trabalho.


Enquanto isso, na redação, tida como porta-estandarte da intelligentsia
progressista americana, ninguém sabia o que fazer. Num primeiro momento, foi
discutido se a revista deveria publicar o que Levine enviava. Numa segunda
etapa, pararam de lhe encomendar ilustrações – seu último desenho, feito sob
encomenda, foi publicado em abril de 2007. Por fim, a Review recorreu ao
trabalho de outro ilustrador, cujo estilo lembra o de Levine, mas que não tem
nem uma fração de sua sagacidade e senso de humor. Ainda assim, Levine continua
a constar no expediente como ‘ilustrador titular’. Tanto para o fundador e
editor da Review, Robert Silvers, quanto para Rea Hederman, o atual dono
e diretor, qualquer sugestão em contrário seria um despropósito. ‘Vejo-o como
alguém que produziu coisas magníficas para nós, e talvez ainda venha a fazer
outras tantas’, diz Silvers.


Ordem alfabética


Em quase três décadas de Nova York, eu nunca tinha encontrado ou visto David
Levine em pessoa. Sabia pouca coisa a seu respeito. Mas por degustar o seu
trabalho na Review a cada quinzena, anos a fio, o considerava uma figura
familiar, quase um amigo. Quando sua produção começou a ficar mais esparsa, e
depois desaparecer por completo das páginas da Review, fiquei intrigado.
Alguém mencionou que ele estava doente, mas nunca li nada a respeito na
imprensa. Em março passado, compareci a uma homenagem a outro grande iconoclasta
do jornalismo, o falecido I. F. Stone, e lá estava Levine. Ele tinha
caricaturado Stone, é claro – pelo menos três vezes. Uma das versões foi
publicada na capa de uma coletânea dos artigos de Stone. ‘David Levine!’,
exclamei. ‘Tenho sentido a sua falta! Está tudo bem?’


Infelizmente, nenhum tratado de oftalmologia fala em regeneração macular. Na
tentativa de retomar o trabalho, Levine testou um aparelho eletrônico que, em
tese, lhe devolveria alguma percepção de contraste nas fotografias em que baseia
suas caricaturas. Também imaginou que seus desenhos a lápis passariam no teste
de qualidade da Review. Mas isso não ocorreu, embora nenhuma das partes
envolvidas admita o óbvio: uma das carreiras mais notáveis da história do
jornalismo e da arte está quase encerrada.


Só Al Hirschfeld, o indômito ilustrador do New York Times, que
trabalhou quase até morrer, cinco anos atrás, aos 99 anos, teve uma atuação tão
duradoura e indelével. Mas Hirschfeld produziu uma obra apolítica, enquanto a de
Levine é politicamente carregadíssima. Algumas das primeiras vítimas de sua
pena, como a escritora Lillian Hellman, chegaram a implorar para serem poupadas
do seu traço. Com o passar do tempo, porém, ocorreu uma reviravolta: ser
desenhado por Levine, mesmo com crueldade, equivalia a um certificado de
distinção.


Para quem quiser ter uma idéia da incrível abrangência de sua obra, basta
mergulhar em alguma das gavetas rasas da antiga mapoteca de madeira do seu
ateliê, onde as caricaturas estão arrumadas por ordem alfabética. Abri na letra
C, e lá estava Churchill: visto de costas, identificável apenas pela forma do
corpo, sua paleta e seu charuto. Depois, numa ordem
aleatória: Cheney (Dick). Carmichael (Stokely). Le Carré (John). Church (Frank).
Carroll (Lewis). Castro (Fidel), em várias poses: uma
como jogador de beisebol, outra brandindo uma foice. César e Calígula.
Calhoun (John C.). Cunningham (Merce). Connolly (Cyril).
Cuomo (Mario). Chirac. Von Clausewitz. Colette. Clifford (Clark). Chesterton.
Cromwell. Chaucer. Clinton (Bill). Carlos V. Califano (Joe). Cheever. Carswell
(G. Harrold). Colombo. Child (Julia). Cullen (Countee).
Clark (Ramsey). Chomsky. Chateaubriand. Callas. Curzon (Lord).


