Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DO LEITOR > JORNAL DA MANHÃ

Um réveillon de muita chuva

Por Evandro Calisto Filho em 12/01/2010 na edição 572

Tino Marcos, repórter esportivo da Rede Globo, se coloca em perfil, a câmera abre um pouco a angular e enquadra o ambiente, um sofá, uma pequena mesa de centro, uma janela para mostrar que é uma casa, uma casa de família e por fim dois seres humanos sentados. Um deles, um pouco incomum, no tamanho, na forma do corpo; a mulher, rosto oriental, corpo curvilíneo e enorme, vestia um vestido preto dois dedos abaixo do joelho, pernas cruzadas o vestido insistia em subir pela pressão lateral do movimento de cruzar, com as duas mãos ela o colocava no lugar com energia. Do lado, um homem, como ela meia idade, grisalho, um olhar para o nada, não estava ali, não estavam ali. O repórter pergunta: ‘Como estão sendo esses primeiros dias para você?’

O silêncio de quatro segundos nos deixa inquietos, quatro segundos na TV é uma eternidade. Não estavam ali, não se olharam, não estavam ali. Resposta óbvia: ‘Difíceis’.

Segunda-feira, 5 de janeiro, Jornal da Manhã e a construção de uma lógica dentro de uma notícia construída, a construção de uma notícia dentro de uma lógica construída. Réveillon de 2010, chuva, uma coisa natural aconteceu, barro sobre pedra não segura, barro não segura sem cimento, o barro desceu com a inocência peculiar do barro, a inocência de criar um dia o homem e não imaginar o que sua criação faria com ele mesmo, e não entender os queixumes da sua criação quando um dia volta, ‘Deus moldou o homem no barro e soprou vida pelas suas narinas, do pó ao pó, do pó viestes e ao pó voltarás…’ assim dizem os próprios crédulos que no momento da ação natural da natureza vivem a perguntar: por que? E na angústia da dúvida temos que criar fabulosas histórias para acalentar nossas dores com bálsamos inimagináveis, na falta de respostas criamos histórias, sempre foi assim desde do começo e por isso, talvez, as perguntas se repetem de forma fatal e não buscamos respostas e criamos histórias novas e assim a fábula se incorpora a tradição, se transforma em verdade.

Um vídeo de Yumi

Por cinco dias, a Rede Globo e as emissoras de TV de forma mais intensa criaram uma fábula para romantizar uma tragédia, não sei se para encobrir a dimensão de uma desgraça, não sei se para maquiar a máscara criada por quinze dias antes nas suas chamadas de ‘Hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou…’ com uma nova versão em hip-hop, MV Bill entrando com a galera da vida normal jogando basquete e William e Fátima no refrão, depois de tanto trabalho, Roberto Carlos, São Silvestre, fogos em Copacabana, Ana Maria a manhã toda do último dia com seu decote agudo, tudo era tão lindo aí vem alguém e joga o barro de forma covarde, de noite, na calada da noite. Certamente perguntaram: foi em que favela? Em que buraco? Responderam: ‘Foi em Angra.’ Putzs! Então vamos criar uma história, comovente, que tenha enredo, meio e fim, que seja tocante. Temos o material! Vamos lá! Yes!

‘Era um sonho e 1994 eles construíram a Pousada Sankay, Yumi Imanishi Faraci, sua família, moravam lá, era um sonho, No ano passado, ela foi para Belo Horizonte para estudar arquitetura na Universidade Federal de Minas, 18 anos era um sonho…’ Pronto, além da história construída, eles descobriram material precioso como se tudo estivesse guardado para isso, pronto ‘show time’! Um vídeo, ela era linda, saíram todos de minas, amigos inseparáveis, embora tenha apenas pouco mais de um ano de faculdade juntos, como nos filmes de Hollywood saíram para as férias, um vídeo de Yumi meses antes falando da beleza de Angra e sua ida para Minas, outro vídeo mostra Yumi tocando violão, Yumi canta em inglês, os pais de Yumi tem uma pousada no meio do mar, Yumi sorria, Yumi era linda, Yumi era inteligente e por fim eles acharam a pérola da fábula ‘Yumi deixou escrito que gostaria de ser cremada.’

