Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > DEZENOVE DE DEZEMBRO

Um frescor vindo do passado

Por Luiz Ernesto Wanke em 08/03/2011 na edição 632

Fonte

Jornal O Dezenove de Dezembro (1856-7)

A História também serve para arejar com suave brisa a luta diária de sobrevivência num mundo tão competitivo e problemático de nossos tempos. Afinal, uma lufada de saudades não faz mal a ninguém. Mesmo que esse vento traga alguma poeira desagradável.

Uma das maneiras de se encontrar com esse passado é ver e rever velhos jornais – e quanto mais antigos, melhor. Temos uma coleção do Dezenove de Dezembro – o mais antigo do Paraná e editado em Curitiba – da década de 1850, onde, com paciência, podem-se procurar pérolas de usos e costumes daqueles tempos.

Como, por exemplo, o anúncio (13 de agosto de 1856): ‘Guilherme Buch acaba de se estabelecer nesta cidade, na Rua da Cadêa, n. 9, com loja de barbeiro e oferece seus préstimos ao respeitável público para fazer barbas, cortar cabellos, tirar dentes e por ventosas.’ Dias depois, aparecia outro anúncio neste jornal mostrando que o progresso estava chegando e a concorrência ameaçando o recém-estabelecido barbeiro Guilherme: ‘Dentista Americano: O doutor Otto W.E. van Tuyl tendo demorar-se por pouco tempo nesta cidade, oferece ao público seu préstimo em tudo quanto pertence a arte de dentista e convida a todas as pessoas que desejão ter suas dentaduras bem e duravelmente arranjadas a aproveitarem-se da sua presença. Dentes chumbados com ouro ou quando estão tão deteriorados que já não admitem o uso de ouro, podem ser conservados durante toda a vida, chumbando-os com a preparação novamente descoberta da platina crystalizada que é igual ao ouro, conservando sempre a cor branca natural e muito diferente da massa de prata, que em pouco tempo se torna preta. Dentes artificiais singelos e dentaduras inteiras, tão perfeitos na forma e cor que é impossível distinguil-os dos naturaes, colocão-se sem extração das raízes, de maneira que sirvam tanto param ornamento como para a mastigação. O anunciante garante seu trabalho…(26 de novembro de 1856)’.

Veado de estimação

Por outro lado, eles nos mostram coisas terríveis, como as decorrentes da escravidão. Lá se estampam anúncios de alguém querendo alugar um moleque pelo preço oito mil reis, ou outro querendo um escravo ‘fiel’ para compras e um, mais cruel, pedindo ‘uma negrinha e um moleque, que não tenhão mais de 7 anos’. Claro, que essas crianças seriam separadas de seus pais sem dó nem piedade. Muito triste. E os anúncios de escravos fujões? Como identificar esses foragidos sem cidadania? Ora, descrevendo-as das maneiras mais completas possíveis: ‘Fugiu, no dia 24 de março p.p. a preta Martha, tendo os signaes seguintes: fula, papuda, gorda, tem um sinal no braço esquerdo…’ Ou este, do escravo Antonio: ‘de nação, 40 anos mais ou menos, alto, feio de rosto, barba por baixo do queixo, barriga grande, a unha do dedo direito da mão esquerda partida pelo meio e inchado…’ Outro, chamado Christovam: ‘meio fula, faltam-lhe cabellos no meio da cabeça, tem 25 anos de idade, fala fina e ar humilde…’ Para terminar, o Sebastião: ‘… sem barbas, estatura regular, tem uma cicatriz no rosto, do lado esquerdo, procedida de dente furado, tem falta de cabelos pela continuação de carregar água, idade 18 anos mais ou menos e é bem parecido…’ Nesses jornais, pode-se descobrir como os negros escravos eram tratados como mercadoria.

E os desaparecidos? Nada de cachorros e gatos. Além dos escravos, muitos cavalos e burros, fujões ou roubados, como publicado no dia 6 de agosto de 1856: ‘Desapareceu da villa de São José dos Pinhaes uma égua baia e clina e colla branca, mansa, de arreios; e uma mulla vermelha meio rozilha, mansa, de carga e arreios; é muito amadrinhada com a referida égua…’ Ou o dramático desaparecimento de ‘uma menina branca. Idade 5 a 6 annos, rosto redondo, olhos pretos, sobrancelhos o mesmo, cabellos louros meio acastanhados, dentes meio riscado adiante, gorda e sem defeitos… Roga-se que qualquer pessoa que souber onde exista, o especial favor de avisar seu avô Joaquim de Souza Carneiro no mesmo bairro, pois consta que esta roubada e trocada por alguns rolos de fumo’ (6 de Setembro de 1856). Há notícias de fugidos ‘em plena luz do dia’ da cadeia. Mas o mais instigante é o desaparecimento de um veado do centro da cidade… Espera aí, um veado de estimação? Só conheci esse bicho ou na televisão ou no zoológico… A não ser… ‘Desapareceu da casa no. 55 da rua das Flores, um veado pardo, manso, levando no pescoço uma estreita coleira de couro com guiso. Roga-se a quem apanhou que o entregue na mesma casa onde será recompensado’ (29 de Setembro de 1856).