Abstrato e mal definido


Como o editor Robert Silvers e sua co-editora de muitos anos, a falecida
Barbara Epstein, sempre lhe pediam retratos novos, Levine acabou desenhando
inúmeras personalidades várias vezes, sempre refinando e atualizando as
caricaturas. Trabalhou tempo suficiente para gravar rugas em W.H. Auden,
acompanhar a queda dos cabelos de Philip Roth, registrar os fios grisalhos de
Susan Sontag.


Basta digitar um nome qualquer na ‘David Levine
Gallery
‘, no site da Review, para encontrar
uma quantidade impressionante de retratos: 66 Richard Nixon, 41 Lyndon Johnson,
23 Ronald Reagan, 16 Sigmund Freud, 14 Norman Mailer, 13 Charles de Gaulle, 12
Jimmy Carter, 11 Adolf Hitler, 10 William Shakespeare, 9 Jean-Paul Sartre, 8
Bertrand Russell, 7 Menachem Begin, 6 Ernest Hemingway, 5 Marcel Proust, 4
Khomeini, 3 Bernard Berenson, 2 Elvis Presley e 1… bem, são centenas e
centenas de retratos. E boa parte do que saiu na Review sequer está
arquivado no site. Sem falar dos desenhos feitos para outras publicações.


David Leopold, o curador que passou os últimos três anos catalogando a obra
de Levine, estima que só metade das caricaturas foram feitas para a
Review. Até agora, encontrou mais de mil delas produzidas para a revista
Esquire, quase 100 para a Time, 71 para a New Yorker, e
muitas outras para o Washington Post, a Rolling Stone, a Sports
Illustrated
, a New York e mais uma legião de publicações menos
conhecidas. Mas é com a New York Review of Books que o traço de David
Levine está umbilicalmente ligado. Mesmo quando vemos um de seus desenhos em
outra publicação, é a Review que vem de forma automática à mente.


A imortalidade da sua obra parece garantida. ‘Ninguém pensará em publicar a
biografia de certos personagens retratados por Levine sem incluir um dos seus
desenhos’, prevê outro ilustrador de peso, Edward Sorel. ‘O que ele criou será
reproduzido para sempre.’ O escritor Richard Ellmann lembra que certa vez
deparou-se com Hannah Arendt, Saul Bellow, Stephen Spender, Dwight Macdonald e
outros luminares literários numa festa. Ele teve a sensação de estar vendo ‘uma
coleção completa de rostos caricaturados por David Levine, bebendo, conversando,
sentados em sofás excessivamente estofados e passando patê de fígado em
biscoitos salgados’, escreveu. ‘Não havia naquela sala um rosto que não evocasse
uma página da New York Review of Books.’


Na parede da cozinha do artista, ao lado do telefone, está pendurado um
exemplar do Calendário David Levine, anualmente enviado como brinde aos
assinantes fiéis da Review. O mês de março de 2008 traz uma caricatura de
Abraham Lincoln da qual o autor não gosta muito, por acreditar que o seu Lincoln
exibe uma expressão de desprezo. ‘Esta escapou um pouco ao meu controle’,
lembra. Lapso raro, pois se atribui a Levine uma percepção excepcionalmente
aguda da alma dos retratados. ‘Sempre me atribuíram uma capacidade de captar
superior à de qualquer psicanalista de renome’, espanta-se. Mas isso é passado.
Hoje, longe de poder fazer retratos definitivos de seus personagens, David
Levine tem dificuldade até de lembrar quem eles são.


Ao longo dos anos, Levine produziu algumas autocaricaturas, nas quais se
retrata com a habitual acidez. Os ‘David’ de David Levine são corpulentos,
trôpegos e amarfanhados, com os cabelos emaranhados e penteados para trás, e um
nariz enorme que parece uma chaminé. É no quarto de dormir que ele guarda um dos
seus poucos auto-retratos a óleo, de 1965. Em contraste com as caricaturas,
finamente trabalhadas, nesse quadro seu rosto é abstrato e mal definido –
bastante próximo de como ele vê a vida e os outros hoje em dia.


