Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS GLOBAIS

Um exemplo de péssimo jornalismo

Por Newton Pessoa de Almeida Junior em 02/10/2007 na edição 453

De tempos em tempos, o jornalista Ali Kamel, diretor executivo de Jornalismo da Rede Globo e contumaz articulista do jornal O Globo, se torna panfletário. Parece que a intenção é desenvolver o tema para depois vender livros. Tudo bem, quando esta atividade não violenta o bom jornalismo.

A mídia, como se não faltassem assuntos relevantes fornecidos por Brasília, se apossa das bandeiras levantadas pelo hábil articulista e preenche mais papel, o mais nobre dos espaços da imprensa, e propaga o panfleto.

O último exemplo foi um livro de história usado por estudantes da rede pública e privada. Kamel não deixou de perceber que um autor tenta levar as nossas crianças para o mau caminho da esquerda radical, talvez (delírio meu) numa tentativa de formar militantes para o PCO, PSTU e PSOL. O jornalista trata o livro como uma tentativa de manipulação dos fatos históricos, mas se esquece de citar que toda a ciência é ideológica. Melhor: toda a atividade humana é ideológica. Felizmente. [Ver ‘A polêmica sobre a nova história‘]

Fidel e o príncipe

O curioso é que Kamel é o executivo do telejornal mais acusado, sobretudo por militantes de esquerda, de manipulação da opinião pública. Kamel é inteligente, da mesma forma que Roberto Marinho foi um homem muito inteligente. Kamel sabe, e Marinho sabia, da capacidade de influência do Jornal Nacional junto à opinião pública e não por acaso Kamel foi um dos maiores propagadores da desmitificação de que o JN manipulou ou, mais polidamente, ‘editou’ os últimos momentos do debate Lula vs. Collor em 1989. O JN jogou limpo, apenas noticiou os fatos. O JN não tem ideologia, muito menos as cabeças que trabalham no JN.

Baseado no artigo de Kamel, eis que surgem matérias denunciando os absurdos contidos no livro no jornal O Globo e na revista semanal Época. No fundo, apenas reproduzem a denúncia anteriormente formulada por um usualmente habilidoso nas letras Ali Kamel. O curioso é que na mesma época um ex-banqueiro se encontra preso em Mônaco. Pouco se esclarece sobre a situação política deste peculiar principado sobre a opinião pública e talvez fosse uma ótima oportunidade para Kamel, O Globo, JN e Época esclarecerem que em Mônaco reside a mais antiga ditadura da Europa. Gostaria que Kamel me explicasse por que eu não posso chamar Fidel Castro de ‘comandante’, ‘líder’ ou ‘presidente’, sendo aos olhos de muitos apenas a palavra ‘ditador’ a adequada – o que é verdade – e ao príncipe de Mônaco eu não posso chamar de ‘ditador’ ou ‘autoritário’.

O lado panfletário

A história é ideológica. Qualquer atividade é ideológica. Se eu escrevo um livro estou inserindo nele a minha ideologia, as minhas crenças. Se não, não seria um livro meu. Isto se aplica aos livros didáticos e aos livros de Kamel.

Sendo assim, gostaria de saber se Kamel ficaria feliz em ler um artigo escrito num jornal com milhões de leitores com várias acusações sobre a obra e o articulista que não o tivesse ouvido antes. E é aqui que está o lado panfletário. Aqui residem os arranhões e a roupa rasgada. Simples: em nenhum momento, seja no artigo original de Kamel, seja nas reportagens posteriores do jornal O Globo e da revista Época, o autor do livro foi entrevistado. Se não foi encontrado ou não desejou se manifestar, isto não foi citado. Talvez um desligado e inocente estagiário não fizesse isto.

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Engenheiro elétrico, Rio de Janeiro, RJ

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