Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA FASHION

Um novo jeito de falar de moda

Por Ligia Martins de Almeida em 11/09/2007 na edição 450

Para provar que é verdade que ‘mulheres se vestem para agradar outras mulheres’, o suplemento feminino do jornal O Estado de S. Paulo (09/09/2007) encontrou uma forma diferente de fazer matéria de moda. Entrevistou quatro homens famosos para saber que tipo de roupa eles gostam de ver mulheres usando. A partir dos depoimentos, publicou cinco fotos: em quatro, as mulheres usam jeans e uma aparece num vestido solto.

Os looks, como diriam as legendas de revistas femininas, são simples, discretos, sem decotes ousados e sem cores muito fortes. Enfim: roupinhas ‘bem básicas’, ou ‘clássicas’. Ou melhor, roupas que não têm nada a ver com o que se vê, a cada mês, nas seções de moda das revistas femininas, como sugestão de bem vestir para as leitoras.

Se a proposta era fazer uma matéria de moda diferente, o objetivo foi atingido. Se o que o jornal queria era iniciar um novo estilo de serviço, desmistificando a moda, então ainda há muito que fazer.

Para começar, é preciso discutir o assunto com as próprias mulheres. E descobrir se usar roupas que estão na moda é importante. A discussão dessa importância passa por vários itens. É importante por quê? Para a mulher sentir-se bem, interiormente? Para a mulher mostrar que está atualizada, que é moderna? Para chamar a atenção dos homens? Para reafirmar seu status no grupo social em que circula? Ou simplesmente para se proteger do frio ou do sol, de uma forma esteticamente agradável, mas sem os exageros dos estilistas? É importante para todas as mulheres, ou apenas para as que têm dinheiro para renovar o guarda-roupa a cada estação ou comprar uma peça nova a cada mês?

As cifras da indústria

É preciso que as editoras de moda perguntem a si mesmas se, ao preparar matérias de moda, elas se preocupam em prestar serviço a todas as leitoras ou apenas àquela minoria que, além de dinheiro, tem o corpo adequado às roupas que seguem a tendência imposta pelos estilistas.

As editoras deveriam também discutir com os estilistas e perguntar se eles e elas criam roupas pensando na mulher que poderá vir a vestir suas obras ou se o que importa é o espetáculo na hora do desfile.

E seria importante mostrar, a partir de entrevistas com economistas e especialistas em moda, as cifras que esta indústria movimenta no Brasil e no mundo a cada ano.

Divulgação ou manipulação?

Depois de traçar um quadro completo da moda – do ponto de vista do consumidor, criador e produtor – seria possível responder se as mulheres, especialmente as leitoras de revistas femininas e jornais, são agentes ou vítimas nesse processo. Depois de discutir os interesses (multimilionários) envolvidos na indústria da moda, poderemos questionar a afirmação de que as mulheres se vestem para agradar outras mulheres.

Até lá, vamos continuar na dúvida se a mulher compra roupa para se sentir bem ou porque foi convencida de que ficará mais bonita e mais feliz por usar artigos de moda. Até lá, ficaremos sem saber se as mulheres usam roupas que não as favorecem porque acham que é moda ou simplesmente porque não encontram outra coisa para comprar. Até lá ficaremos sem saber se a mulher é culpada pelos exageros – tanto na escolha dos modelos, como na quantidade (Veja diz que, ao longo da vida, as mulheres acumulam 111 bolsas), ou se é apenas vítima de um trabalho bem feito da indústria da moda que usa a mídia como seu divulgador. E, principalmente, sem saber qual o papel da mídia nessa história toda: se apenas divulga ou se – movida por interesses financeiros – manipula as leitoras, fazendo-as acreditar que, ao escolherem e comprarem uma nova roupa, um novo acessório, uma nova tendência, estão agindo em prol de sua felicidade pessoal.

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Jornalista

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