Em forma de feto


Nascido no Brooklyn, em 1926, Levine cresceu num mundo proletário e
politizado. Seu pai era dono de uma pequena confecção. Sua mãe, militante de
esquerda, era do tipo que abordava o policial mais ameaçador numa passeata e
dizia: ‘Sabe que você não passa de um cossaco?’ Levine distribuía o Daily
Worker
[jornal que o Partido Comunista Americano começou a publicar em 1924]
pelas docas do Brooklyn, e assistia às manifestações do 1º de maio na Union
Square. Tinha um ateliê ao lado do escritório de Rudolf Abel, o espião soviético
preso em 1957, e depois trocado por Francis Gary Powers, piloto do U-2 americano
derrubado sobre a União Soviética. Os laços de amizade com Abel podem explicar
por que dois agentes do FBI bateram à sua porta nos anos 50, quando Levine se
preparava para fazer a primeira viagem à Europa, onde estudaria arte. Foi
informado de que estava proibido de embarcar.


Ele ainda se considera comunista: os soviéticos é que se perderam no caminho
da história. E sendo assim, Stálin (retratado por ele pelo menos dez vezes) pôde
receber o tratamento costumeiro: numa das versões, aparece ladeado pelos corpos
sem cabeça de todos os generais que assassinou.


Levine começou a desenhar ainda menino, retratando raposas e esquilos
empalhados. A maior parte dos seus primeiros trabalhos a óleo, de grandes
dimensões, foi destruída por um incêndio no ateliê que ocupava no Brooklyn. A
partir daí, passou a se dedicar a pinturas menores, além de aquarelas, que
alguns apreciadores, como Edward Sorel, consideram o melhor da sua obra. Esses
quadros estão pendurados ou encostados nas paredes do apartamento em que mora
com a segunda mulher, Kathy Hayes, e representam o trabalho de quatro décadas.
Boa parte gira em torno do seu tema favorito: Coney Island, a popular praia de
sucessivas gerações de imigrantes desembarcados em Nova York.


Outras obras retratam trabalhadores do ramo da confecção: passadores,
cortadores e acabadores, musculosos e suados, oprimidos e dignos. Na verdade,
todos esses personagens, inclusive as mulheres debruçadas sobre máquinas de
costura, retratam ele próprio, afirma Levine. As pinturas exalam a compaixão e o
afeto deliberadamente ausentes das caricaturas. Estas, produzidas sempre sob
encomenda, é que pagavam as contas, explica o artista. Mas poucas adornam as
paredes de sua casa, embora goste delas.


No início da carreira, Levine sobreviveu trabalhando para publicações
especializadas como Gasoline Retailer e, nos anos 50, desenhou toda uma linha de
cartões de Natal que não tiveram sucesso. Data da década seguinte o início de
sua colaboração com a Esquire onde, ao lado de Edward Sorel e Jules
Feiffer, ajudou a reavivar uma tradição de caricatura política que tinha
definhado desde os dias de Honoré Daumier e Thomas Nast. Até que, em 1963,
durante uma greve dos jornais nova-iorquinos, a editora Barbara Epstein recrutou
Levine para se juntar à recém-lançada The New York Review of Books, à
qual ele logo se afeiçoou.


