Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA ESPORTIVA

Um Maracanã de problemas

Por Franklin Berwig em 30/01/2006 na edição 366

O assunto deste artigo é tão conhecido que já devem ter escrito sobre ele. Mas, a culpa, amigos, não é dos autores. É, sim, de quem faz dele um tema batido: a mídia (e nunca é demais lembrar das bobagens que, por vezes, ela comete). A reabertura do Maracanã, no Rio, a julgar pelo constante estardalhaço, parece rivalizar com as CPIs na categoria de pauta preferida dos jornalistas – e cada vez mais insuportável para os espectadores.

Trata-se, invariavelmente, da mesma matéria. É fácil identificar. São imagens de homens trabalhando, máquinas, muito concreto e, claro, para fechar o VT com o usual sorrisinho, cenas de arquivo da torcida, que é capaz de o editor guardar consigo. Pudemos ter mais uma prova disso nos últimos dias de janeiro, próximo à data da enésima reabertura do estádio. Nem a incrível marca de oito gols na primeira partida após oito meses (com sete gols só no segundo tempo, três de Romário) conseguiu mudar o enfoque da ‘volta do futebol ao gigante’.

Assim, também, foi com jornais e emissoras de rádio, que não resistiram à tentação de repetir uma pauta com boas chances de se destacar como a materinha light, aquela para contrabalançar as desgraças das outras editorias. Mas, é na TV que o equívoco ganha maiores proporções. No dia 20, dois dos mais importantes telejornais do país, da Globo e da Bandeirantes, foram encerrados com a reportagem. Sim, aquela de sempre.

O fato é que o Maracanã vive em obras. Inaugurado em 1950, para a Copa do Mundo, ele foi palco, naquele ano, da célebre derrota do Brasil para o Uruguai, quando teria recebido 200 mil pessoas. De lá para cá, está em constante transformação. Só nos últimos 15 anos, foram cinco grandes reformas: uma, por segurança, após a morte de torcedores na final do Brasileirão de 1992; outra, por adequação, para visita do papa João Paulo II, em 1997; uma outra, por modernidade, visando ao Mundial de Clubes da Fifa, de 2000; uma quarta, para o fim do setor da geral, que não acabou àquela altura; e esta última (que, certamente, não será, de fato, a última), ainda incompleta, para os Jogos Pan-Americanos.

O que mudar

Mas o que os jornalistas têm a ver com as reformas? As administrações do Maracanã e os governos cariocas são os responsáveis por essa espécie de operação tapa-buracos que tenta maquiar a certeza de que o estádio não satisfaz às necessidades do mundo esportivo moderno e de que o ideal seria a imediata construção de um novo templo. No entanto, os profissionais da comunicação são culpados quando cometem a falha ética de ocultar os problemas que as obras acarretam e a falha técnica de repetir VTs anteriores.

É evidente que qualquer coisa que acontece com esse monumento do futebol vira notícia. Porém, os jornalistas esportivos poderiam usar, nesse caso, a mesma postura que têm na cobertura de clubes e da Seleção Brasileira, quando a crítica (ou, pelo menos, o senso crítico) é a regra. Estariam, assim, prestando um serviço aos amantes do futebol.

E mesmo que os saudosistas tenham razão, que a história do Maracanã não pode ir poeira abaixo e dar lugar a um novo estádio, os jornalistas têm o que mudar, como em relação ao abuso da paciência do espectador/leitor/ouvinte com a mesmice da cobertura. Afinal, eles não podem melhorar diretamente o estádio, mas têm obrigação de melhorar o próprio trabalho.

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Jornalista

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