Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > OPERAÇÃO CAIXA DE PANDORA

Uma questão moral para a imprensa

Por Cleyton Carlos Torres em 15/12/2009 na edição 568

O mensalão dos democratas nasce exatamente como todo mensalão, após a era José Genoino e José Dirceu, deveria nascer: embasado em corrupção, caixa dois e, principalmente, dinheiro na cueca. Há algo de sinistro na áurea dos políticos. Eles sempre acabam colocando o dinheiro nas partes íntimas. Deve ser algo crônico, inconsciente ou algum aprendizado na forma de administrar o Brasil.

Entretanto, o fato que devemos estar atentos é em relação à crítica petista e o andamento da cobertura midiática perante o fato. Para o mensalão dos ‘demos’, como os democratas são costumeiramente encarados pela imprensa, o PT quer abertura de processo de impeachment. No mensalão do PT, quem se encarregou de pedir tal inquérito foi a própria imprensa. Agora, acuada, a mídia se sente no dever moral de, grosso modo, gritar, espernear, acusar e cortar cabeças de alguns membros desse mais novo escândalo de proporções nacionais – ou meramente publicitárias.

No início da leve crise que ameaçou se instalar envolvendo algumas prefeituras tucanas metidas em corrupção, tempos atrás, a mídia foi massacrada por ser parte da ‘elite branca’ e por isso não dar pesos e medidas semelhantes aos que deu para com o Partido dos Trabalhadores e todos os 40 mensaleiros. Agora, para compensar tal fato, a imprensa nacional se sente no dever de caçar novas bruxas, atuando desesperadamente para enquadrar membros do PSDB e do PMDB no meio do bolo.

O que se vê nisso é que o maior feitio de uma democracia, a imprensa livre, não sabe lidar com escândalos e casos de corrupção – em pleno país dos escândalos e dos casos simultâneos e nunca punitivos de corrupção. O mensalão do PT foi tão pitoresco, tão explosivo, tão ao estilo reality show que toda a imprensa escrita, televisiva e da web pretende realizar mais um Big Brother Mensalão.

A crítica no jornalismo político perde poder frente às demonstrações de intimidades e crises conjugais dos políticos. Jornalismo de opinião, de crítica e de debate deve, sobretudo, levar aos consumidores de notícias fatos extremamente relevantes, com certas doses de posições ideológicas e partidárias. O jornalismo é assim. O jornalismo político deveria ser assim. Tentar transformar o mensalão dos demos no mensalão dos petistas, única e exclusivamente pelo receio de ser caracterizada como imprensa de elite, branca e preconceituosa, nos leva a refletir até onde o mensalão petista existiu, já que tudo era motivo de escândalo, e até onde o mensalão dos democratas realmente existe, já que tudo é mera culpa de consciência?

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Jornalista e blogueiro, pós-graduado em Assessoria de Imprensa, Gestão da Comunicação e Marketing, Pindamonhangaba, SP

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