A partir daí, começou o ritual que prosseguiu nos quarenta anos seguintes.
Quinta-feira sim, quinta não, um mensageiro da Review entregava um
envelope no clube Heights Casino, onde Levine jogava tênis a poucos quarteirões
de seu apartamento. O envelope continha fotos das pessoas que o ilustrador
deveria retratar para a edição seguinte, juntamente com artigos a respeito dos
personagens. Os textos sobre política eram digeridos rapidamente e Levine
atacava o desenho com gula, tantas eram as possibilidades de humor que lhe
ocorriam. Já os artigos sobre teoria musical, física ou poesia representavam um
desafio. Julgava-se inculto. ‘Nunca estudei muito. Na escola só me dediquei ao
vôlei’, relembra. Levine analisava as fotos minuciosamente à procura do elemento
– o nariz, os olhos, o queixo, os cabelos, os óculos, a cabeça – que capturasse
a essência da pessoa a retratar. Não raro essa essência só se revelaria à medida
que desenhava.


O artista trabalhava em seu ateliê com todas as janelas cobertas para
bloquear a luz natural mais crua, e utilizava somente pena (uma Gillot 102) e
papel da marca Strathmore, de textura encorpada. Nunca usou legendas. ‘Se eu não
conseguisse dar conta do recado, da mesma forma que Charlie Chaplin, palavra
alguma poderia me ajudar’, diz ele. Cada ilustração lhe custava umas poucas
horas de trabalho. Na terça-feira, o mensageiro voltava ao Casino para recolher
o trabalho.


Inteligência e senso de humor garantem o seu lugar na história da arte. ‘Ele
criou as melhores piadas visuais de todos os tempos’, afirma Sorel. Levine
detesta boa parte da produção artística do século XX – é tão conservador em
matéria de estilo como radical em matéria de política – e retratou Andy Warhol
como Alfred E. Neuman [o personagem-ícone da revista Mad]. Também mostrou
Picasso descarregando um caminhão de Picassos e a calota craniana de Claes
Oldenburg como uma tampa de lata de lixo.


Depois que retratou Jackson Pollock lançando jatos de urina numa tela, diz
ele, a Review parou de lhe pedir caricaturas de artistas modernos. ‘Claro
que não foi uma decisão consciente’, explica o editor Silvers, acrescentando que
a maior parte dos artigos sobre artistas era ilustrada com os trabalhos deles
mesmos.


Hemingway pisa num tapete de pele de animal com cabeça de Hemingway. Patton
aparece apequenado dentro de um coldre gigantesco. Kenneth Starr é um aiatolá.
Osama bin Laden é uma barba longa e desgrenhada. Provavelmente a mais famosa
dentre todas as ilustrações de Levine seja uma caricatura de Lyndon Johnson.
Partindo de uma célebre foto em que o então presidente dos Estados Unidos
levantava a camisa para exibir a cicatriz de uma recente cirurgia de vesícula,
Levine criou a imagem, que se tornou ainda mais célebre, de Johnson levantando a
camisa para revelar um mapa do Vietnã. Para a revista Time, o desenho
capturou tanto a notória falta de refinamento do presidente quanto a cicatriz
indelével que a guerra deixara na sua carne e na vida do país, e minou o mandato
presidencial de forma mais eficaz do que qualquer foto. Robert Caro, biógrafo de
Johnson, conta que essa caricatura suscita, até hoje, interesse maior junto aos
leitores do que qualquer outro tópico ligado ao ex-presidente. ‘A foto em si já
incomodava as pessoas, mas foi a caricatura que a fixou na consciência
americana’, diz Caro.


Foi com Richard Nixon que Levine se mostrou o mais implacável e inesgotável.
Produziu um Nixon caracterizado como capitão Queeg [personagem do livro O
Motim do Caine
, comandante despótico que enfrenta um motim durante a II
Guerra Mundial], com bala de aço nas mãos, e um Nixon com fitas de gravador
transbordando dos bolsos das calças. Há Nixon como Don Corleone, Nixon ao lado
de Van Thieu mordendo sua canela como um cachorrinho e Nixon acompanhado de Mao
Tse-tung. Há Nixon em forma de feto, Nixon beijando Brejnev, Nixon manipulando
um fantoche com a forma do tenente William Calley [oficial responsável pelo
massacre de My Lai]. O total de 66 caricaturas do ex-presidente não inclui os
inúmeros Nixon que Levine desenhou para outras publicações.


