Terça-feira, 19 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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Um ciclo vicioso de estereótipos

Por Emanuelle Najjar em 27/06/2011 na edição 648

Sabe, há algumas coisas pelas quais nunca nutri lá grande empatia: sites de jornalismo feminino, por exemplo. Não se surpreenda por isso. Sou uma mulher, mas os assuntos mais comuns dessa temática nunca representaram algo fundamental na minha existência, porém nos últimos tempos tenho prestado atenção nisso. Por questões de trabalho, preciso estar um pouco por dentro dos assuntos que afirmam povoar a mente feminina, mas isso não serviu para abrandar meu “não envolvimento”.

A razão? O fato de ver sempre os mesmos assuntos em todos os sites, com as mesmas abordagens e muitas vezes com aquele quê de futilidade. Antes que me apedrejem devo esclarecer algumas coisas: não há nada de mal em ler o horóscopo, saber das tendências da moda, dos mil e um procedimentos para alisar ou domar as madeixas, da última dieta daquela famosa que emagreceu X quilos ou o último corte de cabelo das celebridades. Não há nada contra as matérias de decoração, culinária, organização, prendas domésticas, família, casamento ou literatura autoajuda. São interessantes? Sim. São úteis? Com certeza. O problema não são os assuntos, mas sim, ver portais e sites dirigidos ao público crendo que as mulheres só se interessam por isso e nada mais.

Não, não me julgue como ranzinza. Tenho contato com esse tipo de conteúdo há muito mais tempo do que se possa julgar como má vontade, desde tempos onde o papel era o meio mais comum e onde certos deslizes eram perdoáveis – afinal, no caso das revistas, a segmentação justificava algo nesse sentido. Porém, passada mais de uma década, o conteúdo é o mesmo embora legitimado por uma imensa tecnologia. Ainda me surpreende ter de deparar com a limitação dos conglomerados de mídia e seus diferentes tipos de publicação julgando o seu público como fútil e sem grande profundidade, ao oferecerem inúmeras opções de conteúdo e preservando o mesmo estereótipo.

Mix de beleza, moda, carreira e filhos

Neste meio tempo de procura, acabou surgindo o que se pretende ser um portal feminino, ou quase isso. Algo que ainda está em versão beta, oferece uma aparência bastante simples, mas já uma boa amostra do que está por vir: o canal “Meus Cinco Minutos”. De acordo com nota do site Comunique-se, a intenção é oferecer visualização rápida de conteúdos de interesse feminino de revistas como Vogue, Criativa, Época, Quem, Crescer e outros sites controlados pelas Organizações Globo e associados. A leitora tem a liberdade de compor a homepage com que possa despertar interesse através de um menu de customização e ter acesso a assuntos variados.

Por que falei tanto deste canal? Porque navegando por ele tive a sensação de que fui levada a sério. Ok, tudo bem que a razão disso possa ser simplesmente uma maior amplitude quanto ao perfil do seu público-alvo, mas ainda assim não pude deixar de me sentir feliz. Os velhos assuntos ainda estão lá, firmes e fortes como sempre estarão, mas como mulher não me senti tão subestimada quanto o que talvez já me seja comum.

Eu – que não tenho gosto ou paciência para gastar mundos e fundos com roupa, sapato ou maquiagem, nem passo horas para decidir o que vestir, não tenho melindres em passar a tesoura no cabelo, não sou adepta da literatura de autoajuda nem tenho casamento e filhos como sonho nutrido desde a infância – me senti contemplada.

Por alguns instantes, tive a opção de escolher ser parte do estereótipo feminino ou não, e me sentir mulher independente da minha escolha, sem a imposição de uma suposta normalidade. A verdade é que não corresponder a um suposto padrão julgado normal pode ser tão angustiante quanto não ter o padrão de beleza do momento difundido pela mídia.

Quem sabe agora eu não me permita ter um pouco mais de esperança? Talvez, em um dia não tão utópico, os interesses femininos possam ser tidos como mais do que um mix entre beleza, moda, casa, carreira e filhos. Assim as mulheres talvez descubram que não precisam se sentir culpadas em serem diferentes e possam optar por buscar o que mais houver além destes muros sem transgredir regras milenares de comportamento.

***

[Emanuelle Najjar é jornalista, São José do Barreiro, SP]

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