Terça-feira, 23 de Maio de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº942

FEITOS & DESFEITAS > Emily Dickinson (1830-1886)

Uma mulher, uma arma carregada

Por Kathleen E. Gilligan em 13/06/2016 na edição 907
Versão original, “Emily Dickinson’s ‘My Life had stood – a Loaded Gun –’: revealing the power of a woman’s words”. publicada na revista eletrônica Student Pulse (atual Inquiries Journal http://www.inquiriesjournal.com), em 2011 (v. 3, n. 9). Tradução e intertítulos: F. Ponce de León

Nascida em 1830, de pais calvinistas, em Massachusetts, Emily Dickinson é reconhecida como uma das maiores poetas dos Estados Unidos. Embora seus poemas frequentemente tratem da morte, ela de fato escreveu sobre muitos assuntos. Vida, natureza, amor, ciência, céu, inferno, religião, escrita e anseio são apenas alguns dos tópicos que ela explorou. Em muitos casos, seus poemas parecem ter uma mensagem direta, detalhada de um jeito que mesmo aqueles que não estão familiarizados com poesia são capazes de perceber o seu significado.

Outras vezes, a poesia dela pode parecer confusa ou estranha, até mesmo ao leitor mais atento. Nesses casos, é necessário esquadrinhar as pistas que ela deixa em suas palavras, de modo a decifrar o significado oculto. Seu uso aparentemente aleatório de letras iniciais maiúsculas, a ausência de pontuação ou a obsessão por travessões e o uso incorreto da gramática, tudo foi feito deliberadamente, às vezes para realçar a mensagem que, de outro modo, seria ignorada. Um poema assim, de múltiplos significados, é “My Life had stood – a Loaded Gun –”. Para o leitor comum, o poema personifica uma arma; diversas pistas metafóricas, no entanto, levam a uma segunda mensagem e significado: uma mulher e suas palavras têm um poder enorme.

Em toda a sua obra, Dickinson não parece se importar com o que é aceito socialmente. Ela não foge de assuntos como religião e/ou céu e inferno, talvez os mais controversos da época e que, por isso mesmo, podem ter sido evitados por outros autores e poetas (e mulheres, em particular). Em vez de tentar ocultar sua aversão à religião organizada, ela fez o contrário, ostentando suas concepções. “Some keep the Sabbath going to church” e “I’m ceded – I’ve stopped being Theirs –” são exemplos perfeitos disso. Ainda assim, alguns de seus poemas contêm significados ocultos que não são necessariamente óbvios.

Emily Dickinson raramente publicava seus poemas, não por que tivesse receio da crítica e sim por ter ficado insatisfeita com a edição que alguns deles sofreram por parte daqueles a quem ela os enviara. Se não tinha receio da crítica, é provável que ela simplesmente gostasse de criar poemas de duplo sentido. “My Life had stood – a Loaded Gun –”, escrito em versos que alternam trímetros iâmbicos e tetrâmetros, com as estrofes rimando em abcb ou abcd, é ainda mais interessante pelos seus dois significados.

O tema e o narrador do poema

O primeiro verso inclui de pronto uma cesura, armando o cenário para o significado literal do poema em seis estrofes (1). “My life” é o tema do verso, tornando-se posteriormente o tema do poema (1). Todavia, o narrador, ou a persona do poema, é de fato a arma, conforme indicado após a falsa terminação do segundo verso: “The Owner passed – identified –/And carried Me away –” (3-4). O “Me” é a arma (4). Parafraseando, a arma permaneceu no canto até que o seu proprietário veio e a levou.

De outro modo, se examinamos mais profundamente estes versos, poderemos conectá-los a uma mulher e suas palavras. O “My Life” se torna a vida de uma mulher, enquanto o “Loaded Gun” indica o potencial de perigo e poder que há na mulher. Todas as quatro palavras iniciam com letra maiúscula e no verso, embora tenha uma sílaba a mais, “Loaded” praticamente se torna paralela ou equivalente às demais. A mulher permaneceu “In Corners” até que o seu “Owner”, ou esposo, a “identified”, ou escolheu, e a “carried” consigo (2-4). Dickinson está dizendo que as mulheres são poderosas, mas são instrumentos dos homens e frequentemente não têm outra escolha a não ser esperar pelo casamento.

A segunda estrofe diz o que a arma personificada faz. Dickinson emprega uma anáfora nos versos iniciais, salientando a mudança que ocorreu. “We” se refere à arma e seu proprietário, afirmando claramente que eles “roam in Sovreign Woods –” e “hunt the Doe –”, ou atravessam o bosque e caçam um cervo (5-6). O verso “every time I speak to Him” alude a quando a arma dá um tiro e “The Mountains straight reply –” é o som do tiro atingindo as montanhas e retornando (ecoando) até a arma e seu proprietário (7-8). Este significado é óbvio, apesar da linguagem figurativa a respeito das montanhas ecoando. Quanto ao segundo significado, sobre as palavras de uma mulher, há alguns indícios generosos nessa estrofe. “Sovreign” frequentemente indica alguém de autoridade e poder supremos e nesse caso se refere aos homens (5).