Excesso de pele


Muitos críticos apontam Levine como o responsável pela ressurreição de uma
forma de arte moribunda, e por capturar como ninguém o espírito do seu tempo.
‘Seus desenhos são de uma inteligência impiedosa e de uma injustiça
desavergonhada’, escreveu Hilton Kramer, do New York Times, sobre uma
exposição de caricaturas realizada em 1968. ‘Os futuros historiadores dos anos
60 vão encontrar nessas imagens o melhor retrato da amargura e das críticas que
hoje tomam conta da nossa vida política.’ Inevitavelmente, surgiu uma legião de
aspirantes a Levine. ‘Nunca o imitei’, diz um deles. ‘Eu o copiava
descaradamente.’


Levine acreditava que o poder corrompe e seu desdém por qualquer pessoa em
posição de autoridade era apartidário. Tão desfavoráveis foram seus retratos de
Bob Kennedy que a viúva, Ethel, o impediu de participar de um torneio de tênis
organizado em memória do marido assassinado. John F. Kennedy, retratado dez
vezes, não teve sorte melhor. Levine também mostrou Lyndon Johnson vertendo
lágrimas em forma de crocodilo, e crocodilos vertendo lágrimas em forma de
Lyndon Johnson. Acentuou cada ruga e vinco do rosto de Ronald Reagan.
Considerava Bill Clinton (retratado nove vezes) um mentiroso dado a sofismas, um
espertalhão e, na verdade, um republicano disfarçado: mostrava o presidente ora
com a mão pousada numa pilha de Bíblias, ora comendo waffles, ora com um talo de
grama entre os dentes, ora exibindo uma tromba de elefante.


Mas Levine também sabia a hora de parar. Sempre ensinou a ilustradores jovens
que a caricatura fracassa quando distorce as pessoas além de qualquer
possibilidade de reconhecimento. Só se permitiu uma exceção com J. Edgar Hoover
(que retratou quatro vezes), mostrando-o como uma bolha disforme que lembrava
uma ameba coberta de teias de aranha. Vale lembrar: foi Hoover quem confiscara o
seu passaporte, décadas antes.


Levine admite sentir culpa pela maneira como retratou Marilyn Monroe, com um
bastão de beisebol no ombro e os lábios muito inchados, cobertos por um excesso
de batom, como se tivesse acabado de apanhar ou estivesse esperando levar uma
surra. Também se arrepende de ter retratado Oscar Wilde com uma sapatilha de
balé quase imperceptível enrolada num dos dedos: naquele tempo, explica hoje, a
questão dos gays não sensibilizava ninguém. Uma mulher com quem não teve piedade
foi Margaret Mead. Retratou-a com os seios desnudos para compensar todas as
mulheres nativas que a antropóloga expôs em seus vários estudos ao longo dos
anos.


Toda vez que Levine desenhou para publicações menos tolerantes do que a
New York Review of Books, surgiam dificuldades. O New York Times
recusou publicar uma caricatura de Nixon enfiando documentos numa trituradora de
papel, e outra de Kissinger nu, com as costas tatuadas de bombas, além de um
mapa do Vietnã, uma caveira e dois ossos cruzados. A New Yorker, por sua
vez, deixou de publicar um desenho a lápis e aquarela mostrando George W. Bush
com sua famosa jaqueta de aviador, pisando em fileiras de caixões cobertos com a
bandeira americana. (A New Yorker afirma que Levine lhe enviou o trabalho
por conta própria.)


Outro episódio envolvendo a New Yorker deixou o ilustrador bem mais
aborrecido. Ele desenhara o líder palestino Mahmoud Abbas e o então
primeiro-ministro israelense Ariel Sharon sentados em volta de uma mesa de
reunião, e, a pedido da revista, diz ele, dispusera sinistras figuras
encapuzadas brandindo metralhadoras atrás de Abbas. Em favor do equilíbrio (pelo
menos na sua opinião), acrescentou mísseis descomunais ao lado de Sharon. Quando
viu o desenho publicado, ficou chocado ao constatar que os mísseis de Sharon
tinham sumido. Nunca antes, comenta ele, um trabalho seu tinha sido alterado sem
que o consultassem. Depois disso, afirma, nunca mais recebeu encomendas da
revista.


