Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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FEITOS & DESFEITAS >

Uma resposta a oferecer

Por Jean Carlos Corrêa em 04/03/2008 na edição 475

As inquietudes do fotojornalista André Teixeira, reveladas por ele em um artigo publicado na edição de março da revista bimestral Photo Magazine, resumem os dilemas éticos que apenas os profissionais que fazem do registro da imagem de um fato – ou antes, realizam o recorte fotográfico à espera de um sentido que lhe será atribuído, em geral posteriormente, na redação – vivem cotidianamente.

Em resumo, são elas: quando fotografar e quando abaixar a câmera? Como portar-se diante do sofrimento alheio? Como o fotojornalista se sentiria, caso fosse a sua dor perante uma tragédia o alvo do registro fotográfico? Por tabela, entra a questão: o que ele deve fazer quando deparar com uma pessoa cuja vida corra risco? Esquecer o disparador da câmera e a distancia segura, que beira a um ato de voyeurismo? Ou protagonizar o fato, e até salvar a vida de alguém? Tais questões não são das mais fáceis, mas enquanto profissional do jornalismo, reflete Teixeira, fazer as fotos é a atitude correta, embora ele insista em sua inquietação e considere o problema do ‘fotografar ou não’ um enigma sem resposta.

Guerra da Bósnia

Defendo a valorização do olhar do fotojornalista, e do fotógrafo de maneira geral, este, sim, o responsável pelo produto final, a foto, resultado possível de ser obtido, às vezes com qualidade comparável, tanto com uma tosca câmara escura quanto em uma câmera digital último tipo. E também é preciso dizer: o fotojornalista está sujeito a pressões que apenas aqueles que compartilham a profissão conhecem de fato, algo como um ‘sortilégio’ atirado sob quem se inicia no fotojornalismo; enquanto imaginamos tantas outras atividades profissionais onde a ética pessoal é posta à prova a cada instante, nem fazemos idéia que tal possa ocorrer com o geralmente afobado profissional munido de câmeras e objetivas que cruze nossos caminhos.

Julgar uma fotografia é uma atitude subjetiva. Portanto, cogitar as reações que provocará é um exercício cuja certeza é impossível determinar. O conteúdo dessa foto pode ter efeito diverso, a depender da sensibilidade da pessoa que a vê, ou falando racionalmente, da bagagem cultural que ela carrega e suas vivências individuais. Para exemplificar, no meu caso, uma foto-retrato de uma criança, dessas tiradas em dia ensolarado, onde o sorriso da criança consegue ser mais natural do que normalmente o é, ilustrando sua trágica morte, picada por um escorpião – consegue ter um efeito devastador sobre mim.

Da mesma maneira, não esqueci de uma foto, ilustrativa de uma entre tantas limpezas étnicas cometidas durante a guerra da Bósnia. Entre as vítimas que apareciam na cena, uma menina pequena, ainda com as roupas de frio com as quais certamente a mãe a vestiu cuidadosamente antes que a brutalidade da guerra pusesse o ponto final em suas vidas. E o que tornava a foto ainda mais chocante para mim… a chupeta, ao lado do corpo, presa por uma correntinha. Uma imagem da qual nunca mais me livrarei, que carrego comigo e da qual ocasionalmente lembro.

Emoção com a dor do outro

Jamais culparia o fotógrafo que a fez, nem o acusaria de ser um monstro de insensibilidade, da mesma maneira que jamais culparia o fotojornalista que registrou o massacre de My Lay – outra foto que carregarei até o fim. Se aos olhos do próprio fotojornalista, ao menos daqueles que pensam criticamente sobre o ato fotográfico, como Teixeira, fotografar o instante do trágico possa significar uma ofensa à dignidade da vítima ou a de seus familiares, por menos explícita que a fotografia seja (porque a intensidade do seu impacto dependerá da subjetividade de cada um), ele deve pensar que o seu ato também é uma forma de denúncia do absurdo da violência em si, da fragilidade da nossa existência e por fim, uma possibilidade para que alguns de nós nos compadeçamos delas, vítima e familiares.

Susan Sontag analisou criticamente a distância que o nosso olhar estabelece com as vítimas de uma atrocidade registrada pela fotografia. Ela escreveu, na coleção de ensaios Sobre Fotografia (Companhia das Letras): ‘O choque das atrocidades fotografadas se desgasta com a exposição repetida (…)’ e mais adiante: ‘O vasto catálogo fotográfico da desgraça e da injustiça em todo o mundo deu a todos certa familiaridade com a atrocidade, levando o horrível a parecer comum (…)’.

Sontag poderia ter abordado, com igual paixão, a via inversa, o efeito contrário da fotografia (seja a de uma mãe sofrendo a perda de um filho, seja o retrato de uma criança sorridente, em uma matéria que ilustre o final trágico de sua própria existência, ou a foto de um massacre brutal). Se tais fotos podem fazer com que, a exemplo dela, nos sintamos ‘irremediavelmente aflitos, feridos (…)’ sentindo que ‘algo morreu, algo ainda está chorando’, também resgatam nossa humanidade; fazem com que nos emocionemos com a dor do outro; e eventualmente – graças a ela, a fotografia – derramemos algumas lágrimas por alguém que nunca conhecemos e jamais vamos conhecer.

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Jornalista provisionado e estudante do 9º período de Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia, Juazeiro, BA

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