O “We roam in Sovreign Woods –” alude à presença do esposo e da esposa no mundo dos homens (5). O “We Hunt the Doe –” foi cuidadosamente formulado por Dickinson (6). “Doe” poderia facilmente ter sido substituído por “deer” ou “buck”, mas o escolhido foi a fêmea da espécie (6). Este verso dá a entender que, no mundo dos homens, as fêmeas ou o poder delas são abatidos. Os homens não podem permitir que as fêmeas se tornem poderosas demais. Quando a fêmea “speak for Him”, “The Mountains straight reply –” (7-8). Dickinson está dizendo que quando uma mulher toma uma decisão que normalmente é do homem, ou se aventura a escrever algo (aventurando-se em um território que os homens têm como deles), ela nada consegue. Poderíamos ler estes versos como se o caminho da mulher fosse bloqueado por uma parede (“Mountains”) ou como se ela fosse imediatamente recebida com críticas (“straight reply”) (8).

As duas interpretações prosseguem na terceira estrofe. O “smile” e a “light” que “Upon the Valley glow –” indicam a faísca e o clarão de quando a arma dispara (9-10). “It is as a Vesuvian face/Had let it’s pleasure through” compara a faísca e o clarão a uma explosão súbita e violenta, como o Vesúvio em erupção (11-12). O significado da estrofe muda se a persona é uma mulher. O “smile” e o “cordial light” poderiam ser a máscara educada que uma mulher deve usar no mundo dos homens, ou mesmo a aparência amável de sua poesia (9). A “Vesuvian face” deixando “its pleasure through –”, contudo, pode ser uma alusão a uma mulher explodindo por meio da escrita, deixando passar as suas palavras (11-12). Um vesuviano era também um fósforo de queima lenta usado para acender charutos e Dickinson poderia querer indicar que, uma vez liberado, o poder das palavras de uma mulher não desvanece facilmente (“vesuvian”).

A segunda metade do poema

Retornando à história da arma, a quarta estrofe conta o que a arma faz ao fim do dia. Nessa estrofe do poema, mais do que em qualquer outra, Dickinson usa aliteração, tirando partido de sons repetidos em “Day done”, “My Master’s” e “Duck’s Deep”. No primeiro verso da estrofe, ela também flerta com a linguagem e a estrutura, usando tanto “Night” como “Day” (13). “I guard my Master’s Head –/’Tis better than the Eider Duck’s/Deep Pillow – to have shared –” diz respeito à disposição da arma à noite (14-16).

A arma está acima da “Master’s Head”, talvez na parede, convencida de que este é o melhor lugar para estar, contrapondo-se ao travesseiro de “Eider Duck’s” que eles poderiam “have shared” (14-16). O significado alternativo mostra que o esposo da mulher é também o seu “Master” (14). “’Tis better than the Eider Duck’s/Deep Pillow – to have shared –” significa que a mulher está deixando a suavidade da vida feminina e até, talvez, de compartilhar o leito com seu esposo (15-16).

“To foe of His – I’m deadly foe –/None stir the second time –” é fácil de compreender, conquanto acreditemos que a arma seja o narrador (17-18). A arma protege o seu proprietário de qualquer “foe” (17). Ninguém se levanta uma “second time”, pois todos estão mortos (18). Por que eles estão mortos? Porque a arma lançou um “Yellow Eye”, que é a faísca no momento em que a arma dispara e talvez a própria bala, e “an emphatic Thumb”, ou o dedo que puxa o gatilho da arma, permitindo que ela atire (19-20). No sentido alternativo dessa estrofe, a mulher declara “To foe of His – I’m deadly foe” (17).

O travessão está no meio do verso, o que desvirtua o significado. Em vez de significar que a mulher é mortífera ao “The foe of His”, é como se ela quisesse dizer ao “The foe of His” e a todos os demais que “I’m deadly foe” (17). Ela é mortífera em razão do poder que suas palavras carregam e estas, uma vez usadas como armamento, “None stir the second time” (18). O “Yellow Eye” poderia se referir ao ‘olho ictérico’, quando algo é examinado com olhar negativo ou crítico (19). O “emphatic Thumb” poderia querer se referir a tomar uma decisão sobre algo (polegares para cima ou polegares para baixo), expressando um ponto de vista de modo convincente (20). Juntos, “Yellow Eye” e “emphatic Thumb”, ou as palavras críticas da mulher a respeito de algo, são irrefreáveis.

A estrofe final, embora em um tom diferente do restante da peça, preserva o duplo sentido. Dickinson usa de aliteração quando a arma afirma que “may longer live” e, aparentemente perturbada com a sua longevidade, insiste que “He longer must – than I”, ou que o seu proprietário deve viver mais tempo (21-22). A arma parece ansiar a morte que futuramente irá chegar ao proprietário, mas que nunca irá apanhá-la, pois não é humana. Nos dois versos finais, a arma praticamente expressa sua aversão ao seu ofício e, mais uma vez, há uma insinuação de anseio pelo que ela nunca terá: “For I have but the power to kill,/Without – the power to die –” (23-24).