‘Lembro de ter pensado que, com Sharon já tão ameaçador e gigantesco no
desenho, as bombas eram excessivas’, rebate David Remnick, diretor de redação da
New Yorker. E acrescenta: ‘Se a insinuação é de que fizemos a mudança por
algum motivo político sinistro, afirmo, respeitosamente, que ele está enganado.
O artigo não poupava Sharon, para dizer o mínimo. David Levine é um grande
caricaturista político e publicou outras ilustrações conosco depois disso.’
Contudo, a revista de fato parou de pedir trabalhos a Levine: seus novos
desenhos exigiam um excesso de retoques.


A Review sempre se mostrou mais tolerante. Quando havia problemas,
estavam relacionados à sexualidade. ‘A New York Review
of Books
é um tanto puritana’, diz Levine.
A
caricatura que acompanhava um artigo sobre o livro A Mulher do Próximo,
de Gay Talese, mostrava o autor com a braguilha aberta, antes de o detalhe
ofensivo ser eliminado. O pulôver de gola alta usado pelo escritor Philip Roth
numa das caricaturas de Levine teve de ser trocado – pelo menos na opinião de
Barbara Epstein, ele lembrava demais um prepúcio.


As imagens de Kissinger criaram ainda mais dificuldades. Embora tivesse
publicado pelo menos dez delas, nenhuma especialmente benévola, a Review
rejeitou uma, de 1982, em que Kissinger aparece como Atlas, carregando o planeta
nos ombros e exibindo o que devia ser o menor pênis do mundo. (Tempos depois, o
desenho foi exibido no Ashmolean Museum de Oxford e hoje consta de uma coleção
particular.)


Dois anos mais tarde, a Review recusou outro Kissinger nu, possuindo
uma mulher debaixo de uma colcha estampada com a bandeira americana. Pouco se vê
da mulher, além da cabeça, que vem a ser um globo terrestre. ‘Simplesmente não
nos pareceu que devíamos publicar’, diz Silvers. Levine levou o desenho para
Victor Navasky, diretor da revista The Nation na época, que publicou a
ilustração. E isso, por sua vez, despertou a fúria de várias feministas da
equipe de Navasky, que se queixaram por Levine ter transformado a Terra numa
mulher e, ao mostrá-la agarrada aos lençóis, insinuar que pudesse estar gostando
da situação. Navasky convocou uma reunião e convidou Levine, que só piorou as
coisas. ‘Expliquei que eu quis dizer que Kissinger estava fodendo com o mundo e,
até onde eu saiba, 99% das pessoas fodem daquela maneira’, lembra ele.


Erica Jong, Woody Allen, Christopher Isherwood e Susan Sontag ficaram todos
aborrecidos com Levine. Assim como Philip Roth, com quem
Levine se encontrou na rua pouco depois de ter publicado uma caricatura do
escritor. ‘O que foi que você fez com o meu lindo nariz goyish shtik
[cristão e pequeno]?’, queixou-se o escritor. Truman Capote também simulou uma
indignação exagerada. ‘Foi você o sujeito que mostrou a minha papada desse
jeito!’, reclamou, puxando o excesso de pele que tinha no pescoço. Já outros,
como Arthur Schlesinger Jr., gostaram de se ver retratados por Levine.
‘Schlesinger era um homem especialmente feio’, lembra Levine. ‘Devia estar
esperando coisa muito pior.’


Primeiro, morrer


Levine acredita ter sido demitido pela Review. Na verdade, ele
permaneceu sob contrato até o último dia de 2008, recebendo 4 800 dólares por
mês (bem menos que os 12 mil dólares que chegou a ganhar), essencialmente pelo
uso dos seus antigos desenhos. Levine não tem plano de saúde nem
aposentadoria.


