Domingo, 09 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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ENTRE ASPAS >

Um ‘prêmio’ indigesto

Por Bruno Rebouças em 19/01/2010 na edição 573

A veneração da imprensa pelo presidente-semideus Lula é tamanha. Nunca na história deste país um presidente teve tanta benevolência da mídia quanto Lula, salvo alguns grupos empresariais que não se conformam do torneiro mecânico ter chegado à presidência de forma tão contundente. Fato é que, não podemos deixar de dizer, o Brasil é melhor hoje, há oito anos. E a veneração da imprensa tem a ver com a santificação que a população brasileira tem pelo ex-sindicalista. Os índices de Lula impressionam, até mesmo, o presidente dos Estados Unidos. Lula é o Deus egípcio (que não lembro o nome) que em tudo que tocava virava ouro.


Foi assim com o direito de sediar a Olimpíada, que seria realizado onde nunca foi e de preferência na América do Sul; com a Copa do Mundo, sendo o Brasil o único candidato; e com a mina de ouro verde, o pré-sal. A importância internacional fizera com que a grande mídia e a população com a cultura televisiva, endeusassem o ‘filho do Brasil’. Piadas que circulam nos sites de relacionamento dizem que Lula não gostou do próprio filme, pois Fábio Barreto, diretor do filme, retirou a cena em que ele (Lula) andava sobre as águas.


Pois bem, em 2009 a imprensa francesa elegeu Luiz Inácio como o homem do ano. A mídia fez um alarde tremendo, mostrando imagens e até um histórico do governo que chegará ao fim em janeiro de 2011. Declaração de cientistas políticos, sociais e jornalistas especializados mostravam a importância de tal fato. As maiores revistas do Brasil firmaram em suas últimas capas de 2009 que o Brasil seguiria melhor em 2010 devido ao prestígio do seu presidente, ou até mesmo ‘2010: o ano do Brasil’. Esse prêmio dado ao presidente mais popular da história foi o que faltava para ele ser canonizado dentre anos. Até os laços com a Igreja Católica foram aproximados quando se firmou o acordo pelo qual o ensino do catolicismo será exclusivo nas escolas públicas.


A imprensa cor-de-rosa


Mais uma piada infame: ‘Só falta o Lula levar um tiro em carro aberto, para ser eternizado, logo beatificado. E enfim, canonizado. Santo Lula ou Santo Luiz Inácio’, disse alguém em um email que recebi dessas correntes que rolam na internet.


Em 2009, Luiz Inácio Lula da Silva venceu outro prêmio a nível europeu. O jornal El País, da Espanha, elegeu o presidente brasileiro como um dos cinco ‘poderosos’ mais hipócritas de 2009. E quem publicou? Ninguém, ou pelo menos nenhum grande veículo. Por quê? São muitos motivos, mas a conivência para com o presidente, diz respeito a algo que li na Folha de S.Paulo do dia 2 de outubro. Segundo a reportagem, em 2003, quando Lula assumiu a presidência, 499 veículos de comunicação recebiam propaganda estatal; em 2009 esse número subiu para 5.297 veículos entre, rádios, jornais, revistas e televisões. O governo federal superou em muito a Fiat, que anunciou em 206 veículos, e o banco Itaú, que investiu em 176.


A benevolência da mídia é comprada a preço de ouro e todos sabem da necessidade que os veículos de comunicação têm dos seus patrocinadores. Aquilo que Leandro Marshall, em O Jornalismo na era da Publicidade, chama de a imprensa cor-de-rosa, que vive em função e da influência da publicidade.


‘Controle da realidade’


O jornal espanhol declarou:




‘O presidente do Brasil afirmou que Hugo Chávez é o melhor presidente da Venezuela em 100 anos. Mas nós nunca ouvimos Lula dizer algo sobre o comportamento autoritário de seu amigo venezuelano. Sim, nós temos visto, no entanto, ele atacar furiosamente as recentes eleições em Honduras. Fez a mesma coisa ao receber, semana passada, com honras, Mahmud Ahmadinejad, cuja vitória eleitoral também é questionada. O que as eleições no Irã têm em comum com a de Honduras? A fraude em massa, assassinato, tortura e brutal repressão ordenada pelo governo de Ahmadinejad. (Coisa de que) o afável líder brasileiro ainda não parece ter se inteirado.’


Na imprensa, a nota não repercutiu. O ‘prêmio’ vencido pelo presidente Lula, dessa vez, e talvez pela primeira vez, não teve repercussão nem por veículos opositores. A mídia, como sempre, só vê aquilo que ela quer. Só fala o que interessa a ela mesma e aos seus patrocinadores, ou melhor, financiadores. A imprensa parece habitar em Oceania, país criado por George Orwell em seu livro 1984, onde o duplipensamento (no idioma criado por Orwell) vigora.


Tal palavra significa ‘controle da realidade’. Ou seja, você sabe de tudo, mas finge que não sabe por conveniência. Caso contrário, o Grande Irmão (Lula, no caso), presidente do país e do partido, te jogará no buraco da memória e você nunca mais será visto ou lembrado.


Por fim, é assim que age a imprensa brasileira. Ela pode saber de tudo, mas só publica aquilo que o Grande Irmão quer que ela realmente saiba.

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Jornalista e editor, Natal, RN

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