Segunda-feira, 09 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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Um pouco mais que Ibope e sensacionalismo

Por Fernando Schweitzer em 11/07/2011 na edição 650

Há muito fora do país, não tenho o hábito de ver os jornais televisivos, e sim, acompanho tudo que posso em jornais e sítios de notícia. Justamente por meio da rede mundial foi que em um clique acidental descobri que o Cidade Alerta, além de voltar, é transmitido ao vivo pelo portal R7.

Em meio a muitas tragédias, coisas interessantes e outras aterrorizantes, a realidade. O país está um caos, o povo à míngua e o ópio da vez é a maldita Copa do Mundo. Durante muitos anos, e não duvidem até hoje, políticos, sejam eles ditadores ou não, criminosos ou coniventes, todos usam ou deixam que o estigma do dito esporte nacional, a inescrupulosa paixão nacional siga alienando e anestesiando o povo para que este deixe de pensar em coisas muito mais importantes para o país.

Um dia desses, um amigo saiu de uma residência de estudantes em Buenos Aires porque reclamaram de seu namorado o cumprimentar com um beijo em um jantar nesse recinto. A justificativa do funcionário fora de que seu filho de seis anos estava presente. Perplexo com a cena absurda, mas para não perder o clima de um jantar que deveria ser romântico, ele pede ao namorado que o espere, pois tinha que guardar suas coisas que não queria deixar na área pública do hostel. Eis que, enquanto guardava seus pertences, o funcionário expulsou o segundo rapaz do recinto.

Agora ao ver uma notícia do Cidade (tão criticado) Alerta, de imediato pensei no caso deste amigo caso fosse estudante no Brasil. Isto, tendo em conta que aqui na Argentina ao menos ele pode fazer uma denúncia perante a polícia e o Inade (Instituto Nacional contra la Discriminación, la Xenofobia y el Racismo), visto que no país vizinho homofobia é crime de ódio, por lei. Tenho medo de usar minha criatividade para pensar no que poderia ocorrer se o caso fosse na terra da Copa, do futebol e dos macho men.

Criminalização da homofobia

A matéria vinculada sobre as organizações de skinheads no Brasil, especialmente destaca o sul e sudeste em seus estados mais ricos e que se creem evoluídos, superiores aos demais(principalmente ao nordeste), civilizados, de melhor educação… Bah! São estes justo os recordistas em assassinatos a homossexuais, negros e qualquer coisa que estes filhotes mal criados de Hittler possam pensar ser menor ou menos digno que eles. O bom é para eles que os critérios que eles usam são redigidos por eles e suas normas de condutas fascistas.

A reportagem me surpreendeu por não fazer como as demais emissoras e programas, onde a nota foi dada quase que escondida dentro do mar de lama que vive o país. O bom é que ela continua à disposição no portal R7 – http://noticias.r7.com/cidade-alerta/2011/07/04/cinco-skinheads-sao-presos-acusados-de-espancar-moradores-de-rua/ como prova cabal de crimes que deveriam ser punidos mas que nunca serão enquanto os conservadores dos nossos queridos partidos ex-braços da ditadura, mais outros conservadores metidos a democráticos, não aprovarem a PCL 122 de 2006. E nem sonhemos que não seremos o último país do continente e quiçá do mundo a reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo, já que crimes contra estes não são crimes – creio que não são considerados pessoas, pelos mesmos.

Segundo pesquisa telefônica conduzida pelo DataSenado em 2008 com 1.120 pessoas em diversas capitais, 70% dos entrevistados são a favor da criminalização da homofobia no Brasil. A aprovação é ampla em quase todos os segmentos, no corte por região, sexo e idade. Mesmo o corte por religião mostra uma aprovação de 54% entre os evangélicos, 70% entre os católicos e adeptos de outras religiões e 79% dos ateus.

Um corpo mais?

O recado que fica, se é que alguém se importa o farei em verso, para não gastar minha prosa, mais que já.

A vontade de matar não se trava por imposições simples da lei.

Mas a lei está travada por aqueles que sentem vontade de matar.

Não se pode subestimar o relato de vítimas.

Muito menos a elas próprias.

Homofobia é crime, seja ou não o seu filho que seja morto.

Um corpo mais? O que lhe faz?

Pensar? Sentir? Sorrir? Chorar?

Sensacional é a realidade

Nota: o Brasil é o país em que mais homossexuais são assassinados no mundo, tendo registado 122 em 2007, oficialmente. Em 2010 já eram 235. O recorde talvez sejam em 2011, já que a classe média aumentou e a maioria dos assassinos são estatisticamente desta classe social. Assim, em paralelo ao crescimento da economia, da classe média e da corrupção no país, o número de mortes por crimes homofóbicos também cresceu, só que um pouco mais rápido que a economia. Ativistas LGBT acreditam que o número pode ser maior porque não há controle estatístico oficial. O segundo país da lista é o México, com cerca de 35 casos por ano, e o terceiro dos EUA, com cerca de 25 por ano.

Entre 1980-2005, foram assassinados no Brasil 2.511 homossexuais, em sua maior parte vítimas de crimes homofóbicos, quando o ódio da homossexualidade se manifesta através dos requintes de crueldade com que são praticados tais homicídios: dezenas de tiros ou facadas, uso de múltiplas armas, tortura prévia, declaração do assassino “Matei porque odeio gay!” Crimes cometidos por “pura maldade”, como qualificou a delegada de Maracanaú, no interior do Ceará, ao encontrar o corpo completamente desfigurado do cabeleireiro Emanuely, 49 anos, morto a pontapés por dois rapazes machistas, um deles filho de um militar. Menos de 10% dos criminosos são levados a julgamento.

Antes de tudo mais, reflito que o crescimento de noticiários de cunho popular, ou melhor qualificando, de visão ampla e de ampla visão, são um fiel retrato da nossa realidade. Deixemos a fantasia para as novelas e o país das maravilhas no mundo do conto de fadas. Sensacional creio que é a realidade, ou não?

***

[Fernando Schweitzer é ator não-global, diretor teatral, cantor, escritor e jornalista]

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