Uma vítima para santificar

Assim o funeral foi rápido, cada passo, cada dia teve cobertura espetacular de pop star, os sobreviventes amigos de Yumi ‘hematomizados’, roxos da avalanche eram entrevistados para falar sobre Yumi, a amiga mostra o notebook com as fotos de Yumi. A mãe com Tino Marcos joga a mão para a direita segura no braço do marido atabalhoadamente e diz: ‘Eu disse para ele – olha para o marido pedindo a confirmação – estava dando tudo muito certo, não disse?’ Olha de novo, olha pro nada. Tino Marcos faz a pergunta mais inteligente que ele já fez, que ninguém fez: ‘E agora?’

Eles não estavam ali.

Nem eles, nem Tino, nem nós. Não estamos no lugar real onde coisas reais acontecem porque não gostamos de acreditar nisso. De novo uma tragédia se transforma numa fábula, como a fatalidade indelicada e medonha, hostil e desgraçada apenas viesse para acabar com aquele réveillon dos sonhos, a notícia não abre para o real. para os quilômetros de encostas que desabaram em Angra, os milhares de desabrigados são mostrados como coisas triviais ‘chuvas de verão’, outros mortos se tornam estatísticas. Com tanta tecnologia na construção civil, com tantas possibilidade de avaliação de terrenos, com tanta sapiência, imagens construídas de forma digital para mostrar como o barro desceu, com tudo isso acreditamos na sorte e depois criamos fábulas, com tudo isso ainda acreditamos na sorte e no fim escolhemos uma vítima para santificar, dourar a cena, iluminar o cenário.

O barro é inocente

E com esse mesmo modelo criamos novos cenários. Não construímos centros de educação para os jovens, mas no dia em que Luciano Huck foi assaltado criamos uma cena e um cenário, não estamos nem ai quando invadimos a privacidade alheia mas quando Lady Diana morreu imediatamente tivemos que avaliar a ação dos paparazzi. Quando acontece a fatalidade temos que criar um cenário que justifique o absurdo, ou que amenize a dor. Muitas Yumis e muitas famílias, agora sofrem do absurdo da crença onde a sorte é o fiel da balança, onde a precaução se torna impossível e o desenvolvimento tecnológico e a sapiência adquirida pela sociedade decoram os títulos dos sábios doutores em suas paredes dos réveillons seguros, onde a construção da ciência não é disseminada para o bem comum, onde o acesso simples de coisas simples se tornaram impossíveis, e o pior, todos acreditam na impossibilidade deste acesso

As notícias assim são construídas e a vida real continua seu curso de forma natural.

Todos vão ao mar no réveillon é muita ingenuidade nossa imaginar que o barro um dia também não viria tomar o seu banho também. Ele veio e honesto sempre avisou, ele só não entende porque colocam tanto a culpa nele, ele não entende o estardalhaço da sua própria criação quando resolve descer um pouquinho para sentir o mar.

‘Deus moldou o homem no barro e soprou vida pelas suas narinas, do pó ao pó, do pó viestes e ao pó voltarás…’ Ele apenas não determinou a volta, nem o dia, ele não esta mentindo, já disse que voltaremos é fato inconteste, vale apenas a pena a precaução, vale a pena utilizar o que sabemos e adquirimos, vale a pena democratizarmos o saber e a possibilidade de viver, vale a pena nos tornarmos noticias melhores e reais e não fábulas fatais.

O barro é inocente como você, mas não te culpo é dele que viestes.

Vais ficar aí inocentemente o esperando?

******

Professor, Salvador, BA

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