Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > CORRESPONDENTES DE GUERRA

Um jornalismo que pode traumatizar

Por Bianca Souza em 31/10/2011 na edição 666

Apesar de ser uma realidade distante do cotidiano dos brasileiros, a conhecida “primavera árabe” inundou a imprensa nacional com imagens dos conflitos armados. No entanto, pouco se fala sobre como vivem os repórteres que realizam essas coberturas. O imaginário comum reflete a descrição hollywoodiana dessa profissão, onde um jornalista bonitão se põe em perigo por uma ótima matéria e escreve um belíssimo texto enquanto as bombas explodem à sua volta.

Falta água para tomar banho e até beber, muitas vezes não há comida e as ameaças de serem atacados são constantes. Segundo dados do Dart Center for Journalism and Trauma, entidade norte-americana especializada no estudo de problemas emocionais, algo entre 86% e 98% dos jornalistas são expostos a alguma situação de trauma durante o exercício da profissão.

O “estresse pós-traumático secundário” acontece quando há uma identificação do público com a situação apresentada. O espectador assiste ao fato com tanta intensidade que o cérebro entende que ele realmente viveu aquela situação. “Identificar-se com situações de sequestro entre casais, tiros em escolas e até acidentes de carros também pode gerar bloqueios e medos em quem apenas acompanhou as ocorrências pela televisão”, é o que garante o psicólogo Artur Scarpato, especialista em psicoterapia.

Um dos casos mais comentados de estresse secundário é o da jornalista americana Mac McClelland, que simulou o próprio estupro depois de se sentir traumatizada ao entrevistar uma haitiana violentada e mutilada por uma gangue. A repórter começou a apresentar sintomas como flashbacks, crises de choro e pesadelos. Para se recuperar, ela combinou com o ex-namorado uma encenação de violência sexual, o que, segundo ela, a fez sentir bem melhor.

A “banalização da morte”

Quem conta as histórias pode ser afetado pelos depoimentos que recolhem. Artur explica que o jornalista também está sujeito a sofrer um trauma secundário, assim como enfermeiros, voluntários ou qualquer pessoa que esteja próximo às vítimas de um conflito. “É uma situação de extremo risco psicológico cobrir uma guerra, mas não é a única forma de adquirir um trauma. Ao acompanhar a dor ou a violência, como em incêndios e acidentes, o profissional pode ser afetado”, afirma o psicólogo.

O repórter Samy Adghirni,acostumado a cobrir os conflitos no Oriente Médio, afirma que é difícil não se envolver com a dor das pessoas, mas é necessário para a sobrevivência. “Há uma banalização da morte, são pessoas destroçadas, tem que ter estômago para lidar com isso, mas é essencial se manter distante emocionalmente, preservar o psicológico”, diz ele.

De acordo com a ONG Repórteres Sem Fronteiras, 230 jornalistas e outros profissionais da imprensa foram mortos no Iraque desde a invasão americana, em 2003, até 2010.

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[Bianca Souza é estudante de Jornalismo e participante do “Repórter do Futuro”, da Oboré]

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