Quarta-feira, 24 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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Uma novelinha na mídia

Por Alexander Goulart em 19/12/2005 na edição 360

Bruna Surfistinha está na boca do povo. A ex-garota de programa tem sido objeto de discussão entre vizinhos, senhoras no salão de beleza, homens em barbearia ou no futebol, acadêmicos, prostitutas, e – como não poderia deixar de ser –, na mídia. Já passou pelos principais programas de televisão que tratam do ‘mundo das celebridades’, deu entrevistas aos principais jornais e revistas e seu livro está entre os mais vendidos. Bruna Surfistinha é um sucesso! Mas a que custo? Será que Raquel Pacheco (seu nome verdadeiro) conseguirá sobreviver ao efeito contrário que sua exposição está gerando para si mesma? Ao mostrar a cara, Raquel se lançou à execução pública.

Bruna tem sido usada pela mídia, especialmente a televisão. Não é santa, também sabe se aproveitar do espaço que está recebendo, o que lhe garante mais algumas edições do O doce veneno do escorpião – Diário de uma garota de programa (Panda Books). A audiência cresce sempre que Bruna começa a falar de sua vida; uma vida aberta, tornada pública por vontade própria. Parece que o público gosta de saber o que se passa na alcova, tem curiosidade sobre os detalhes íntimos da vida de uma garota de programa. Bruna sabe disso e, com muita desenvoltura, presenteia o público com relatos picantes.

Talvez o que ela não imaginasse é que tornar público o que todos sabemos existir fosse causar tanta polêmica. Mostrar o rosto, escrever um livro e dizer que fará faculdade de Psicologia é excesso de realismo para o público brasileiro. Bruna é uma garota de programa muito real, ela existe de fato, tem rosto, conta os segredinhos da profissão, diz por que os homens casados a procuravam. Ela não é a prostituta glamurosa de Uma linda mulher, não é uma anônima que faz anúncio em classificados, não é uma fotografia de outdoor: Bruna é a prostituta que saiu do anonimato, da exclusão social, da marginalização e entrou nas casas pela mídia. Transformada em personagem, recebe agora o ódio e o amor do público que assiste a sua trajetória rumo… a quê? O que quer? Que fim terá? Uma vez que sua história virou um drama, o público espera o desfecho.

A dor ou a TV

E o drama de Bruna começou no momento em que veio à tona seu relacionamento com o namorado que ela chama de Pedro. Homem de boa condição financeira, casado, pai de duas filhas, Pedro abandonou a família para ficar com a garota de programa. No decorrer da história, a mídia foi buscando mais elementos para o romance: encontrou a ex-mulher de Pedro, que esteve no programa de Luciana Gimenez. Trata-se de uma mulher muito bonita, aparentemente muito equilibrada. Surge a pergunta: como Pedro foi capaz de trocar a família por uma garota de programa?, pergunta o público.

Bruna não é Julia Roberts. Bruna não é Capitu. Bruna não está nos bordéis de Aguinaldo Silva, não está em Bang Bang. Bruna não é um personagem interpretado por Raquel Pacheco – seria mais provável o contrário.

A mídia é hipócrita. De um lado dá espaço a Bruna, de outro faz ‘debates’ para julgá-la. Seu julgamento virou uma novelinha com todos os ingredientes do sucesso. E a mídia precisa do sucesso. Quando a história terminar ou enjoar, ou outro drama melhor surgir, as vidas desses personagens continuarão. Essas pessoas detêm algum valor enquanto moeda de troca. Perdido o valor, restará a dor, o vazio, a solidão do ostracismo ou, quem sabe, algumas fotos na Playboy, filmes, outros livros e até um programa na TV – há tantos exemplos na televisão brasileira de ex-amantes, ex-namoradas, ex-mulheres que conseguiram um lugar ao sol… Mas uma ex-garota de programa – assumida – será a primeira vez.

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Jornalista, Porto alegre

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