Segunda-feira, 14 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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Um mundo só de fadas e de ratinhos

Por Larissa Grau em 05/06/2007 na edição 436

Fosse-me permitido, só escreveria sobre animais. Meus textos seriam – todos, todos! – sobre cães, ursos brancos polares ameaçados de extinção, raposas espertas com focinhos molhados, gatinhos enrodilhados em novelos de lã, filhotes de tigres aprendendo a caçar e belos cavalos correndo soltos e selvagens pelas campinas do sem fim.

Minha consciência, entretanto, não permite e insiste em me censurar.

Me obriga a escrever sobre assuntos mais áridos e menos ternos, mesmo contra a minha vontade. Abriria mão, com facilidade, de todos e quaisquer assuntos que não dissessem respeito somente ao mundo idealizado dos bichos e esqueceria de bom grado todos os conflitos, maracutaias, aquecimento global, miséria, fome, mortes em vão e desgraças generalizadas.

Um articulista do jornal Folha de S. Paulo, em artigo publicado no dia 30 de maio no caderno ‘Ilustrada’, pergunta onde estão as fadas e os ratinhos na produção artística para o público infantil. Argumenta que sob as normas do politicamente correto, palavras de ordem substituíram o universo onírico dos seres fantásticos que coloriram nossa infância.

Dificuldade e frustração

Walter Benjamin, um dos mais interessantes intelectuais do século passado, pondera que os livros infantis nasceram com o Iluminismo, dentro de seu grande projeto de ‘remodelação da humanidade’. Se o homem era, em sua essência, bom, piedoso e sociável, os livros infantis eram, em suas primeiras décadas e versões, edificantes e moralistas e constituíam ‘uma simples variante deísta do catecismo e exegese’.

Benjamin faz, então, companhia a Marcelo Coelho e critica severamente este tipo de arte produzida para crianças. E acrescenta ainda que estas falhas do passado da literatura infantil não são nada se comparadas aos equívocos de sua atualidade (1924), cujos textos tentavam explicar o mundo para as crianças como os adultos o concebiam, acrescentando somente graça, leveza e jovialidade. Para o autor, os pequenos sentem um imenso prazer em construir mundos a partir de detritos. Daí o deleite que eles sentem em visitar oficinas e colecionar, por exemplo, tocos de madeira com os quais constroem cidades, jardins, fazendas e criam um rebanho inteiro que pasta naquelas campinas do sem fim. Pois nesses detritos, eles ‘reconhecem o rosto que o mundo das coisas assume para eles, e só para eles’.

As crianças, a despeito de todas as mazelas, têm o dom e a capacidade de erigir mundos e, acrescenta Benjamin, o ‘conto de fadas é uma destas poderosas criações compostas de detritos’. Ele acredita que nas fábulas, a despeito de toda moral, a criança permanece se encantando mais com os animais que falam e agem como humanos do que com seus conselhos. Se as apreciam, não é porque aprendem que quem desdenha deseja o objeto desprezado. Reconhecem em si, em seu tamanho reduzido, a dificuldade da raposa pretensamente esperta, que usa dos poucos artifícios de que dispõe, para tentar apanhar um belo e apetitoso cacho de uvas – para ela, inalcançável. A criança vivencia a dificuldade e a conseqüente frustração advinda da dependência de outros seres mais altos para buscar aquilo que tanto quer e que se encontra no alto do armário.

Os mistérios da floresta

Mas, assim como Coelho (o jornalista, não o bichinho branco e peludo) ousou reclamar para seus filhos um mundo de ratinhos e de fadas, há autores que conseguem transpor a delicada ponte entre o árido mundo dos adultos e o onírico, colorido, cheio de odores, universo das crianças sem um didatismo filantrópico. Refiro-me ao livro De repente, nas profundezas do bosque, do escritor Amóz Oz, que estará na Festa Literária Internacional de Parati (Flip) no dia 06 de julho.

No livro, uma aldeia rodeada por um bosque vive dias secos e sem encanto, pois lá já não existe animal algum. Se foram; viraram lendas. As crianças temem adentrar o bosque porque de lá, quem já foi, ou não voltou ou retornou amaldiçoado. Alguns poucos adultos ainda vivem em tempos passados, dos quais ninguém ousa se lembrar, quando cães faziam companhia e gatas procriavam e protegiam suas ninhadas perto da lareira acesa nas noites frias, quando o vento balançava as folhas do lado de fora. Duas crianças não se satisfazem com a realidade circundante e resolvem, um dia, penetrar nos mistérios da floresta encantada. Amóz Oz abusa da literatura simples e de palavras fáceis.

Aprendendo com animais falantes

Mas, numa matemática encantadora, extrai delas, de sua somatória sonora, imagens palpáveis, movimentos identificáveis e uma magia que somente reside na poesia e na melhor literatura infantil. O escritor israelense é homem de rara sensatez e lucidez. Penetrando, ele mesmo, em um universo encantado, cria uma belíssima história atemporal que bem poderia ter sido escrita em tempos que não existiram, de fantasia, onde o outrora residia dentro do antigamente. Um livro que, se ainda não leu, o jornalista Marcelo Coelho deveria ler, em voz alta, pausadamente, saboreando vocábulo por vocábulo, apreciando o som e as imagens que eles produzem quando colocados juntos, em parceria.

Contaria a história ao lado da cama de seus filhos já sonolentos. A jornada poderá levar dias, mas isso não é problema, já que os capítulos são curtos e breves, embora cheios da melhor magia que reside nas mais belas histórias infantis. No livro não há fadas, mas há ratinhos. Garanto que seus filhos jamais se esquecerão da experiência de ouvir a voz paterna e um dia, lá na frente, irão suspirar do prazer propiciado pela saudade dos tempos idos e nos quais aprenderam, com animais falantes, o que realmente interessa neste mundo perdido, afogado em intolerância e discriminação.

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Estudante de jornalismo da Universidade Fumec, Belo Horizonte, MG

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