Resistindo ao teste do tempo

No fim das contas, a arma era apenas um instrumento a ser usado por seu proprietário e nunca será capaz de encontrar a paz que ele terá. Nessa estrofe do poema de Dickinson, o significado relativo à mulher é um pouco diferente. O “Though I than He – may longer live/He longer must – than I” significa que ela percebe que lhe é possível viver mais tempo, porém, fisicamente, ele deverá viver mais do que ela (21-22).

A razão disso é que ela tem “the power to kill,/Without – the power to die – ”, no sentido de que suas palavras e poesia têm o poder de matar (ou brigar ou discutir) e não podem ser refreadas ou recolhidas, uma vez que ela as coloque em circulação; portanto, visto que as suas palavras serão imortais, é necessário que os homens vivam fisicamente mais do que ela, de modo que as suas palavras estarão continuamente ao redor deles (23-24).

Poesia raramente significa o que parece significar. Há, muitas vezes, um significado oculto ou duplo nas palavras aparentemente inocentes que são apresentadas ao público. O lugar perfeito para esconder qualquer coisa é à vista de todos, seja um objeto proibido ou um assunto tabu. Como dito acima, Dickinson não tinha problema de lidar com temas difíceis, como céu, inferno ou religião, e, portanto, os poemas não contêm significados ocultos por que ela tinha receio da crítica.

A rigor, isso provavelmente se deu pelo simples fato de que ela apreciava a experiência de empilhar significados, uns sobre os outros. Seus poemas podem ser comparados a escavações arqueológicas. Há uma camada superficial, cavando-se um pouco, porém, encontra-se outra camada. No caso de “My Life had stood – a Loaded Gun –”, o significado superficial é a respeito de uma arma personificada, porém, indo um pouco mais fundo no texto, as concepções de Dickinson sobre as mulheres e a poesia talvez se revelem: uma mulher e suas palavras são poderosas e, no mundo dos homens, elas resistirão ao teste do tempo.

Notas do tradutor

[1] Eis o poema original:

My Life had stood – a Loaded Gun
Emily Dickinson

My Life had stood – a Loaded Gun –
In Corners – till a Day
The Owner passed – Identified –

And carried Me away –
And now We roam in Sovreign Woods –
And now We hunt the Doe –
And every time I speak for Him –
The Mountains straight reply –

And do I smile, such cordial light
Upon the Valley glow –
It is as a Vesuvian face
Had let it’s pleasure through –

And when at Night – Our good Day done –
I guard My Master’s Head –
’Tis better than the Eider-Duck’s
Deep Pillow – to have shared –

To foe of His – I’m deadly foe –
None stir the second time –
On whom I lay a Yellow Eye –
Or an emphatic Thumb –

Though I than He – may longer live
He longer must – than I –
For I have but the power to kill,
Without – the power to die –

[2] Ao menos seis versões em português de “My Life had stood – a Loaded Gun –“ já foram publicadas no país, em traduções de (o asterisco indica as versões a que eu tive acesso; entre parêntesis, editora/revista e ano de publicação): Vera das Neves Pedroso (Lidador, 1965); Aila de Oliveira Gomes (T. A. Queiroz & Edusp, 1985); Ivo Bender (Mercado Aberto, 2002; L&PM, 2007); José Lira* (Iluminuras, 2006; ver aqui http://poesiacontraaguerra.blogspot.com.br/2016/06/minha-vida-era-uma-arma-carregada.html); Antônio Carlos Queiroz (Retrato do Brasil, 2009) e Augusto de Campos* (Cult, 2014). Um levantamento dos poemas de Emily Dickinson publicados em português (no país e alhures) pode ser consultado no sítio da Unesp (São José do Rio Preto, SP), aqui http://www.ibilce.unesp.br/#!/departamentos/letras-modernas/emily-dickinson/poemas-traduzidos-poem-translations/).

[3] Registro a seguir a minha proposta de tradução, a saber:

Minha Vida estancou – uma Arma Carregada
Emily Dickinson

Minha Vida estancou – uma Arma Carregada –
Pelos Cantos – até um Dia
O Proprietário passou – Reconheceu-me –
E para longe Me levou –

E agora Nós vagamos por Bosques Soberanos –
E agora Nós caçamos a Corça –
E toda vez que por Ele eu falo –
As Montanhas de pronto respondem –

E eu sorrio, tamanha luz cordial
Sobre o Vale irradia –
É como um rosto Vesuviano
Que expressa o prazer –

E quando à Noite – Nosso bom Dia feito –
Eu velo a Cabeça do Meu Mestre –
Isto é melhor que o Fundo Travesseiro de
Penas de Pato – ter de partilhar –

Ao inimigo Dele – sou inimigo mortífero –
Nenhum se ergue a segunda vez –
Sobre quem eu lanço um Olho Amarelo –
Ou um Polegar enfático –

Embora mais do que Ele – eu possa viver
Ele deve viver mais – do que eu –
Pois eu tenho apenas o poder de matar,
Sem – o poder de morrer –

***

Kathleen E. Gilligan é professora e editora independente

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