Recados incógnitos

Se existe alguma coisa bem diferente daqueles tempos em relação ao nosso é o conceito ético das relações humanas. As noções de defesa da honra perante à sociedade gerava um extremo cuidado com o julgamento da opinião alheia. Esses exemplares estão repletos de anúncios de pessoas que se mudavam de cidade e além de se despedirem da comunidade, afirmavam que não deixavam dívidas nem encargos pendentes. O jornal era um instrumento para mandar recados individuais cegos e surdos seja do autor, seja da pessoa alvo. Recados como (1º de outubro de 1856): ‘Sr Rafael do bote-lhe do recreio – Diz vm muito bem: o bote foi bem dado, e o laço bem armado! Tomem palpalvos. Lição gostosa! O desconfiado.’ Um recado cifrado que só ‘o desconfiado’ sabia do que tratava e, quem sabe, o destinatário. Que se danassem os outros leitores!

Os dois anúncios abaixo são outros bons exemplos de anúncios mal explicados. O primeiro diz: ‘Em casa do sr. Manoel de Freitas Saldanha existe duas barricas com vinho branco, vindo da casa de Chaves e Rosas, do Rio de Janeiro. Quem for seu dono, dando os signaes e pagando as despesas, se entregará.’ Tudo bem, a não ser o mistério de como as barricas foram parar na casa do seu Manoel. Outra pérola é (8.10.1856): ‘Quem tiver direito ao couro de uma vaca vermelha, que por engano se tirou, por ter morrido no banhado, dando signaes e marcas, se lhe entregará, pagando as despesas, na rua das Flores, no. 1.’ Como assim: tiraram o couro da vaca morta por engano?

As cobranças através do jornal e envolvendo bens eram engraçadas: ‘Roga-se à pessoa que na última noite de espetáculo da Sociedade Recreio Curytibano levou do theatro cinco cadeiras, haja de mandá-las a seu dono afim de não passar pelo desgosto de ser obrigado pela autoridade competente’ (28 de janeiro de 1857). O outro trata de uma casaca: ‘Roga-se, pela segunda vez, ao tal espertalhão, morador da Freguesia do Yguassu, cujo pedido fizemos em no. 6 desta folha, haja de mandar entregar o importe da casaca a seu dono, pois consta que, depois de occupal-a por muitos dias naquela mesma freguesia, trocou-a por uma dívida de vinte e dous mil reis!!!’ (16 de julho de 1856). Todos, recados incógnitos.

‘joia da coroa’

E haja reclamações. Até o redator esbraveja num canto do jornal (27 de agosto de 1856): ‘Na capital de província do Paraná já se pede por uma carrada de lenha – dous mil reis!!! Viva a fertilidade!!!… E valha-nos… quem? Deos!’ Noutra página, o senhor Francisco Cupertino de Miranda, cansado de ser roubado no transporte de vinho, desabafa: ‘Os que roubam, principalmente os vinhos que vem do Rio de Janeiro para aquém da serra, perpetuam dous crimes que são: um de roubo e outro de arruinar o restante do líquido, substituindo- por água e anexando a isto de mais a mais o prejuízo da condução. O abaixo assinado vae por intermédio do presente anuncio rogar aos que tiverem de roubá-lo o façam antes lhe carregando com um ou dous barris, em proporção ao número, deixando os demais intactos; ou então se assim temerem comprometer as suas honradas reputações, nesse caso roubem todo o líquido de um ou dous barrís e encham de água pura e fresca. Outros sim se tiverem muito desejo de tirarem de cada um uma porção (que dá mais trabalho) deixem com a falta, porque ao menos favorecem aos conductores no peso. Curityba, 31 de janeiro de 1857. Assinatura.’

Que estratégia, a do senhor Francisco! Pressupõe que o ladrão de vinho iria ler o seu anúncio. Depois, ensina duas maneiras de como roubá-lo sem o prejudicar substancialmente e ainda se preocupa com o frete e o peso das barricas de vinho. O detalhe de substituir o vinho roubado por água fresca procede porque alguns desses ladrões maldosos, por ser fácil e prático, completavam a falta do vinho urinando nas barricas. Finalmente, trata-o educadamente através de um requerimento burocrático dirigido ao ladrão e respeitando até suas honradas reputações… Sim, era um tempo que se roubava como agora, mas até os ladrões tinham seu nome a zelar.

Um problema que o progresso resolveu com um lacre simples.

E muito mais se tem sobre esses anúncios. Mas a ‘joia da coroa’ da época pesquisada, e sem dúvidas o preferido pelo autor, é o transcrito abaixo (10 de setembro de 1856) que, pelo contraste com nossa época, evoca o frescor de um passado aludido no início que e nunca mais vai voltar e mais, não necessita de nenhum comentário:

‘Na rua dos Allemães no. 8 vende-se leite a 200 rs o quartillo, podendo as pessoas que o apreciam tomal-o quente, ao pé da vacca, comparecerem das 7 às 8 horas da manhã, que o terão pelo mesmo preço, além de encontrarem rede para descansar e canários do reino para ouvir cantar.’

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Professor aposentado, Curitiba, PR

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