Seus amigos estão convencidos de que a Review tem uma dívida bem maior
com ele. ‘Levine é a marca visual da revista’, diz Byron Dobell, ex-editor da
Esquire e, por mais de quatro décadas, membro do grupo semanal de pintura
com o qual Levine ainda se reúne. ‘Eles consumiram os seus desenhos por anos e
anos. Vamos supor que ele fique completamente cego. Será que eles não têm mais
nenhuma obrigação para com ele? É como se a Disney decidisse: `Vamos nos livrar
do Disney. Ele ficou velho. Não precisamos mais dele.´’ Uma série de problemas
cardíacos, com todos os stents, pontes e marca-passos de costume, já
tinha abalado o ritmo do artista antes mesmo dos seus problemas de visão. ‘Ainda
não decidi se fiquei muito aborrecido ou se vou achar que estava mesmo na hora’,
diz ele.


O filho de Levine, Matthew, responsável pela concessão de licenças de
produtos com as caricaturas e quadros do pai, acredita que a Review,
sabendo que um dia seria obrigada a prescindir do ilustrador envelhecido, já
vinha usando os seus desenhos com menos frequência e menos destaque, antes de
sua visão deteriorar. Levine nunca chegou a falar claramente dos seus problemas
de saúde com os editores, mas, a partir de 2006, os efeitos da doença não podiam
mais ser ignorados. Os novos trabalhos a lápis talvez fossem aceitáveis se o
autor fosse outro – uma caricatura da série mais recente, retratando Barack
Obama, chegou a ser publicada. Mas faltava-lhes a precisão lapidar e a
eloquência cáustica dos trabalhos anteriores.


‘Esses desenhos não são o que aprendemos a esperar de David Levine’, teria
comentado Robert Silvers, segundo versão do artista. Silvers, por sua vez,
afirma ter sido muito mais delicado. ‘Acho que simplesmente paramos de usar os
desenhos dele, dizendo que sentíamos muito.’ Levine não discutiu. ‘Concordei que
os desenhos não estavam bons’. Em seguida, conta, rasgou a maior parte dos
trabalhos rejeitados.


Ele ainda sustenta que, com o tempo, a qualidade dos seus trabalhos a lápis
teria melhorado. Alguns de seus colegas, como Jules Feiffer, concordam. O
‘desrespeito insensível’ da Review para com Levine, escreveu Feiffer em
fevereiro de 2007, ‘destoa espantosamente’ da longa tradição de ‘consciência
intelectual e decência’ da publicação. E conclui que ‘o maior caricaturista da
segunda metade do século XX merecia melhor tratamento da parte de vocês’.


Matthew Levine, que também atua como diretor de Comunicação e Marketing de
uma sociedade de pesquisa para a prevenção da cegueira, posição que já ocupava
antes dos problemas do pai, é menos severo com a Review. A seu ver, o que
pode parecer insensibilidade deriva do fato de que ninguém, na revista, soube
lidar com situação tão delicada. Só que a mágoa e o impacto financeiro são
reais. ‘Meu pai não vai acabar na fila de nenhum sopão de caridade, mas a renda
dele diminuiu dramaticamente’, diz. Um divórcio no passado distante já tinha
reduzido parte do seu patrimônio, enquanto a outra parte está comprometida em
imóveis.


Resta o valor de sua obra. Embora seja proprietário quase único de seus óleos
e aquarelas, essa produção em estilo realismo socialista está fora de moda;
mesmo seus admiradores estão preferindo vender – ou doar – a comprar novos
quadros. Surpreendentemente, sequer as caricaturas, comercializadas entre 4 mil
e 6 mil dólares pela Forum Gallery de Nova York, estão tendo saída. ‘Ninguém tem
procurado por elas. Talvez eu precise morrer primeiro’, constata Levine. Na
verdade, muitas delas já estão em museus e arquivos. Só a Biblioteca do
Congresso, em Washington, tem 76.

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