Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & RELIGIÃO

Uma imprensa supostamente imparcial

Por Ademir Morata em 19/02/2007 na edição 421

A dita ‘imparcialidade’ da imprensa vem sendo mais uma vez colocada à prova nas últimas semanas com o chamado ‘caso Renascer’ e os preparativos para a visita do papa. Não se trata aqui de entrar no mérito das acusações contra os fundadores da igreja evangélica mas, sim, de verificar a forma como a imprensa usa de dois pesos e duas medidas para aceitar uma ou outra definição de acordo com sua própria identificação religiosa.

Vejamos, por exemplo, a forma pela qual as matérias se referem aos acusados da denominação evangélica. Na maioria das vezes em que é citado, Estevam Hernandes é identificado como ‘bispo’, mesmo que a denominação o considere ‘apóstolo’. Nas vezes em que é tratado como ‘apóstolo’, a expressão vem sempre acompanhado de explicações como ‘chamado pelos membros de apóstolo’ ou ‘auto-intitulado apóstolo’.

Ponto de vista parcial

Mais uma vez, não se trata aqui de entrar no mérito mas, sim, de avaliar o comportamento supostamente imparcial da imprensa. Alguma vez, quando se refere à visita do papa ao Brasil a imprensa usou deste tipo de explicação? Algum jornalista usa a expressão ‘chamado pelos católicos de papa’ ou ‘auto-intitulado papa’?

Por que a imprensa aceita que este seja simplesmente papa e aquele não seja simplesmente apóstolo?

É claramente uma manifestação de total crédito inquestionável a uma definição e total descrédito à outra. E isto, podemos considerar como adoção de um ponto de vista predominantemente católico, ou totalmente parcial.

Livro de Efésios

Uma rápida busca pela base bíblica para a adoção das definições papa e apóstolo revela que a opção apostólica tem muito mais fundamento.

Enquanto a palavra papa simplesmente inexiste nas escrituras sagradas, a definição apóstolo é repleta de citações, inclusive uma bem direta, no livro de Efésios, a qual diz que o próprio Jesus Cristo deu o dom de apóstolo para alguns, com o objetivo de estruturar o funcionamento da igreja. Vejamos o texto literalmente:

Efésios:

4:7 – Mas a cada um de nós foi dada a graça conforme a medida do dom de Cristo.

4:8 – Por isso foi dito: Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens.

4:11– E ele deu uns como apóstolos, e outros como profetas, e outros como evangelistas, e outros como pastores e mestres;

4:12 – tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo;

4:13 – até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo;

Opção religiosa

Em outra passagem, até Pedro, tido pela tradição católica como o primeiro papa, se auto-identifica como apóstolo.

1:1 – Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que conosco alcançaram fé igualmente preciosa na justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo.

Um dos argumentos que pode ser usado contra a adoção da terminologia apóstolo é uma possível interpretação de que somente aqueles homens que foram contemporâneos a Jesus podem ser tratados por este título.

Seria uma chance de justificativa para a imprensa, mas que não justificaria a adoção da expressão papa passando por cima da ordem expressa no evangelho de Mateus, por intermédio do qual, em seu capítulo 23, no versículo 9, Jesus determina: ‘E a ninguém sobre a terra chameis vosso pai (ou papa, em italiano); porque um só é o vosso Pai, aquele que está nos céus.’

Diante de tudo isto, fica claro que não existe argumento possível para usar livremente papa e eliminar simplesmente apóstolo, exceto por opção religiosa explicitamente de acordo com as normas do Vaticano, professada pela imensa maioria dos veículos de comunicação no Brasil.

******

Jornalista, São Caetano do Sul, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/02/2007 Paulo Bandarra

    Claro que se trata sim de entrar no mérito das acusações contra os fundadores da igreja evangélica! Por que isto ficaria de lado? Por

  2. Comentou em 22/02/2007 Paulo Bandarra

    Claro que se trata sim de entrar no mérito das acusações contra os fundadores da igreja evangélica! Por que isto ficaria de lado? Por

  3. Comentou em 21/02/2007 Fábio Alves

    Caro Ademir,

    Interessante que você considere que a imprensa se adeque às ‘normas do Vaticano’… Eu pergunto: Que normas? Você pode nomeá-las?

    Eu leio artigos que propagam ou apóiam idéias que vão na contramão da doutrina católica, como o aborto, a contracepção… É essa imprensa que age ‘de acordo com as normas do Vaticano’? Creio que não…

    Outra coisa, a palavra papa não aparece na bíblia? Verdade, nem por isso ele deixa de sê-lo. Ademir não aparece na Bíblia, Fábio não aparece na Bíblia, mas isso não nos desqualifica de forma alguma.

    Quanto à ‘ordem’ no Evangelho de São Mateus, você chama seu pai pelo nome ou chama de pai mesmo? Seria desobediência chamar de pai? Você já percebeu a fraqueza do do seu argumento ou precisamos conversar mais por e-mail?

    Mas concordo com você numa coisa, se a imprensa chama o bispo protestante de bispo, porque não chamá-lo de apóstolo se são sinônimos? Isso é realmente incoerente. A questão da sucessão apostólica não está aqui em discussão, mas gostaria de lhe propor uma discussão por e-mail…

    Ivan, sua visão da Igreja Católica e do Opus Dei parecem distorcidas, levando em conta seu comentário… Pesquise, conheça, é o que lhe peço.

    Por fim, como católico, gostaria de pedir a todos, inclusive os católicos, que evitemos os ataques e trabalhemos juntos por um mundo mais cristão, verdadeiramente cristão.

    Paz e Bem!

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